Todos os anos, o verão altera profundamente a geografia humana de Portugal. Em agosto, o Algarve pode ganhar mais de 400 mil pessoas sem mudar de fronteiras. Com cerca de 580 mil residentes, chega a ultrapassar o milhão durante o verão, segundo as estimativas do INE. É quase como se surgisse um segundo Algarve, sem que nenhum recenseamento capte plenamente essa transformação. É o País que muda, temporariamente, de lugar.
Esta redistribuição repete-se, com intensidades diferentes, noutros destinos do litoral e em algumas localidades do interior, onde o verão também aumenta temporariamente a população. Durante semanas, muitas pessoas ficam longe do centro de saúde onde estão inscritas, dos profissionais que as acompanham e das redes de apoio habituais, embora continuem dentro do próprio país. As suas necessidades de saúde acompanham-nas, obrigando o sistema a responder a uma população temporariamente diferente daquela para a qual cada território foi planeado.
Reconhecer esse desajuste é fácil. Difícil é transformá-lo em planeamento. Até este ano, a resposta sazonal em saúde assentava em planos autónomos para o inverno e para o verão. A Portaria n.º 136/2026/1, publicada a 31 de março deste ano, substituiu esse modelo bipartido por um ciclo anual integrado e definiu quatro níveis progressivos de risco, do verde ao vermelho. Determinou ainda que a comunicação pública seja clara, atempada e baseada na evidência.
A mudança não resulta de o verão ter sido, até agora, ignorado. Os planos anteriores já contemplavam o calor extremo, os incêndios, a qualidade do ar, os afogamentos, as toxinfeções alimentares, os grandes eventos e o aumento sazonal da procura. O que muda é a lógica: os riscos deixam de ser tratados em dois blocos estanques e passam a ser acompanhados ao longo de todo o ano.
O que esta reforma ainda não resolve, por si só, é a distância entre medir o risco e transformar essa medição em ação. Um aviso laranja do IPMA é rigoroso, mas pode continuar abstrato para quem está fora de casa e não sabe que medidas foram ativadas nem onde procurar ajuda. Descreve o risco de uma região; não diz a ninguém o que fazer a seguir.
Há um exemplo capaz de preencher essa distância. Em 2022, Sevilha lançou o proMETEO, um sistema que classifica as ondas de calor mais perigosas e lhes dá nome, à semelhança do que já acontece com furacões; a primeira foi batizada de Zoe. O que torna este sistema interessante não é o nome em si, mas o que ele desencadeia automaticamente consoante a categoria, como a abertura de piscinas municipais e o contacto com pessoas idosas e outros grupos de risco. Um ano antes, Atenas já tinha criado o primeiro cargo de “Chief Heat Officer” da Europa, dedicado exclusivamente a coordenar a resposta ao calor extremo, seguida por Miami, Melbourne e Freetown.
Portugal também não parte do zero. A DGS utiliza há anos o Índice ÍCARO, um modelo que utiliza previsões de temperatura máxima para estimar o possível impacto do calor na mortalidade, e que voltou a confirmar a sua fiabilidade este verão: previu cerca de 60 óbitos em excesso associados a uma onda de calor de julho, contra um número real de 62. A ciência não é o elo mais fraco. O elo mais fraco é a tradução dessa ciência numa ação visível para quem está longe das rotinas habituais.
Esta distinção importa porque o verão não é vivido da mesma forma por todos. Quem tem médico de família atribuído, seguro de saúde ou meios para recorrer ao setor privado atravessa a época alta com uma rede de proteção que quase não se nota. Quem depende em exclusivo da resposta pública sente primeiro qualquer fragilidade no sistema, sobretudo quando a procura dispara com milhares de visitantes e com portugueses que, por umas semanas, também não estão em casa. Não está em causa a qualidade do trabalho de quem gere o SNS nesta altura do ano; está em causa a forma como a informação chega, ou não chega, a tempo de mudar um comportamento.
A experiência de Sevilha oferece uma lição útil: cada nível de risco deve estar associado a medidas concretas e a instruções conhecidas antes da crise. Quando o risco aumenta, deve ser claro o que muda no terreno: que espaços abrem, que serviços reforçam a resposta, quem deve ser contactado e em que situações é necessário procurar ajuda. Essa informação tem de chegar por canais locais e digitais, incluindo a quem está temporariamente no território, e não apenas sob a forma de um aviso técnico. É aqui que a comunicação estratégica e o marketing social podem fazer a diferença, ao transformar informação técnica num comportamento esperado, tendo em conta as barreiras, os contextos e os canais usados por diferentes pessoas.
Passámos décadas a preparar-nos para o inverno e a deixar-nos surpreender pelo verão. A lei já trata os dois como parte do mesmo ciclo. Falta agora que a comunicação, e não apenas o calendário, acompanhe essa mudança.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.