Com a chegada do tempo quente, os momentos de lazer multiplicam-se, mas o risco de afogamentos aumenta drasticamente. Como profissional que lida com o meio aquático diariamente, recuso-me a aceitar estas tragédias como inevitáveis – há pequenos cuidados e rotinas simples que podem, literalmente, salvar vidas.
Há mais de 60 anos, foi desenvolvido nos EUA um método que ensina natação de sobrevivência a bebés a partir dos 6 meses, capacitando-os a reagir sozinhos e a flutuar caso caiam à água. Ensino esta técnica desde 2010 com a Swim to Live®_Infant Swimming Resource Portugal®. Fui a primeira instrutora certificada em Portugal e sou, atualmente, a única Instrutora Mestre na Europa. No entanto, defendo convictamente que a natação de sobrevivência é apenas uma camada de proteção. Ela nunca deve funcionar como uma garantia absoluta isolada, mas sim como a última barreira de defesa numa estratégia de prevenção muito mais ampla.
É precisamente para reforçar essa prevenção que partilho estas diretrizes. Com base nas seis décadas de experiência acumulada pela ISR, organizei estes conselhos de segurança em quatro eixos fundamentais que todos devemos adotar:
1. O ambiente e a segurança da piscina
Defendo que se deve dar sempre primazia à segurança antes da beleza. No desenho e na manutenção do espaço envolvente, recomendo as seguintes medidas:
- Fundos claros: Prefira fundos claros que permitam ver facilmente tudo o que está na água.
- Nível da água no máximo: Mantenha o nível o mais alto possível para facilitar que a criança alcance a berma e saia sozinha.
- Pontos de apoio internos: Instale uma barra interna a toda a volta da piscina e ensine o seu filho a dirigir-se para lá.
- Otimização dos jatos de água: Oriente a corrente para a zona mais rasa ou degraus para ajudar a empurrar a criança para um ponto seguro.
- Água sempre limpa: Mesmo no inverno, a água deve estar sempre limpa e transparente para permitir a visualização total do fundo.
- Remoção de brinquedos: Retire todos os brinquedos da água e da área envolvente quando a piscina não estiver a ser utilizada, pois atraem as crianças. Brinquedos com rodas nunca devem ser usados perto da água.
2. A restrição física do acesso à água
As crianças são rápidas e ágeis; por isso, tudo o que atrase o seu percurso até à água é vital. Deve existir um rigor máximo nestas barreiras:
- Vedações adequadas: Devem ter altura mínima de 130 cm, ser transparentes e não ter apoios onde se possa pôr os pés para trepar.
- Aberturas da vedação: Podem ser com varões verticais ou em rede. A distância entre os varões nunca devem ultrapassar o máximo de 9 cm entre eles. Devem estar instalados junto ao chão para não permitir a passagem da criança por baixo.
- Portão de segurança: Deve ter fecho automático, abrir para o exterior e possuir alarme instalado.
- Alarmes nos acessos: Coloque sensores em todas as portas e portões que dão acesso à área da piscina, de preferência com aviso no telemóvel.
- Coberturas rígidas: As coberturas de lona (flexíveis) podem fazer com que a criança fique presa e tapada por baixo. Opte sempre por coberturas rígidas, de material resistente, e instaladas de forma adequada. Nunca se esqueça de as colocar quando não estiverem a usar a piscina.
3. A vigilância e prevenção ativa
Este é talvez o vetor mais crítico de todos. Nenhuma barreira física substitui os nossos olhos, pelo que apelo a estas rotinas:
- Vigilância constante: Nunca deixe uma criança perto da água sozinha. Bastam escassos segundos para ocorrer um acidente grave.
- Turnos de supervisão: Em festas, divida o tempo de forma clara entre os adultos, sendo sempre um alternadamente responsável. Os turnos não devem ser grandes (máximo 10 minutos) e nesse tempo o responsável não deve ter nenhuma distração. Lembre-se: quando todos estão a ver, ninguém está a ver.
- A regra de ouro: Se uma criança desaparecer no recinto, procure SEMPRE na piscina em primeiro lugar.
- Cores vivas para identificação: Vista os seus filhos com cores fortes e constantes. Facilita o reconhecimento imediato da criança.
4. A preparação cívica e a formação
A prevenção completa-se com a capacitação dos adultos e das próprias crianças para agir em caso de necessidade:
- Meios de auxílio visíveis: Mantenha um telefone sempre à mão e um varão ou gancho de salvamento próximo da piscina, para que qualquer pessoa — mesmo quem não sabe nadar — consiga agir de imediato para salvar a criança.
- Curso de primeiros socorros: Reagir imediatamente e saber o que fazer faz toda a diferença numa emergência real.
- Aulas de natação de sobrevivência: Invista em programas que ensinem o seu filho a reagir sozinho em caso de queda na água.
Apesar de todas as regras e dicas que partilho, o erro humano existe. Ao longo da minha carreira, soube de histórias profundamente tristes. Todos somos humanos e faz parte da nossa natureza errar ou esquecer. Contudo, quando o assunto é salvar vidas, temos de perceber e aceitar que isto pode acontecer com qualquer um de nós. É imperativo estarmos alerta, assumirmos a responsabilidade e banirmos de vez o pensamento de que estas tragédias só acontecem aos outros.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
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