Na sequência das eleições da semana passadas nas Ilhas Britânicas, assistimos a uma clara demonstração de insatisfação do povo britânico com o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido desde 2024 pelo governo de Keir Starmer e do Partido Trabalhista. O resultado do Reform UK, partido de Nigel Farage, de extrema-direita, que teve uma vitória clara sobre o Partido Trabalhista e sobre o Partido Conservador nas eleições locais, está a ser o maior foco das análises políticas. Com efeito, tiveram uma vitória importante, no entanto, é de salientar que apenas obtiveram cerca 26% do total dos votos, percentagem esta que não lhes daria uma maioria no Parlamento britânico, para além de terem ficado claramente abaixo dos 32% a 34% que lhes era dado nas sondagens há uns meses. Um segundo aspeto importante é a clara derrota do Partido Trabalhista, que havia vencido em 2024 com uma larga maioria no Parlamento de 411 deputados em 650, embora Keir Starmer tenha tido menos votos em 2024 do que Jeremy Corbyn em 2019, que, com 10.2 milhões votos, ficou em segundo lugar só com 262 deputados. Nestas eleições, os Trabalhistas perderam 1496 councillors e perderam controlo de 38 councils. O Partido Conservador, liderado por Kemi Badenoch, que embora considere que esta foi uma boa eleição, porque ganhou determinados councils, perdeu 563 councillors e 6 councils, o que obviamente é um mau resultado. Já os Liberal Democrats, partido centrista, obtiveram um bom resultado, no sentido em que ganharam 155 councillors e 1 concelho. Antes ainda de referir as eleições regionais no País de Gales e na Escócia, as que verdadeiramente importam, é de salientar o excelente trabalho de Zach Polanski, que obteve com os Verdes um desempenho extremamente positivo tendo sido o partido com maior aumento da percentagem de votos – 7%, tendo, percentualmente, sido o segundo classificado desta eleição com 18%, aumentando de forma muito expressiva o número de councillors e o número de councils, conseguindo eleger os seus primeiros mayors.
Importante analisar o que aconteceu no País de Gales que, pela primeira vez desde que o processo de devolução começou em 1999, vai ser liderado por um governo não Trabalhista, partido este que sofreu uma derrota muito considerável tendo conseguido apenas nove deputados e visto a sua percentagem diminuída em 25,1 por cento. Com efeito, o partido Plaid Cymru, partido pró-independência galesa, liderado por Rhun ap Iorwerth, venceu as eleições, embora ligeiramente aquém da maioria, uma vez que conseguiu apenas 43 deputados e não os 49 necessários. O Reform UK, conseguiu ficar em segundo lugar com 34 deputados. Além dos 43 deputados pró-independência do Plaid Cymru, têm de se contar ainda mais dois deputados dos Verdes, que são também pró-independência. Tal significa que 42.1% dos votantes no País de Gales são pró-independência, quase o dobro que nas últimas eleições, onde os Verdes só tinham 4.4% dos votos e o Plaid Cymru só tinha tido 20.7% dos votos.
A questão será ver como é que o Plaid Cymru vai governar, muito possivelmente com apoio dos Verdes, que para além de serem pró-independência são também da mesma área política, sendo os dois partidos respetivamente do centro-esquerda e de esquerda. Este apoio não será, no entanto, suficiente, sendo necessário obter o apoio, ou pelo menos a garantia da abstenção de um outro partido. De facto, o Partido Trabalhista Galês absteve-se ontem no Senedd, sendo Rhun ap eleito primeiro-ministro no dia 12 de maio.
Nas eleições na Escócia, embora o SNP liderado por John Swinney as tenha ganho, perdeu deputados – seis deputados. No entanto, é necessário contextualizar esta perda de votos. O SNP é um partido que está no poder desde 2007, e que governou durante a crise de 2008, Brexit, coronavírus e, atualmente, a crise do estreito de Ormuz. Tendo, mesmo assim, conseguido 58 deputados, a uma distância da maioria somente por sete deputados, permanecendo ainda assim com mais 41 deputados do que qualquer um dos outros partidos. Embora numa primeira análise se possa considerar que o voto pró-independência não teve uma maioria, é necessário relembrar que tal como no País de Gales, os Verdes escoceses, são também um partido pró-independência, sendo que com os 58 deputados do SNP e os 15 deputados dos Greens, existe agora uma maioria no Parlamento escocês pró-independência, num total de 73 deputados em 129. É importante ainda salientar que também houve uma diminuição do número de votantes – cerca de 10.5% menos que nas eleições de 2021.
Também nas eleições escocesas o Partido Trabalhista Escocês sofreu uma derrota, tendo elegido menos cinco deputados que há 5 anos, embora tenha obtido melhores resultados que o partido em Inglaterra. Quem se lembra de Anas Sarwar, líder dos trabalhistas na Escócia, a pedir a demissão de Keir Starmer no início da campanha eleitoral poderá compreender a razão para os melhores resultados dos escoceses trabalhistas que só desceram em cerca de 2 pontos percentuais, muito diferente do que aconteceu ao Partido Trabalhista no País de Gales e em Inglaterra. É claro, pois, que a posição de Sarwar face à política de Keir Starmer o beneficiou, tendo ficado como líder da oposição, uma vez que obteve maior número de votos que o Reform UK, que elegeu 17 deputados. Grande derrotado na Escócia foi o Partido Conservador, que perdeu 19 deputados tendo ficado com uma representação de apenas 12 deputados, atrás dos Verdes e somente à frente dos Liberal Democrats, que mais que duplicaram a sua votação, tendo ganho seis deputados em comparação a 2021, e ficando agora com 10 representantes. Este é um partido que tem sempre boas votações na Escócia e que aumentou de forma significativa, como referido, a sua representação. Aliás, o mesmo acontece com os Verdes, que tiveram uma grande vitória quase duplicando o número de deputados – tinham oito, agora são 15, passando a ter na Escócia, tal como em Inglaterra, uma forte representação.
É importante perceber qual o significado destes resultados, para a situação atual do Reino Unido. E é muito considerável! Agora as ilhas britânicas têm líderes independentistas nos três governos colonizados do Reino. Na Escócia, John Swinney continuará no poder, no País de Gales teremos Rhun ap Iorwerth e na Irlanda do Norte já temos, desde 2024, a primeira-ministra Michelle O’Neill do Sinn Féin – a primeira vez que um partido independentista venceu as eleições na Irlanda do Norte. O que é que isto representa? Três povos cansados da má governação de Londres. Desiludidos por verem as suas indústrias a serem destruídas, como em Port Talbot no País de Gales, os seus orçamentos a serem diminuídos em Londres, a sua população a empobrecer mais depressa do que em Inglaterra. Todos os esquecimentos de Londres relativamente a estas zonas mais remotas do Reino, o desconhecimento das situações localmente vivenciadas contribuem para o cansaço e desilusão das populações, assistindo-se em simultâneo a um crescente e acentuado foco nas culturas gaélicas e galesas, esquecidas e até desprezadas por Inglaterra durante largos anos. Uma prova deste foco é o aumento de alunos a estudar o gaélico na Irlanda do Norte, e do gaélico escocês na Escócia, e também do galês no País de Gales.
O caso da Irlanda do Norte é diferente dos casos galeses e escoceses, uma vez que a independência da Irlanda do Norte está também interligada com o processo de unificação com a República da Irlanda, processo este que espero ver na minha vida. O certo é que se as sondagens dos últimos meses se confirmarem, existe a possibilidade de haver um governo Sinn Féin na Irlanda do Norte e na República da Irlanda. Sinn Féin que tem, desde outubro de 2025, na República da Irlanda, uma vantagem de 5 a 7 pontos percentuais sob o Fine Gael e Fianna Fáil ambos partidos centro-direita com cerca de 17% de votos cada. Havendo ainda a possibilidade das duas primeiras primeiras-ministras da ilha Irlandesa serem do mesmo partido, Michelle O’Neill e Mary Lou McDonald. Um outro fator importantíssimo para os progressistas na Irlanda e um passo significativo para uma potencial unificação, foi a eleição de Catherine Connolly a Uachtarán na hÉireann (Presidente).
A ocupação inglesa, a famina provocada na ilha durante os finais do seculo XIX, a revolta de 1916, que resultou nas mortes dos sete signatários da proclamação de independência, Séan Mac Diarmada, Joseph Mary Plunkett, Éamonn Ceannt, Thomas MacDonagh, Patrick Pearse, James Connolly, e Thomas Clarke, a ação de homens como Bobby Sands durante o período dos Troubles servem de inspiração para aqueles que hoje lutam pacificamente pela unificação da Irlanda.
Assim, estas eleições são a meu ver o início do fim do Reino Unido tal como o conhecemos. É com alegria que vejo estas vitórias de Rhun ap Iorwerth e do Plaid Cymru no país de Gales, de Michele O’Neil e do Sinn Féin na Irlanda do Norte, do SNP e de John Swinney na Escócia. Demonstra que os povos não ingleses do Reino, estão cansados de ter um governo e um rei que não os representa.
Uma nota ainda para referir que fez no dia 5 de maio 45 anos que morreu Bobby Sands, numa greve de fome contra políticas do governo de Margaret Thatcher, em relação aos combatentes do IRA. É um exemplo para aqueles que como eu sentem a necessidade de lutar contra as políticas cada vez mais fascistas dos governos europeus. De salientar ainda, o significado que a morte de Sands teve na juventude portuguesa do pós-25 de Abril. Cada vez mais é necessário cantar Fields of Athenry de Pete St. John e dos Dubliners:
“By a lonely prison wall
I heard a young man calling
Nothing matters, Mary, when you’re free
Against the famine and the crown
I rebelled; they cut me down
Now you must raise our child with dignity”
As culturas gaélicas e galesas são incrivelmente fascinantes, sendo as suas histórias e mitos motivo de engrandecimento da história das ilhas britânicas. As suas línguas quase mortas estão a renascer, o sentido de comunidade e união está a voltar para estas três regiões esquecidas do reino. A juventude galesa, escocesa, e irlandesa está a aprender sobre os heróis como Owain ap Gruffudd Fychan, o príncipe galês que estabeleceu um reino independente de Inglaterra, ou Robert the Bruce, que com o título de Robert I, foi o rei escocês que governou a Escócia durante 25 anos, depois da sua vitória em Bannockburn em 1314 contra o rei inglês Edward II, ou Martin McGuinness, líder do Sinn Féin na Irlanda do Norte e um dos grandes arquitetos dos Acordos de Good Friday, ou os lideres irlandeses assassinados em 1916. Entre tantos outros cantados e contados nas histórias irlandesas, galesas, escocesas.
Parece, pois, ter chegado a hora dos povos gaélicos e galeses se unirem na luta contra o Reino Unido, acabando assim com séculos de tirania inglesa. É tempo da unificação da Irlanda, da independência do País de Gales, da independência da Escócia. E com estes três novos primeiros-ministros e estes governos pró-independência o processo parece ter começado. Yma o Hyd!!! Tiocfaidh ár lá!!! Scots wha hae!!!
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.