Há uma parte de mim que diz que não se deve dar palco. Que há opiniões que vivem precisamente da atenção que recebem. Mas há outra que insiste: as ideias devem ser debatidas. Todas. Mesmo aquelas de que discordamos profundamente.
O problema é que estamos a jogar num tabuleiro inclinado. Quem grita mais alto, simplifica mais e diz de forma mais leviana a maior mentira parece ganhar pontos de avanço. E quando a mentira é repetida com convicção, rapidamente passa por facto.
É sempre refrescante perceber que toda a gente tem um palpite sobre aquilo que uma mulher deve ou não fazer com o seu corpo. Como se o corpo de uma mulher fosse património público, disponível para julgamento, opinião e decisão alheia.
Não é.
Uma mulher pode ser conservadora. Pode defender o aborto ou ser contra ele. Pode ter convicções religiosas ou políticas diferentes das minhas. A liberdade permite-o. E é precisamente por isso que é tão importante recordar que muitas das mulheres que hoje podem discutir estas matérias em público só o podem fazer porque outras, antes delas, fizeram o caminho das pedras.
Querer ser conservadora, tudo certo. Querer impor essa visão como a única possível para todas já é outra coisa. A liberdade de escolher uma posição não pode servir para retirar às outras a liberdade de escolher uma diferente.
Todas as ideias devem ser debatidas. Mas há uma condição: honestidade.
Veja-se o caso da nova lei do Massachusetts. É uma lei que pode e deve ser analisada. Pode ser criticada, defendida e discutida. Mas é preciso lê-la.
E esse parece ser o problema: não se lê a lei, conta-se uma versão da lei. Depois amplifica-se essa versão, simplifica-se e repete-se até que a caricatura passe por realidade.
Isso não é debate. É desinformação.
Não precisamos de concordar com uma lei para conhecer aquilo que ela realmente diz. Aliás, quanto maior for a nossa discordância, maior deveria ser a obrigação de a ler antes de a atacar.
E depois há a hipocrisia.
Dizer que os 89 abortos realizados em 2024 na sequência de violação são um número “residual” é um daqueles momentos em que uma palavra aparentemente estatística passa a revelar muito mais sobre quem a utiliza do que sobre o número.
Oitenta e nove mulheres. Oitenta e nove histórias que não conhecemos. Oitenta e nove pessoas que passaram por uma violência que não escolheram.
Podemos discutir números. Mas não podemos esquecer que, por trás deles, há pessoas.
Chamar “residual” a isto é apenas… deixo ao leitor a escolha da palavra.
Talvez seja essa a questão essencial: podemos discordar sobre quase tudo. Podemos ser conservadores ou progressistas, defender ou rejeitar uma lei, ter convicções morais diferentes.
O que não podemos fazer é transformar opiniões em factos, caricaturas em leis e corpos de mulheres em património coletivo.
A liberdade não é escolher pelas outras.
É permitir que cada uma escolha por si.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.