Não é fácil manter a ordem social. Ao contrário das bestas, somos habitados por ambições, medos, inseguranças, valores e outras chatices. Essas coisas que nos fazem humanos tornam-nos completamente imprevisíveis, particularmente quando nos encontramos em situações de particular injustiça.
Perdoe-se-me a referência recuada, mas o mundo feudal é particularmente rico nisso. Era um sistema assente numa hierarquia profundamente vincada e, idealmente, intransponível no qual uma linhagem nobre tinha privilégios profundamente injustos baseados nas vidas miseráveis dos camponeses. Precisava de um controlo bastante musculado para que toda a gente o aceitasse.
Na obra Fuenteovejuna, de 1619, o dramaturgo espanhol Lope de Vega conta a história de uma pequena povoação que vive aterrorizada pelo governador local. Para não variar, o terror envolve a violação de mulheres e a revolta dos seus companheiros numa objetificação das mulheres que é também levada a cabo pelo próprio autor —mas deixemos isso de lado agora.
O terrível governador, dizia eu, comete atos de uma atrocidade indizível até que a população resolve fazer justiça pelas próprias mãos e lincha o governador. Os reis, ao saberem-no, mandam um juíz para a vila que desata a torturar velhos, mulheres e crianças para descobrir os responsáveis pela morte do governador.
Os aldeãos não cedem e dizem que a responsável foi Fuenteovejuna, ou seja, a própria vila e os reis decidem ir ouvir os seus habitantes. O principal queixa-se de que o governador lhe roubou a esposa no dia do casamento para lhe tirar a virtude e um outro aldeão diz: “Senhor! Queremos ser vossos vassalos. Sois de direito o nosso rei e já arvorámos as vossas arma. Apelamos para a vossa clemência.”
O rei, comovido, declara: “O delito é grave. Mas dado que não foi possível averiguá-lo por escrito, estais perdoados. E já que me ofereceis vassalagem, a vila fica sob a minha jurisdição até que apareça um comendador digno de a governar”. De seguida, ninguém pergunta ao rei que garantias têm que ele não nomeie outro doido e acaba a peça.
A moral da história é simples e crua: se cada um aceitar o lugar que lhe está destinado, não há confusão. A honra é apresentada nesta peça e noutras da época como algo de natureza diferente para nobres e plebeus. Para os nobres, ela está ligada à pureza do sangue na recusa de misturas de linhagens “puras” com plebeus (o verdadeiro crime do governador da história) ou mouros. Para o povo, a honra está na submissão e na aceitação do seu lugar valorizando a sua posição miserável como destino definido pela vontade divina.
E o que se vê, no final de contas, é que os plebeus se redimem ao prestar vassalagem ao rei, ou seja, ao reconhecer o seu lugar na hierarquia social e, acima de tudo, ao assegurar que não são uma ameaça à ordem.
É claro que isto funciona tanto melhor quanto os miseráveis internalizarem a ideia de que, eventualmente, terão a recompensa pela sua submissão. A religião é, aliás, o polícia ideal porque injeta terror nas mentes dos crentes que acreditam ter os seus próprios pensamentos vigiados e no Inferno como destino se não obedecerem.
Séculos depois, embora a fé tenha cedido lugar à tecnologia e ao capital, o princípio de fundo mantém-se: o controlo social em contextos tão absolutamente disruptivos, caóticos e injustos como aquele em que vivemos exige mitos eficazes.
Olhamos com estranheza para o mundo medieval e uma matriz cultural que normalizava as desigualdades profundas, a violência e a hereditariedade do privilégio e se apresentava como imutável e não podemos deixar de sentir estranheza. Como é possível que todos, privilegiados e miseráveis, aceitassem e defendessem um sistema tão perverso?
Ora, chegados aqui, a esta capacidade produtiva que, teoricamente, conseguiria produzir níveis de bem-estar para todos, como é que se explica que isso seja uma miragem e, ao mesmo tempo, vivamos em relativa paz social e num ambiente que aceita e valoriza a ideologia que produz esta desigualdade?
Se na Idade Média era a ideia de paraíso celestial que motivava plebeus a aceitarem o seu destino, essa promessa de eternidade livre de sofrimento baseada numa religião que impunha a ordem já não terá hoje exatamente o mesmo poder motivacional.
A experiência de vida do, vá, cidadão médio é hoje, a todos os títulos, pouco invejável. A normalização da entrada no mercado de trabalho através de posições precárias sem fim, a completa incapacidade de entrar no mercado habitacional que empurra para a partilha de casa até tarde e para arredores que obrigam a longos e entediantes movimentos pendulares, a submissão a uma flexibilidade laboral que torna impossível uma vida familiar saudável, a redução do convívio com os filhos a um par de horas diárias (com sorte!) que se resumem inevitavelmente a rotinas e momentos de tensão, a crescente mercantilização dos espaços de convívio que cada vez mais condenam todos à solidão… Enfim, não continuarei porque a paciência do leitor tem limites e a psicoterapia é cara.
A verdade é que ao mesmo tempo que temos uma experiência de vida que é objetivamente má e se tem vindo a deteriorar apesar dos pulos tecnológicos da humanidade, a adesão aos princípios ideológicos que nos trouxeram até aqui parecem estar a gozar de particular sucesso.
Este sucesso é visível até entre os novos plebeus, aqueles cujas vidas são tornadas objetivamente piores. Para os neoliberais, isto é um sinal de sucesso, uma validação da sua ideologia com traços psicopáticos. Celebram números baixos de sindicalização da mesma forma que a nobreza celebrava o esmagamento de levantamentos populares: como prova da força inultrapassável da ideologia que nos governa.
A Terra Prometida dos nossos dias já não é um paraíso do lado direito do Senhor. É antes a ideia de que, apesar de este ser um sistema que privilegia uma mão cheia de escolhidos, qualquer um poderá vir a ser um desses escolhidos e todos os que não o conseguirem são falhados, perderam na vida por sua culpa, sua máxima culpa.
A ideia pode parecer estapafúrdia. Quem é que encarrilha nessa história da carochinha? Mas ela serve hoje para que trabalhadores aceitem de boa vontade a sua exploração, trabalhos alienantes, decisões arbitrárias de hierarquias incompreensíveis e incompetentes, precariedade na vida e uma constante sensação de insegurança em relação ao futuro como se tudo isto fosse inevitável e desejável. Não nos limitamos a seguir ordens, vestimos a camisola e damos duzentos por cento. O tal extra mile.
Como já se dizia no filme Citizen Kane: “não é difícil fazer muito dinheiro, se tudo o que queremos é fazer muito dinheiro”. Mas será que isso é tudo o que queremos? Vivemos a miséria do presente com os olhos postos nesta ideia desta terra prometida que poderá ser, repito, estapafúrdia, mas já houve sociedades inteiras a aceitarem a sua miséria à conta de mitologias bem mais rebuscadas.
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