Vivemos momentos históricos na semana passada, que marcam definitivamente este novo ano de 1926 que vivemos em Portugal. O início destes anos 20 estava a ser de demasiados progressozinhos para aquele tipo de gente que nós sabemos, mas felizmente tem-se-lhes sido posto um mais que necessário travão.
Este sábado, houve uma bela, magnífica, suprema marcha pela vida, logo, contra o assassínio de bebés – vulgo aborto. E olhem que ainda eram umas boas centenas daquilo a que gosto de chamar de talibãs católicos, visto que são tão extremistas como os seus espelhos islamitas, embora, claro, benfeitores, um extremismo do bem, e muito mais bem-vestidos que os barbudos de túnica.
Aliás, deixo já aqui a nota de grande apreciação às vestimentas na marcha. Era toda uma enorme mancha de bege, caqui, branco e azul bebé. Cortes clássicos, folhos, casacos encerados e, claro, o icónico sapato de vela, que nunca pode faltar a quem só faz às escuras e em missionário. No fundo, é a farda oficial conservadora, porque nada grita tanto liberdade como vestirem-se todos de igual.
A marcha era constituída por imensos homens, mas também por muitas mulheres que, por acaso, tiveram autorização dos maridos para sair um pouco de casa e irem apanhar ar. Convenhamos, a ocasião não era de somenos. Afinal, trata-se de reparar o erro civilizacional histórico que foi deixar que as mulheres decidam sobre o seu próprio corpo e possam fazer abortos de forma legal e segura. Ou seja, quando deixou de ser apenas como daquelas vezes em que homens casados – em nada relacionadas estão as histórias que circulam sobre dirigentes de partidos presentes na marcha – mandavam raparigas para Espanha (e não era de Erasmus), e que é precisamente ao que necessitamos de voltar.
Adorei os cartazes e faixas com os dizeres. Particularmente um que tinha a imagem da cara do Ronaldo – o nosso jogador acusado de violação mais conhecido – com uma seta a dizer “um ser humano”, e uma imagem de um embrião a dizer “também um ser humano”. Absolutamente brilhante. De certeza que o jovem que o fez teve 5 a ciências, no colégio que é propriedade do melhor amigo do pai.
Também gostei muito da faixa com a frase de Zeca Afonso “a morte saiu à rua num dia assim”, tirada de uma música que versava sobre o José Dias Coelho, um comunista assassinado pela PIDE. Excelente apropriação. É certo que se o Zeca fosse vivo e visse isto, acabaria por ele próprio se matar. Mas gente que ainda defende a colonização sabe sempre, de facto, como se apropriar do que não é seu.
Ah, e só para acabar, outro que adorei! Dizia: direitos humanos para todos! Mas pena que tenha sido num A4, e por isso não cabia a frase que nós bem sabemos que é a completa: direitos humanos para todos, menos para as mulheres, gays, lésbicas, trans, bis, intersexo, negros, ciganos, brasileiros, indianos, imigrantes no geral e, claro, pobres. No fundo, o todos é 10% da população do País, os escolhidos do seu Deus.
Fico feliz por ver toda esta defender com unhas e dentes os direitos dos fetos, mesmo que assim que estejam cá fora já sejam contra o seu direito à saúde e escola públicas, a bons transportes, a uma casa para viver, a salários justos, a amarem quem quiserem e serem quem quiserem ser. É que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Junta-se isto à luta contra os direitos trans, e podemos dizer: que bom é o ar que se respira em Portugal de 1926.
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