<#comment comment=”[if gte mso 9]> Normal 0 21 false false false PT X-NONE X-NONE MicrosoftInternetExplorer4 Em Patong, na ilha de Phuket, no Sul da Tailândia, está calor em todas as horas do dia e da noite. É um calor húmido, colado à pele e que, no entanto, parece nascer do seu interior, é calor grosso que escorre pelos poros. Lá, numa rua a que os estrangeiros chamam Bangla Road, com bares de um lado e de outro, com discotecas seguidas, há colunas de som mais altas do que eu a explodirem música diferente de todas as direções. Encontrando caminho entre a multidão, aproximam-se vozes a gritar ofertas em inglês nasalado, sotaque tailandês, poucas palavras; há vultos garridos que caminham direitos a mim, como se fossem agarrar-me, e que me colocam letreiros à frente: cerveja barata. Essa é uma pausa nas luzes apontadas aos olhos: luzes cor-de-rosa, vermelhas, roxas ou cor de laranja, como o fogo.
Ainda assim, posso afirmar que a Bangla Road não tem ladyboys. Depois de subir e descer a rua várias vezes, não encontrei qualquer ladyboy. As transsexuais tailandesas são conhecidas pela sua beleza, por quase não se distinguirem de mulheres que nasceram mulheres, mas não foi por isso que não encontrei ladyboys na Bangla Road, foi porque não estava lá nenhuma, tenho a certeza.
Nesses bares imensos, há centenas de metros de balcão, onde as ladyboys não sobem com sapatos dourados, saltos enormes, e não dançam em biquíni, abrindo às vezes o soutien e exibindo seios demasiado redondos, mamilos distorcidos. Também não dançam de calções muito apertados, minissaias, vestidos agarrados ao corpo que, em certos momentos, levantam para mostrar detalhes pós-operatórios. Nesses bares, as conversas não têm de ser feitas em voz bastante alta ou ao ouvido, com os lábios a tocarem-me na orelha, o calor do hálito a tocar-me na orelha. Também não há os dedos de quem passa, unhas de gel nas costas das minhas mãos. Da mesma maneira, também não há, garanto, uma certa forma de silêncio que sobrevive, imperturbável, inacessível, debaixo dessa música que as ladyboys não dançam, exatamente como não existe uma luz vermelha, inferno a fingir, que harmoniza as cores vivas dos biquínis, minissaias, calções curtos, vestidos agarrados ao corpo, que as ladyboys não vestem, porque não há ladyboys na Bangla Road.
Assim, é certo que, na Bangla Road, em Patong, na ilha de Phuket, no Sul da Tailândia, não existe uma ladyboy chamada Khem, diminutivo de um nome bastante mais longo. Não tem feições delicadas, alisadas por cosmética e cirurgias; não tem pestanas postiças que, como pétalas, se enrolam à volta dos olhos, lentes de contacto de qualquer cor clara. Não sou capaz de recordar o perfume açucarado do seu pescoço ou a espessura dos seus cabelos esticados porque ela não se sentou no meu colo. Não chegou e, sem pedir licença, se sentou no meu colo. Por isso, também não cheguei a sentir-lhe as pernas, músculos firmes, e ela não me agarrou o pulso e me assentou a mão na mama, dura. Como é evidente, ela não me sussurrou frases inconfessáveis ao ouvido, inglês de sotaque obsceno. Não, é claro que não recordo os lábios de silicone a passarem-me pela barba. Não tenho essa lembrança, porque, na Bangla Road de Patong, não existe uma ladyboy chamada Khem. Não existe qualquer ladyboy ao longo de toda a Bangla Road, Patong, Phuket, Tailândia.
E, mesmo que existisse, eu não a teria agarrado pela cintura, não a teria encostado ao meu peito, eu não teria sido capaz de apreciar essa proximidade porque eu sou um homem do país dos homens e do planeta dos homens. Sou daquele lugar em que ninguém tem qualquer dúvida e ofereço porrada a quem puser isso em causa. Não admito qualquer espécie de insinuação. Não há ladyboys na Bangla Road, ou em Patong, ou em Phuket e, tanto quanto eu sei, é mesmo possível que não haja ladyboys em toda a Tailândia. Estou pronto para andar à porrada com quem duvidar de mim, ou com quem me passar à frente no trânsito, ou com quem fizer demasiados likes no facebook da minha mulher. Estamos conversados? Se for preciso, para que se entenda melhor, faço voz grossa.
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