Há datas que não se fecham no calendário. Permanecem abertas, para que o País possa regressar a elas todos os anos para confirmar que pouco mudou.
Passaram nove anos desde os incêndios de Pedrógão Grande. Nove anos desde que Portugal assistiu, em direto, a uma das maiores tragédias da sua história recente. Nove anos desde que dezenas de pessoas perderam a vida numa combinação devastadora de condições meteorológicas extremas, vulnerabilidades territoriais acumuladas e falhas de resposta que chocaram o País.
Na altura prometeram-se reformas estruturais. Prometeu-se reorganizar a floresta, reduzir a vulnerabilidade do território, melhorar a coordenação operacional, completar o cadastro da propriedade rural e enfrentar o abandono que alimenta o risco. Prometeu-se que Pedrógão não voltaria a acontecer.
Em 2026, Portugal entra novamente no verão sob sinais preocupantes. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas têm vindo a alertar para condições favoráveis à ignição e propagação rápida de incêndios. Ondas de calor mais frequentes, secas mais prolongadas e uma atmosfera mais energética são hoje características consistentes com aquilo que a ciência climática tem vindo a documentar nas últimas décadas.[1]
A isto juntam-se os efeitos das tempestades que atingiram o território durante o inverno. Em várias regiões, permaneceram no terreno grandes quantidades de árvores derrubadas e biomassa acumulada. Em muitos locais, o combustível do próximo incêndio já está preparado antes mesmo de o verão começar.
Ao mesmo tempo, algumas das fragilidades identificadas após 2017 continuam presentes.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico voltou recentemente a sublinhar a necessidade de reforçar uma abordagem integrada da gestão do fogo rural, alertando para desafios persistentes na coordenação institucional, na articulação entre prevenção e combate e na gestão da paisagem. [2]
No terreno, a prioridade operacional é hoje, e bem, a proteção da vida humana. Bombeiros e Proteção Civil concentram os seus esforços na defesa de aldeias, habitações e infraestruturas, deixando que o incêndio avance sobre a floresta maioritariamente coberta por árvores que alimentam esse fogo e o fazem aumentar de dimensão. A verdade é que continuamos a gerir consequências sem resolver as causas.
Portugal permanece marcado por três tendências estruturais particularmente vulneráveis ao fogo. O despovoamento do interior, o abandono de áreas agrícolas e florestais e uma paisagem cada vez mais homogénea e dominada pelo eucaliptal em muitas regiões.
Segundo o Inventário Florestal Nacional, o eucalipto continua a ser a espécie com maior área de floresta plantada em Portugal continental e esta é a parte inventariada, porque sabemos que o inventário não está atualizado e muitas zonas ainda consideradas no inventário como matos já são áreas ocupadas por eucaliptos. O problema está no modelo territorial que produz extensas manchas contínuas de vegetação com reduzida diversidade, pouca gestão e elevada carga combustível.[3]
Ao longo das últimas décadas, os dados de monitorização territorial do programa europeu Copernicus mostram transformações significativas da paisagem portuguesa. Em várias regiões observa-se a redução de mosaicos agrícolas, a simplificação dos usos do solo e o aumento da continuidade da vegetação . Quando o fogo encontra continuidade, ganha escala. Quando ganha escala, torna-se cada vez mais difícil travá-lo. [4]
Os incêndios atuais ocorrem num contexto de aquecimento global impulsionado pela acumulação de gases com efeito de estufa resultantes da queima de combustíveis fósseis, aumentando a probabilidade e intensidade de fenómenos extremos em várias regiões do planeta como temos vindo a verificar. [5]
Existe um elemento menos evidente, mas com impacto profundo, que atravessa todos os verões: a forma como falamos deles. A expressão “época de incêndios” instalou-se como linguagem automática. Sugere normalidade quando, na realidade, estamos perante uma crise.
Com o tempo, essa linguagem produz o efeito subliminar de risco excecional passar a ser lido como acontecimento inevitável, ativando o modo de espera nas comunidades, associado a uma ansiedade crescente todos os dias que amanhecem com calor. Espera-se o aviso, espera-se a resposta, espera-se a chegada dos meios, espera-se que o fogo não chegue desta vez, substituindo a ação pela passividade da espera.
Existe uma diferença, que muitas vezes não é debatida, entre ser vítima num dado momento de uma dada catástrofe e ser afetado por ela. Na verdade, as vítimas de grandes catástrofes permanecem com a marca na memória muito para além do momento em que foram vítimas e este facto desencadeia uma reação de resposta de ansiedade perante as probabilidades de repetição do fenómeno que as vitimou.
A vítima fica fora do tempo da decisão. Surge depois do evento, quando o dano já está feito e a capacidade de intervenção desapareceu; o afetado, pelo contrário, reconhece que vive dentro de um sistema atravessado por risco climático e por opções políticas acumuladas, mas não abdica da possibilidade de agir antes da emergência para não voltar a ser vítima Não aceita a exclusão do momento em que ainda há escolha.
Esta consciência aciona a uma atenção especial sobre o ponto em que se pode tomar ação e esse momento existe e ninguém está a olhar para ele porque entre a vigilância institucional e o combate operacional existe um intervalo crítico que continua pouco reconhecido: o da organização social do território.
Em diferentes regiões do País começam a emergir formas discretas dessa organização. Pessoas que identificam pontos de água, que mapeiam caminhos e acessos, que reconhecem zonas de continuidade de vegetação, que articulam redes de contacto entre vizinhos e que criam mecanismos de alerta precoce. Não são estruturas paralelas ao sistema, mas respostas que nascem onde o sistema não dá resposta.
A sua lógica não é substituir o Estado. É recusar a passividade como única posição possível.
Neste intervalo de tempo, o conhecimento local também é intervenção ativa, com o conhecimento do terreno, do que na realidade está lá e que pode ser combustível para aumentar o incêndio ou pode ser recurso para o combater.
Uma organização popular de base é também política no sentido mais direto. Comunidades que se organizam não estão apenas a responder ao risco imediato. Estão a intervir na forma como o território é produzido e gerido ao longo do tempo. Isso implica exigir alternativas reais de gestão da paisagem, criar condições para diversificação económica do interior e quebrar a dependência de modelos extensivos e homogéneos que simplificam o território até o tornar mais vulnerável.
Nove anos depois de Pedrógão, a questão não se limita ao balanço do que foi aprendido, mas sim até que ponto se normalizou a repetição de grandes incêndios em Portugal?
Porque os incêndios não resultam apenas de condições meteorológicas extremas. Resultam de um território moldado por decisões acumuladas, de uma paisagem trabalhada por economias específicas e de um contexto climático global em aquecimento contínuo devido à persistência das emissões associadas aos combustíveis fósseis.
A esta equação devemos acrescentar que alguns modelos climáticos internacionais apontam para a possibilidade de desenvolvimento de um episódio forte de El Niño durante a segunda metade de 2026, embora subsistam incertezas quanto à sua intensidade e aos seus efeitos globais. Se tal acontecer, poderá acrescentar pressão adicional a um sistema climático que já se encontra profundamente alterado.[6]
A escolha que enfrentamos é sobre o tipo de país que queremos construir para não termos um mapa de Portugal todo pintado de vermelho.
Ninguém se habitua a viver de forma saudável com temperaturas extremamente altas nem em clima de constante alerta que desencadeia o medo perante a ameaça de tudo perder, inclusive o risco de perder a própria vida em mais um período de calor extremo. A organização local pode reduzir danos, salvar vidas e reforçar a resiliência. Mas a sua eficácia terá sempre um limite enquanto continuarmos a alimentar a principal causa do agravamento da crise climática.
Nove anos depois de Pedrógão, olhamos para o território e questionamos: o que, na prática, mudou para que estas tragédias não se tornem recorrentes?
Que alterações concretas foram feitas na forma como se ocupa o interior, na gestão da floresta, na fragmentação da propriedade, na continuidade da vegetação que alimenta o fogo ano após ano, especialmente o eucalipto?
Há um desfasamento evidente entre a produção de planos, relatórios e promessas e a transformação real do terreno. A reação intensa quando uma crise ou uma catástrofe acontece não basta quando a seguir a ação não corresponde ao que realmente é exigido para que não se repita.
Os grandes incêndios florestais com grande intensidade repetem-se não por falta de diagnóstico, mas por ausência de vontade para uma mudança estrutural.
Enquanto se falar de meios de combate, de equipamentos de combate, de resposta, de comunicações e não se olhar para a estrutura florestal, o verão continuará a ser um teste repetido às mesmas fragilidades. E a discussão sobre inevitabilidade serve apenas para desviar a atenção daquilo que permanece por resolver.
Referências:
[1] [2] [5]
Gestão do fogo rural e avaliação das reformas pós-2017
OECD, Towards an Integrated Rural Fire Management Framework in Portugal (2026)
https://www.oecd.org/en/publications/towards-an-integrated-rural-fire-management-framework-in-portugal_9cb528df-en.html?utm
[3]
Inventário Florestal Nacional
ICNF, 6.º Inventário Florestal Nacional
https://www.icnf.pt/noticias/inventarioflorestalnacional
ICNF, Estatísticas e Indicadores Florestais
https://www.icnf.pt/florestas/flestudosdocumentosestatisticasindicadores
[4]
Monitorização da paisagem e uso do solo
Copernicus Land Monitoring Service
https://www.copernicus.eu/en/copernicus-services/land
https://documentation.dataspace.copernicus.eu/Data/ComplementaryData/CLMS.html
[6]
Possível desenvolvimento de El Niño em 2026
Euronews
https://pt.euronews.com/2026/05/12/super-el-nino-este-ano-do-calor-recorde-as-cheias-e-secas-extremas
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.