Ainda a aldeia mal ficou para trás e Nuno Bravo já interrompe a caminhada. Não é para recuperar o fôlego nem para apontar para um miradouro. Fixa o olhar num castanheiro de tronco largo, marcado pelo tempo, e recorda as tardes passadas naquele souto, quando o recreio se fazia entre árvores centenárias e o regresso a casa só acontecia ao cair da noite. Para quem o acompanha, trata-se de mais um recanto da serra da Estrela. Para ele, é uma parte da infância que permanece intacta.
O trilho entra no souto da Lapa por um túnel de sombra desenhado pelas copas dos castanheiros. Algumas árvores terão vários séculos de vida e continuam a produzir fruto, enquanto outras guardam apenas as marcas de gerações que ali trabalharam a terra. A luz filtra-se entre os ramos, o chão cobre-se de folhas secas e o silêncio é interrompido pelo correr da água que desce das encostas. É um cenário difícil de associar à imagem mais conhecida da serra da Estrela, feita de penedos graníticos, neve e estradas de montanha. Aqui, a montanha revela outra identidade: verde, húmida e, acima de tudo, habitada.