Lisboa tem esta mania muito sua de misturar santidade, bebedeira, poesia, sardinha assada, metafísica, arraial, casamentos populares e crise de identidade no mesmo prato de plástico ou de papel. No dia 13 de junho, a cidade celebra Santo António, que nasceu Fernando de Bulhões (n.1195) antes de ir salvar almas, pregar aos peixes e tornar-se o santo padroeiro dos objetos perdidos, dos namorados aflitos e dos lisboetas que todos os anos fingem que ainda sabem dançar marchas populares sem parecerem figurantes de uma opereta municipal.
Dois Fernandos, uma cidade e muitos suspeitos
Mas, nesse mesmo dia, sete séculos depois, nasceu outro Fernando de Lisboa: Fernando António Nogueira Pessoa (n.1888), que não pregou aos peixes — outro também se pregou, conta-se que foi lá em Rimini, na Itália, antes de se fixar em Pádua — mas pregou-nos a todos nós a mais extraordinária partida literária da nossa história. Não casou ninguém, não encontrou chaves perdidas, não fez milagres oficialmente reconhecidos pelo Vaticano, mas inventou Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares e uma multidão de fantasmas interiores que continuam a assombrar a literatura portuguesa. Santo António ficou com os manjericos. Pessoa ficou com a arca. Um distribui bênçãos. O outro distribuiu heterónimos e poemas. Um é celebrado com sardinhas assadas e arraiais. O outro com edições críticas, congressos internacionais, fotografias ao pé da estátua, turistas de chapéu à porta da Brasileira e frases em sacos de pano comprados na Bertrand do Chiado. Lisboa, que tem um talento especial para transformar tudo em postal, conseguiu fazer de Pessoa uma marca cultural da cidade, uma estátua sentada, uma caneca, uma t-shirt e um excelente pretexto para dizer “desassossego” em jantares onde ninguém leu verdadeiramente o Livro do Desassossego. Mas Pessoa, como sempre, escapa. Quando julgamos que o apanhámos, ele já mudou de nome, de voz, de signo astrológico, de opinião política, de caligrafia e, se fosse hoje, provavelmente também de avatar nas redes sociais.
O santo dos achados e o poeta dos desaparecidos
Há qualquer coisa de deliciosamente portuguesa neste duplo aniversário. Santo António é o santo que ajuda a encontrar o que se perdeu. Pessoa é o poeta que nos ensinou que talvez nunca tenhamos sido uma coisa só para começar. Um encontra. O outro desmultiplica. Um dá resposta. O outro instala a dúvida. Um acalma a aflição popular. O outro transforma a alma num gabinete de contabilidade mal iluminado, onde um ajudante de guarda-livros escreve frases sublimes enquanto finge trabalhar. É difícil imaginar uma dupla mais lisboeta. De um lado, a rua em festa. Do outro, a janela. De um lado, a sardinha a pingar no pão. Do outro, o abismo metafísico a pingar no papel. Tudo isto no mesmo dia, claro, porque Lisboa nunca soube separar convenientemente a religião da melancolia, o folclore da tragédia, o arraial da ontologia.
Pessoa nasceu a 13 de junho de 1888, no Largo de São Carlos, mesmo em frente ao teatro. Não deixa de ser apropriado: o homem que viria a fazer da identidade uma peça em vários atos entrou no mundo diante de uma casa de ópera. O pai era crítico musical. A cidade era uma Lisboa burguesa, ainda imperial no gesto, já decadente no fundo, com cafés, escritórios, elétricos, lojas, alfaiates, tipografias e aquele talento nacional para pressentir o desastre com uma elegância de casaco gasto. Depois veio Durban, o inglês, o regresso, os escritórios comerciais, as cartas, as traduções, as revistas, a Orpheu, o escândalo modernista, a solidão, a ironia, a astrologia, o ocultismo, a publicidade da Coca-Cola e a inacreditável capacidade de deixar quase tudo por acabar, como se também a obra tivesse direito a ser portuguesa.
O primeiro realizador de cinema que nunca realizou
Mas há um Pessoa menos usado nas fotografias de turismo literário: o Pessoa do cinema. Sim, o mesmo homem que nos habituámos a imaginar sentado à mesa do café, com chapéu, óculos e bigode, a beber qualquer coisa pouco recomendável para o fígado, também sonhou com o cinema. E não apenas como espectador distante, daqueles que dizem mal da sala antes de a luz apagar. Pessoa interessou-se pela Sétima Arte, escreveu argumentos para filmes, pensou produtoras, desenhou logótipos, imaginou sedes, projetos e negócios. Ou seja: foi também produtor de cinema português antes do cinema português perceber que podia viver eternamente da promessa, do subsídio, da genialidade incompreendida e da frase “isto ainda está em desenvolvimento”.
Pessoa quis criar uma produtora. Primeiro, terá imaginado a Cosmopolis, com um objetivo quase turístico e propagandístico: mostrar Portugal ao estrangeiro, vender a imagem de um país moderno, democrático, apresentável, talvez até funcional. Essa fantasia que continua a reaparecer de tempos a tempos em brochuras institucionais, vídeos promocionais e candidaturas a fundos europeus. Mais tarde, pensou na Ecce Film, com sede prevista na Rua de São Bento, zona onde viveu na adolescência e onde, aliás, ainda hoje se produzem diariamente filmes de terror político, com argumentos bastante fracos, maus diálogos e atores convencidos de que estão em Shakespeare quando, no máximo, estão numa telenovela parlamentar.
A Ecce Film nunca se concretizou. A Cosmopolis também não. Os filmes ficaram por fazer. Os projetos ficaram no papel. Em Portugal, isto não é exatamente uma falha: é quase um género artístico. Pessoa, nesse sentido, foi profético. Antecipou o produtor que tem uma ideia genial, uma pasta cheia de notas, uma visão internacional, uma produtora sem financiamento e uma obra que, por não existir, ainda não envelheceu. O nosso primeiro cineasta fantasma. O realizador total do filme nenhum.
Thrillers, vigaristas e mistérios
O mais espantoso é que Pessoa não escreveu apenas meditações vagas sobre o cinema. Escreveu argumentos. E não propriamente aqueles filmes contemplativos onde uma pessoa olha para uma parede durante 23 minutos enquanto ao fundo se ouve um comboio existencial. Não. Pessoa escreveu thrillers, comédias, histórias de trocas de identidade, intrigas, objetos roubados, milionários, detetives, criados que se fazem passar por nobres, nobres que se fazem passar por outros, vigaristas, equívocos e reviravoltas. Ou seja, Pessoa percebeu muito cedo que o cinema é também a arte de enganar com método. E que nada é mais pessoano do que uma personagem entrar em cena dizendo ser uma pessoa e afinal ser outra, ou talvez várias, ou talvez ninguém.
Num dos seus argumentos, um milionário atravessa o Atlântico com um objeto valioso, acompanhado por um detective particular. Vários suspeitos tentam roubar a preciosa mercadoria. No fim, descobre-se que o verdadeiro objeto já tinha sido enviado noutro navio. Hitchcock teria sorrido. O público teria pedido pipocas. Bernardo Soares teria escrito uma nota sobre a futilidade de desejar objetos transportados por paquetes. Álvaro de Campos teria chamado àquilo uma canalhice mecânica, marítima e civilizacional. Ricardo Reis teria aconselhado calma. Caeiro teria dito que o objeto era só o objeto, exceto quando não era. E Pessoa, muito provavelmente, teria deixado o argumento incompleto para ir tratar de outro assunto igualmente urgente e impossível como o seu amor por Ofélia. Esta relação com o policial não é acidental. O policial vive da pergunta “quem é?”. Pessoa viveu da pergunta “quem sou?”. O detetive procura o culpado. Pessoa multiplica os suspeitos. O policial clássico quer recompor a ordem do mundo. Pessoa desmonta a ordem interior até ela parecer uma gaveta cheia de papéis sem numeração. Em Agatha Christie ou Hitchcock, há sempre um assassino. Em Pessoa, há sempre um eu a matar outro eu, com elegância, sem sangue e deixando no local do crime um poema em inglês, uma carta astrológica e uma factura por pagar.
Lisboa, esse plateau metafísico
A grande personagem cinematográfica de Pessoa é Lisboa. Não a Lisboa dos tuk-tuks, brunches, nómadas digitais ou das rendas de aluguer que exigem um pacto com o diabo ou com Alistair Crowell, mas a Lisboa das ruas interiores: o Chiado, a Baixa, o Rossio, a Rua dos Douradores, o Largo de São Carlos, a Brasileira, o Martinho da Arcada, os escritórios comerciais, as janelas, as tabacarias, os elétricos, as sombras e as fachadas. Pessoa filmou Lisboa sem câmara. Fez travelling pelas ruas com frases. Fez grandes planos da alma. Fez montagem entre o quotidiano e o infinito. Fez cinema antes do cinema lhe servir. Tabacaria por exemplo é puro cinema. Começa com um plano de interior: “Não sou nada.” Depois abre para a rua. Há a tabacaria em frente, o dono, o Esteves sem metafísica, a janela, o narrador, a consciência do fracasso, todos os sonhos do mundo e uma mise-en-scène absolutamente perfeita. Está tudo lá: protagonista, cenário, conflito, figurante, objeto simbólico, monólogo interior e um final de cortar a respiração, sem que ninguém precise de explodir um carro ou entrar num multiverso. Se isto não é cinema, então cinema é apenas uma máquina cara para filmar pessoas a dizerem frases piores.
O Livro do Desassossego, por sua vez, é uma série interminável sobre um homem que não sai praticamente do mesmo sítio e, no entanto, atravessa mais mundos do que a maioria dos heróis da Marvel. Bernardo Soares é o anti-herói perfeito: ajudante de guarda-livros, solitário, lúcido, cansado, capaz de fazer de uma tarde banal uma catástrofe cósmica. Hoje, seria protagonista de uma série de prestígio em oito episódios, fotografia azulada, silêncio urbano, banda sonora minimalista ou de um filme premiado no Festival de Cinema de Berlim e três espectadores em Portugal, todos muito comovidos e ligeiramente incomodados.
Pessoa visto pelos cineastas: o bigode, a sombra e o perigo da estátua
O cinema, ele próprio, naturalmente, também não resistiu a Pessoa. João Botelho fez Conversa Acabada, sobre a amizade entre Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, esse outro fantasma modernista, dândi trágico, amigo maior e ferida nunca fechada. Depois fez Filme do Desassossego, tentando filmar o infilmável, esse livro que não é romance, diário, ensaio, confissão nem manual de instruções para sobreviver à tristeza portuguesa, mas um pouco de tudo isso. Edgar Pêra levou a vertigem mais longe em Não Sou Nada, colocando Pessoa num clube de heterónimos, como se a cabeça do poeta fosse uma assembleia geral de um condomínio psíquico onde ninguém paga quotas mas todos querem falar. Houve ainda Ophiussa – Uma Cidade de Fernando Pessoa, de Fernando Carrilho, Lisbon Revisited, também de Edgar Pêra, e esse pequeno prodígio de ironia, a curta-metragem, chamada Como Fernando Pessoa Salvou Portugal, do realizador francês Eugène Green, sobre o episódio publicitário da Coca-Cola. Depois há ainda “Os Mistérios de Lisboa ou What the Tourist Should See”, um documentário lançado em 2009, realizado por José Fonseca e Costa, que é uma homenagem a Fernando Pessoa que estrutura a sua narrativa através de um guia turístico escrito pelo poeta em 1925. Sobre Pessoa e um dos seus heterónimo temos ainda O Ano da Morte de Ricardo Reis, mais uma vez realizado por João Botelho, mas a partir da obra homónima José Saramago. Acho que não me falta nenhum. Porém filmar Pessoa ou a partir de Pessoa é sempre perigoso. Há o risco de se ficar preso ao chapéu, aos óculos, ao bigode, à silhueta. A iconografia pessoana é uma armadilha muito eficaz: basta pôr um homem magro, de fato escuro, a atravessar o Chiado em câmara lenta, e já toda a gente acha que está perante “uma imagem pessoana”. Mas Pessoa não é o bigode. Pessoa não é a estátua. Pessoa não é o postal. Pessoa é precisamente aquilo que escapa à imagem fixa. É movimento interior, contradição, máscara, falha, intervalo. Talvez por isso o melhor cinema pessoano não seja necessariamente aquele que o mostra, mas aquele que se deixa contaminar pela sua lógica: a identidade como encenação, a cidade como labirinto, o eu como suspeito, a realidade como cenário mal iluminado.
O homem que não sabia o que pensava do cinema
“Pessoa, esse mestre da contradição produtiva”, como escreveu a José Régio que não responderia a um inquérito sobre cinema porque não sabia o que pensava do cinema e que analisava a sua constante “contradição” através de uma dialética entre o pensamento e a emoção, dá-nos esta frase magnífica. Só um génio português como Pessoa consegue fundar mentalmente produtoras, escrever argumentos, guardar recortes, interessar-se por estrelas e, no momento de dar uma opinião, dizer: “não sei”. Hoje seria cancelado por falta de posicionamento. Ou contratado como consultor ou mediador cultural. Também foi capaz de dizer que, com exceção dos alemães e dos russos, ninguém tinha ainda posto arte no cinema. O que, para altura, poderia ser uma excelente frase de crítico português avant la lettre: severa, ligeiramente injusta, cheia de autoridade e com aquele ar de quem viu três filmes soviéticos e passou a desconfiar de toda a humanidade. Ao mesmo tempo, Pessoa interessava-se pelo cinema comercial, pelos cartazes, pelas estrelas, pelas convenções narrativas. Criticava Hollywood, mas já olhava para ela. Desprezava e desejava. Como todos nós, portanto. Só que escrevia melhor.
E há uma beleza particular nesta hesitação. Pessoa não foi um cinéfilo no sentido moderno, não foi um homem de cineclubes, listas, rankings e discussões sobre se determinado plano-sequência que justificasse uma bolsa de criação. Foi alguém que percebeu intuitivamente que o cinema tocava no centro da sua própria obra: a fabricação de identidades, o jogo entre aparência e verdade, a montagem do real, a ilusão como forma de conhecimento. O cinema é uma máquina de fingir. Pessoa foi o maior fingidor. Estavam condenados a encontrar-se.
O crime perfeito: desaparecer dentro da própria obra
No fim, talvez Pessoa tenha cometido o crime perfeito da literatura portuguesa: desapareceu dentro da sua própria obra e deixou-nos a investigar o caso eternamente. A arca é o local do crime. Os heterónimos são os suspeitos. A cidade de Lisboa é o cenário. Os poemas são pistas. Os argumentos para filmes são provas secundárias. Os críticos são detetives exaustos. Os leitores são testemunhas pouco fiáveis. E o morto, como em todo o bom policial metafísico, continua a falar.
Neste 13 de junho, enquanto Lisboa brinda a Santo António, com manjericos com quadras de gosto duvidoso e declarações de amor que amanhã talvez já não resistam à ressaca, convinha lembrar também o outro Fernando (Pessoa). O que nasceu em Lisboa e fez da cidade um espelho partido. O que percebeu que ser português é, muitas vezes, não coincidir connosco próprios. O que nunca filmou um filme, mas deixou cinema suficiente para várias vidas. O que escreveu thrillers sem os acabar, produtoras sem as fundar, poemas como planos, heterónimos como atores e uma obra inteira como uma sala escura onde continuamos a entrar à procura de uma luz.
Santo António ajuda a encontrar o que se perdeu. Fernando Pessoa ajuda-nos a perceber que talvez o perdido sejamos nós. E, entre um santo casamenteiro e um poeta multiplicado, Lisboa vai vivendo como pode: com fé, febre, ironia, sardinha assada, desassossego e a vaga suspeita de que, se alguém nos perguntar quem somos, o melhor é responder como num velho filme policial: depende de quem está a perguntar.
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