A recentíssima Encíclica “Magnifica Humanitas” foca-se, como é sabido, nos desafios que a Inteligência Artificial (IA) coloca à humanidade. Há diversíssimas reflexões relevantes, que têm sido objeto de distintas e interessantes reações.
Gostaria de chamar a atenção para um aspeto que tem passado algo despercebido: a proposta que o Papa dirige, a cada um de nós e, em particular, às instituições de ensino, para que cultivemos uma “higiene da atenção”.
O problema
É sabido como as plataformas digitais, e, em particular, as redes sociais, foram concebidas para prolongar ao máximo o tempo de utilização ou a quantidade de “gostos”, de partilhas ou de comentários dos utilizadores. Para o efeito, fazem uso de técnicas (como a personalização de conteúdos ou a propagação de publicações polarizadoras) que “agarram” o utilizador à rede, assim maximizando as receitas das plataformas.
Em resultado disto, passamos cada vez mais tempo a olhar para ecrãs – há quem estime 4 a 5 horas por dia – sem que percebamos que utilidade daí retiramos e afastando-nos de atividades que nos realizam efetivamente enquanto pessoas. Pior, as redes sociais, através dos seus algoritmos, podem acabar por nos conduzir, sub-repticiamente, a ter opiniões e a adotar posições que, de outro modo, nos pareceriam desadequadas.
Por seu lado, a IA parece produzir respostas que, por regra, são moderadas ou até “mainstream”. Mas encerra o risco (até por isso) de aceitarmos acriticamente todas as suas respostas e de nos desabituarmos a pensar e decidir pela nossa cabeça. Em muitas situações, a reposta adequada não é “dada” pelo conhecimento existente. Antes exige uma ponderação que adicione a experiência adquirida por cada um, os valores que desenvolveu como pessoa e a “coragem” de decidir, assumindo a respetiva responsabilidade.
Se nos habituamos a recorrer à IA para tudo, corremos o risco de nos tornarmos servos inconscientes das plataformas tecnológicas. Esse risco é particularmente agudo entre os jovens, visto que não chegaram a viver num tempo em que, por falta destas respostas “dadas”, se tinha de adquirir conhecimentos e competências, desenvolver hipóteses de solução (e, nalguns casos, ponderá-las eticamente) e, no fim, decidir.
Esse tempo ainda não acabou, mas são cada vez mais os domínios em que as soluções já aparecem propostas pela IA, cabendo ao decisor apor à mesma um lacónico “nihil obstat”. Os atuais decisores ainda terão adquirido os conhecimentos, a competência e a prática necessárias a poder olhar para essas propostas com espírito crítico e a rejeitá-las ou modificá-las com confiança. Mas o mesmo poderá já não suceder com os jovens de hoje e de amanhã.
Algumas respostas
Como responder a este problema? Foram já sugeridas, e nalguns casos adotadas, medidas de natureza política e, em particular, legislativa. A Encíclica também aborda essa vertente, mas não se limita à mesma.
A adequada educação dos utilizadores da IA é, naturalmente, um aspeto fundamental. Mas essa educação não deve limitar-se a saber como usar a IA, mas também a de saber quando não usar a IA – quando devemos praticar um “jejum de IA”. Doutro modo, como diz a Encíclica, não estaremos a proteger os jovens daquela “subtil sedução que parece tornar o pensamento humano inútil precisamente quando é mais necessário”.
Para esse efeito, é essencial não deixar as famílias sozinhas, abandonadas ao esforço solitário e inglório de combater aquilo que as forças do mercado e da pressão social impõem. As escolas e, no limite, os Estados podem e devem regular a utilização de telemóveis, impondo limites de idade e responsabilizando as plataformas pela disponibilização de conteúdos perigosos.
As instituições de ensino devem, assim, participar nesse esforço comum – e é aqui que o Papa nos apresenta o conceito da “higiene da atenção”. Na era do digital e da IA, com cada vez mais fontes a competirem (literalmente) pela nossa atenção, gerando um ruído permanente que nos desvia do importante, do formativo, daquilo que verdadeiramente nos faz crescer, é cada vez mais importante que as escolas organizem momentos para “silêncio, estudo aprofundado, leitura, debate ponderado”. Um silêncio que nos permita ouvir a nós próprios, um estudo que nos permita conhecer e compreender o mundo, uma leitura que nos permita aprender e refletir com os outros, um debate que nos prepare para a participação comunitária eem democracia. Tudo sem a interferência de telemóveis, computadores e outros aparelhos, na medida em que possam ser a fonte desse ruído contínuo que inunda as nossas mentes.
Apenas dessa forma se dará tempo e espaço para que as crianças e os jovens, como os adultos antes deles, adquiram os conhecimentos, desenvolvam as competências e interiorizem as atitudes que lhes permitirão encarar com espírito crítico e confiança a inevitável IA.
Mas o bem fundado desta proposta não se limita às crianças e jovens. Se pensarmos bem, cada um de nós também beneficiaria de momentos de jejum de IA (e de redes sociais), que nos permitam ter tempo para o que é humano e continuar a cultivar um pensamento e um discurso próprio.
Uma última observação – nada do que disse prejudica a constatação de que a IA pode ser (já está a ser) de uma enorma utilidade em muitos domínios de atividade – da programação ao direito, da investigação científica às finanças, entre muitos outros. Mas um instrumento tão poderoso carece de ser adequadamente guiado, e, para isso, tanto é necessário educar os utilizadores, e instituições, para a sua utilização como para a sua não utilização.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.