Por esta é que não esperavam, não é verdade? Nem eu, mas cá estamos.
Chego à VISÃO a meio desta empreitada à qual os seus jornalistas se atiraram, a de reclamarem a revista para si e para os leitores. Em tempos em que tantas democracias abanam mais do que ninhos de pardais ao passar da Ingrid, estes movimentos ainda nos dão um quentinho no coração democrático. E é com sentimento de privilégio que me junto à revista, sendo mais um de tantos a não fechar os olhos.
Já quem decidiu fechar os olhos a uma violação insana, foi o coletivo de juízes de Beja num caso recente. Às vezes até dá a ideia de que aquilo de a justiça ser cega não é uma metáfora.
Vamos aos factos. Segundo o Jornal de Notícias, um jovem de 19 anos violou a ex-namorada. Foi condenado pelo tal coletivo de juízes a 5 anos, mas com pena suspensa, e foi libertado imediatamente da pena preventiva a que estava sujeito, porque lhe quiseram dar uma “nova oportunidade”. Sou completamente a favor de novas oportunidades, atenção, e até vos digo que acho ter sido de grande mérito o programa “novas oportunidades” de José Sócrates (talvez graças a isso e ao Magalhães é que hoje temos aquele absoluto banger, o hino “Obrigado, José Sócrates” – pesquisem no YouTube). Mas, no caso desta condenação suspensa, não sei se não se estará a esticar a corda para lá da benevolência do próprio Jesus Cristo.
É que reparem: “a acusação incluiu violação e violência doméstica, ambos agravados por terem sido perpetrados com ‘extrema violência’ e sob ‘ameaça de arma’.”
Pode ser de mim, que percebo pouco de direito penal, mas não sabia que pela lei, em casos de violação e violência doméstica, o facto de serem executados com extrema violência ainda serve é de atenuante. Realmente, estamos sempre a aprender.
Não chegando, o que me deixou ainda mais intrigado, foi o bando, a manada, a cáfila (podemos chamar assim? acho que podemos, já que vale tudo) de juízes ter decidido que o jovem violador ficaria em liberdade por ter demonstrado arrependimento durante o julgamento.
Vou dar-vos outro facto sobre o crime. Para violar a ex-namorada, este jovem – que coitado, pelos vistos foi só ligeiramente precipitado – conduziu desde Caíde de Rei, Lousada, até Almodôvar. São 523km. Leram bem, sim. Até fui verificar ao Via Michelin, e isto, sem paragens para café, xixi e enrolar ganzas por causa dos nervos, são 5h14m a conduzir, com um custo de €104,4. Ou seja, ele estava em casa lá na Lousada, tomou aquela decisão espetacular de ir cometer um crime hediondo contra a ex-namorada, teve pelo menos 5h e 100 paus para pensar que “se calhar isto é má ideia”, mas nada o deteve. Até dá impressão que os juízes nem o perdoaram pelo arrependimento, mas premiaram antes pela determinação.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.