Vivemos tempos diferentes, tempos desafiantes. Dizemos a cada passo que existirá uma nova normalidade e, com isto, pretendemos dizer que queremos a nossa anterior forma de vida de volta.
Mas não creio que seja possível nem desejável. Este deve ser um tempo de coragem, de mudança em todas as áreas, de leitura desapiedada de sinais preocupantes e de ação célere para combater perigos bem mais preocupantes que qualquer vírus.
A França foi a votos autárquicos, no último fim de semana. A avassaladora maioria decidiu não participar. Isto no país berço da República não é displicendo. A maioria dos analistas optou pela explicação mais fácil: o medo de risco de contágio.
Com o devido respeito por muitos desses comentadores, essa não é, nem de longe nem de perto, a razão principal. Repare-se que o mesmo medo não tem sido suficiente para evitar manifestações ou aglomerações de puro convívio.
A razão principal, e que transvasa as fronteiras de praticamente todos os países, é que o povo, aquele que mais ordena, chegou a um ponto de total descrédito nas políticas implemetadas até ao momento e nos políticos que as apregoam. Esta é que é a verdade!
Aprendamos com o exemplo deste fim de semana em França. Pela primeira vez, o partido da senhora Le Pen conseguiu a presidência dum município: Perpignan. Características desta região? Um aumento de população imigrante, sobretudo magrebina, não integrada, colocada em guetos, com dificuldade no acesso ao mercado de trabalho e, como tal, atirada para a marginalidade
Com efeito, mesmo os partidos da liberdade, da solidariedade e da igualdade cairam na armadilha do poder pelo poder, iniciando, no dia seguinte a serem eleitos, a sua nova campanha. O objetivo é não perder eleitores, não perder votos, ganhar eleições e calar mesmo se o rei for nu. Algumas vozes levantam-se, é certo. Mas ou são abafadas ou, se o lugar de onde as proferem for incontornável, são de imediato conotadas com agendas pessoais.
Este é um terreno fértil para o aparecimento de extremismos, de partidos “tascas” que mais não fazem do que apontar o dedo ou demagogicamente pintarem uma realidade diferente da que efetivamente existe, sem apontarem uma única solução viável.
O aparecimento destes movimentos é, em grande parte, culpa dos partidos de esquerda e sociais- democratas, pois foram eles que, com as suas práticas e o seu relaxamento, deram munições e argumentos a estes discursos.
Aprendamos com o exemplo deste fim de semana em França. Pela primeira vez, o partido da senhora Le Pen conseguiu a presidência dum município: Perpignan. Características desta região? Um aumento de população imigrante, sobretudo magrebina, não integrada, colocada em guetos, com dificuldade no acesso ao mercado de trabalho e, como tal, atirada para a marginalidade. Perpignan receia tornar-se numa outra Marseille e por isso opta pelo discurso mais fácil e radical.
Não é uma situação que aparece da noite para a alvorada. É uma narrativa que se vai construindo com base em exemplos escrupulosamente escolhidos e minoritários, para justificar um discurso de ódio que começa a fazer eco mesmo no seio dos mais atentos e letrados.
Este é um momento de mudança e de não retorno. Uma benesse dada por um vírus que nos forçou a parar, olhar e agir de forma diferente. Mas não é fácil ir-se contra os interesses estabelecidos, os clientelismos, os compagnons de route , mesmo que estes não passem de políticos profissionais que o único que sabem é “contar armas” para manter o único estilo de vida que conhecem.
Mas o povo é ainda quem mais ordena e começa a estar farto do politicamente correto, das múltiplas alterações para que tudo fique igual, das comissões, dos projetos, dos grupos de análise e dos resultados zero.
Um ou outro político começa a chamar os bois pelos nomes e isso dá alguma esperança.
Mas não nos iludemos. Os outros “andem por aí” e demasiado rápido.