Em Lisboa, a cidade onde vivo e cuja realidade melhor conheço, comenta-se cada vez mais no meio cultural e entre amigos algo que já nem é propriamente um princípio ou um preconceito: é um estado de espírito, uma constatação, quase uma meteorologia cultural. As salas de teatro estão cheias. Às vezes, não estão apenas cheias: estão esgotadas, congestionadas, com listas de espera à hora do espetáculo e aquela pequena desilusão de irmos aos sites de compra de bilhetes e percebermos que já só há lugares para daqui a umas semanas, isto quando as peças estão em cartaz durante muito tempo, ou, no caso das representações mais curtas, de ser mesmo impossível vê-las, como aconteceu há dias com a singular versão de Um Inimigo do Povo, de Marco Martins, inspirada na operação policial na Rua do Benformoso. Entretanto, o cinema português continua a viver naquela relação tóxica, meio conjugal, meio clínica, com o público: produzem-se filmes já numa quantidade razoável — este ano, ainda estamos no início de Abril, e estreiam, em média, quase à razão de um por semana, embora os números de espectadores não sejam famosos; são filmes que quase todos ganham prémios ou passaram por grandes festivais internacionais, como é o caso recente de O Riso e a Faca ou Entroncamento, este estreado há poucos dias; chegam às salas, ficam uma semana em cartaz, desaparecem, entram num debate, saem por uma porta lateral e, quando damos por isso, já ninguém sabe onde é que o filme está, quem o viu ou se alguma vez existiu — sobretudo no caso de vários documentários que chegam às salas — para lá da folha de candidatura aos apoios do ICA. Os números recentes — consultei, por exemplo, o Ranking de Filmes Nacionais Estreados | Top Nacional Films 2026, até 1 de Abril, publicado no site do ICA — ajudam a perceber a dimensão do problema, ou melhor, desta realidade. Mas vejamos: em 2025, os cinemas portugueses registaram 10,9 milhões de espectadores, o pior resultado desde 1996, sem contar com os anos da pandemia; estrearam mais de 50 filmes portugueses ou em coprodução nas salas de cinema. O destaque do ano foi o filme O Pátio da Saudade, realizado por Leonel Vieira, que se tornou o mais visto, totalizando 69.562 espectadores, mesmo num registo bastante popular; e portanto o cinema português ficou-se pelos 229.455 espectadores, ou seja, apenas 2,1% da audiência total. Em receitas, a quota desceu ainda mais, para 1,7%. Isto não é má vontade contra o cinema português, pelo contrário: é um diagnóstico.
Quando o palco ganha ao ecrã
Ao mesmo tempo, o teatro não está propriamente a morrer em silêncio, como tantas vezes se repetiu durante décadas, com aquele prazer muito português de anunciar funerais culturais antes do tempo. Pelo contrário: o setor dos espetáculos ao vivo gerou 206,4 milhões de euros de bilheteira em 2024, com 44.941 sessões e 18,6 milhões de espectadores; o teatro foi a segunda atividade artística com mais sessões, representando 35,7% do total, com 2,3 milhões de espectadores e 23 milhões de euros de receita, e com o preço dos bilhetes, em muitos casos, no mínimo ao dobro do preço dos bilhetes de cinema. E, em 2025, segundo a BOL — a plataforma de venda de bilhetes online —, venderam-se mais de cinco milhões de bilhetes de teatro, num valor de 35 milhões de euros, o dobro de 2024. Pedro Penim, diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, resumiu há uns tempos, numa entrevista à Agenda Cultural de Lisboa, essa realidade e essa sensação de forma cristalina: “Há muitas casas esgotadas” e, em Lisboa, “já não se fala na crise do teatro como eu cresci a ouvir.”
O público não desapareceu
Ora, isto interessa muito, porque desmonta uma desculpa preguiçosa que durante anos serviu para tudo: “as pessoas já não saem de casa”, “o público desapareceu”, “a cultura perdeu relevância”, “o digital matou o encontro físico”. Não. As pessoas saem de casa. As pessoas compram bilhetes. As pessoas aceitam pagar, mesmo com preços mais altos — o INE registou uma subida de 4,3% nos preços do cinema, teatro e concertos — e, mesmo assim, continuam a ir. Portanto, o problema do cinema português, e do cinema em geral, não pode ser explicado apenas pela inflação, pela Netflix, pela preguiça nacional ou pela chuva. Se o público vai ao teatro, vai à Cinemateca — que é, aliás, um excelente exemplo de crescimento de público —, vai ao Teatro da Trindade, vai a espetáculos em digressão, vai ver Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, de Tiago Rodrigues, quando consegue — eu nunca consegui, e estou a ver que tenho de apanhar um voo da Ryanair para o ver em Londres, em Setembro —, vai ao espetáculo do comediante brasileiro Gregório Duvivier, vai ao musical Sr. Engenheiro, vai à nova reposição de A Gaivota, vai à comédia, vai ao clássico, então o problema não é a extinção do espectador. O problema é que o cinema português, enquanto sistema, talvez não tenha conseguido construir com esse espectador uma relação de desejo, de hábito e de confiança.
O velho divórcio entre o cinema e os espectadores
E aqui convém dizer uma coisa que o meio cinematográfico nacional raramente gosta de ouvir sem começar logo a exaltar-se e a dizer que a culpa é do ICA, do público e agora também da NOS Lusomundo e dos outros exibidores que fecham salas. Embora, na minha opinião, a NOS dê uma espécie de “abraço de urso” ao cinema português: estreia-o nas suas salas durante um curto espaço de tempo, mas, em regra, não sabe promovê-lo nem lhe dá a atenção devida, ainda que pareça fazê-lo. Quanto ao público português, não rejeita automaticamente o que é português. Rejeita, isso sim, o que sente como distante, enfadonho, opaco, solene, auto-protetor ou simplesmente mal contado. E, em muitos casos, rejeita por antecipação, o que ainda é pior. Há um preconceito instalado contra o cinema português, claro. Mas esse preconceito não nasceu do nada, nem foi trazido por cegonhas de Hollywood. Foi sendo alimentado por décadas de divórcio entre criadores e espectadores, por uma tradição crítica em que, demasiadas vezes, se confundiu dificuldade com profundidade, lentidão com grandeza e hermetismo com arte. O resultado é conhecido: metade do debate português sobre cinema é feita por pessoas que não veem cinema português; os próprios realizadores, muitas vezes, não veem os filmes uns dos outros, agora talvez mais para votarem nos Prémios Sophia e estão disponíveis na altura no site da Academia Portuguesa de Cinema; a outra metade é feita por pessoas que o defendem como quem defende uma espécie ameaçada, e não como quem quer ganhar público. E assim ficámos neste impasse ridículo: de um lado, o espectador que diz “é português, logo deve ser uma seca”; do outro, o setor que responde “se não gostas, é porque não percebes”. É um modelo excelente para falhar em conjunto.
Festivais, prestígio e falta de escala
Mas atenção: isto não significa que o cinema português seja mau por definição, nem que a solução seja fazer versões portuguesas de tudo o que mexe, meter drones, perseguições de carros entre a Calçada de Carriche e Olival de Bastos ou nas pontes sobre o Tejo e chamar-lhe indústria. O cinema português tem autores fortíssimos, técnicos muito competentes, filmes excelentes e uma respeitabilidade internacional real. O que não tem, de forma consistente, é escala, diversidade suficiente e um ecossistema de circulação capaz de transformar reconhecimento crítico em presença social. O próprio plano estratégico encomendado pelo ICA em 2022 identificava uma lógica excessivamente centrada na internacionalização por via dos festivais, notando que o currículo do produtor e da empresa, a presença em festivais e os prémios pesam nas pontuações, e que Portugal precisava de repensar significativamente toda a abordagem à promoção e à distribuição internacional para concretizar verdadeiro sucesso económico e cultural. Traduzido para português sem seminário: o sistema habituou-se a valorizar muito a consagração externa e pouco a construção interna de públicos.
Depois há o problema material, que não é propriamente agradável, mas manda mais do que os manifestos. Em 2025, a rede de exibição regular tinha 562 salas; já no início de 2026, esse número caiu para 450, menos 112 salas, muito por causa de encerramentos associados à insolvência da Cineplace e a outros fechos. Há, atualmente, cinco capitais de distrito sem exibição comercial regular de cinema: Beja, Bragança, Guarda, Portalegre e Viana do Castelo. Portanto, quando se diz que o público não vai ver cinema português, convém perguntar primeiro onde é que ele o pode ver. Não há amor ao grande ecrã que resista à inexistência do grande ecrã. E, quando existe sala, a dominância do mercado continua esmagadora: em 2025, a NOS Lusomundo concentrava 68,5% das receitas brutas de bilheteira. Num mercado assim, o filme português entra frágil, com menos sessões, — assim se queixava há dias Pedro Cabeleira, o realizador de Entroncamento — menos tempo, menos marketing e menos margem para criar passa-palavra. Se não explode logo no primeiro fim-de-semana, evapora-se.
Fazer pontes, não pregar aos convertidos
E, no entanto, há sinais curiosos que impedem o discurso apocalíptico total. A Cinemateca Portuguesa ultrapassou os 52 mil espectadores em 2025, o melhor resultado em duas décadas, e salas independentes como o Nimas, em Lisboa, ou o Cinema Trindade, no Porto, tiveram crescimentos assinaláveis de público. Isto quer dizer que ainda existe, em Portugal, um desejo de cinema enquanto experiência cultural, programada, contextualizada, quase curada, bem selecionada. O problema não é que “as pessoas já não gostam de cinema”; é que o circuito dominante desaprendeu a formar espectadores para lá da lógica do evento de estúdio ou do entretenimento, e o cinema português, por sua vez, raramente aparece embalado com a inteligência de mediação, comunicação e continuidade que o teatro foi aprendendo a fazer muito melhor. O teatro percebeu uma coisa essencial: não basta existir, é preciso criar comunidade, identidade de sala, confiança de marca, repertório de relação. O público do Teatro Aberto, do São Luiz, do D. Maria II, do CCB ou de certas produções comerciais do Villaret, ao Tivoli e de teatro de autor não compra só um espetáculo; compra a sensação de que ali há um lugar onde vale a pena voltar. Também, de certo modo, contribuiu para isso a mudança do horário nobre da maioria dos espetáculos para as 20h, o que permite às pessoas chegar mais cedo a casa. O cinema português, salvo exceções, ainda vende títulos. O teatro vende pertença.
A representação e a escrita
Também vale a pena falar de representação e escrita, dois temas que aparecem sempre nas conversas de café, nos fóruns, nas escolas, nas salas de montagem e nos encontros profissionais, e nem sempre sem razão. Há uma queixa recorrente sobre actores “demasiado teatrais”, diálogos pouco naturais, entoações artificiais, escrita de televisão importada para o cinema ou, ao contrário, um tipo de pseudo-literatura filmada em que ninguém fala como um ser humano com renda para pagar. Nem tudo isto é justo. Mas há ali um nervo verdadeiro: Portugal continua a ter um défice de tradição industrial de escrita para cinema e de treino específico para representação em câmara, sobretudo num meio pequeno e intermitente, onde muita gente alterna teatro, televisão, dobragens, séries, publicidade e cinema sem que o sistema tenha escala para especializações robustas. Isso não é culpa dos atores. É estrutura. Mas, quando a estrutura falha, o espectador não faz seminários sociológicos: diz simplesmente “isto soa falso” e não volta.
Por isso, a pergunta séria não é se o cinema português deve ser “de autor” ou “comercial”, como se tivéssemos de escolher entre Manoel de Oliveira e um filme de acção com uma explosão no Colombo ou um assalto às Torres das Amoreiras. A pergunta é outra: como fazer cinema popular sem ser estúpido, e cinema exigente sem ser autista? Recorde-se a intuição do grande cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), que ia ao centro do alvo. Segundo ele, e aplicando o que disse no auge da sua carreira, ao nosso cinema, o que falta não são apenas “mais comédias” ou “mais blockbusters portugueses”, esse delírio provinciano de querer competir à pistola de água com quem traz um porta-aviões, como os filmes de Hollywood. O que falta é um cinema português narrativo, emocionalmente legível, socialmente vivo, politicamente afiado, formalmente inteligente e feito com a clara intenção de comunicar. Não de simplificar, mas de comunicar. Há uma diferença. Um país que enche salas para ver A Gaivota, Um Inimigo do Povo, Catarina e a Beleza de Matar Fascistas ou um musical sobre um “primeiro-ministro ingénuo” não pode ser tratado como se tivesse um povo ou um espectador incapaz de lidar com complexidade. O público português aceita a complexidade. O que não aceita é ser tratado com desdém.
Não há soluções milagrosas
Então, soluções? Há várias, mas nenhuma será certamente milagrosa. Ainda assim, não custa tentar. Primeiro: política pública de exibição a sério, não apenas para produzir filmes, mas para garantir circulação, permanência mínima em sala e presença territorial fora do eixo Lisboa-Porto. Segundo: reforço sério do desenvolvimento de argumentos e da escrita original, com laboratórios, script editors, tempo e dinheiro para reescrita, porque um mau argumento continua a ser um mau argumento, mesmo filmado com boas intenções republicanas. Terceiro: apoio decidido a uma maior diversidade de géneros, incluindo thriller, terror, animação, comédia romântica, cinema histórico, juvenil e familiar, sem a mania de que só “coisas a sério” merecem existir. Quarto: investir em marketing e mediação cultural como parte integrante do filme, e não como rodapé constrangido no fim do processo. Quinto: aproximar cinema e escola de forma continuada, e não cerimonial. Sexto: aproveitar melhor a televisão pública, as plataformas e os circuitos alternativos, sem transformar a estreia em sala numa formalidade burocrática. Sétimo: renovar júris, mecanismos de avaliação e critérios de apoio com mais transparência e maior valorização da relação potencial com os públicos, sem penalizar o risco artístico. Nada disto exige vender a alma à Marvel ou à indústria de Hollywood. Exige apenas parar de fingir que a comunicação com os espectadores é um problema menor.
É preciso criar pontes
No fundo, a ironia maior é esta: o teatro, essa arte que tanta gente julgava condenada pela velocidade do mundo, adaptou-se melhor ao presente do que o cinema português, que durante décadas foi tratado como a forma nova e moderna por excelência. O palco soube profissionalizar-se, criar hábitos, fidelizar comunidades, fazer do evento uma experiência e do repertório uma conversa contínua com a cidade e o país. O cinema português, com honrosas exceções, continua demasiadas vezes preso entre a bolha do festival, a precariedade da exibição e o medo quase moral de querer agradar. Como se interessar o público fosse uma cedência vergonhosa. Não é. E dá trabalho. E, enquanto isto não for assumido sem vergonha, continuaremos a ter esta situação grotesca em que haverá espectadores para as peças do Tiago Rodrigues até em Londres, para o grande comediante brasileiro Gregório Duvivier pelo País fora, para uma reposição de Tchékhov, para o grande regresso de Alexandra Lencastre, para um musical português sobre uma realidade atual e para as sessões da Cinemateca — onde todos os dias é um verdadeiro festival de cinema —, mas depois aparece um filme português novo e o País comporta-se como se lhe tivessem pedido para adotar um armário. O problema não é falta de público. O problema é falta de pontes. E, em alguns casos, falta de vontade de as construir.
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