Portugal está a investir, com a Lei de Programação Militar, 5,57 mil milhões de euros − o maior ciclo de investimento em Defesa da sua história. Mas a decisão mais consequente deste ciclo não aparece em nenhuma linha orçamental: quem controla a inteligência que opera esses sistemas.
Não é sobre os sempre determinantes equipamentos, plataformas ou infraestruturas. É sobre a arquitetura digital que os une − e sobre quem a governa.
A Defesa está a mudar estruturalmente. Durante décadas, a equação era simples: mais meios, mais capacidade. Hoje, a vantagem operacional depende cada vez menos do volume de equipamento e cada vez mais de como ele funciona em rede, da qualidade dos dados e da velocidade de decisão. A tecnologia militar está a tornar-se menos uma questão de hardware e mais uma questão de arquitetura.
Neste contexto, uma pergunta torna-se inevitável: quando Portugal construir a sua Força Digital, a inteligência que a vai governar − os modelos que assistem as decisões, os dados que alimentam o planeamento, os algoritmos que processam o campo de batalha − será soberana, ou vamos alugá-la a terceiros?
A lição do campo de batalha
A guerra na Ucrânia tornou-se o maior laboratório de inovação militar da história recente. A conclusão mais incómoda não é tecnológica − é estrutural: a superioridade em equipamento deixou, por si só, de garantir vantagem decisiva. O que faz a diferença é a capacidade de processar, integrar e partilhar informação mais depressa do que o adversário. A vantagem deslocou-se do hardware para a arquitetura de informação − e para a capacidade de ligar sistemas, sensores e decisão num todo operacional coerente.
Da força analógica à força digital
Portugal ainda opera, em larga medida, como uma força analógica em que os sistemas comunicam pouco, a informação chega fragmentada e com atraso, a manutenção é reativa e o treino prepara para cenários previsíveis.
Uma força digital opera de forma diferente. A informação é partilhada em tempo real entre ramos e comandos. Os ativos são geridos com visibilidade permanente, a manutenção torna-se preditiva e o treino evolui para simulação digital. A decisão de comando é assistida por Inteligência Artificial − não como substituto, mas como amplificador da capacidade humana.
Mas digitalizar não é o mesmo que ser soberano, e aliados de Portugal estão já a responder a esta questão. França reservou dois mil milhões de euros da sua LPM − 413 mil milhões no total para 2024-2030 − especificamente para IA soberana de defesa e criou uma agência ministerial dedicada. A NATO exige, na sua estratégia de IA revista em 2024, que os sistemas da Aliança sejam auditáveis e governáveis pelos próprios Aliados. O Fundo Europeu de Defesa financia apenas tecnologia de entidades europeias e criou um Selo de Soberania para os projetos que cumprem.
O que fica quando o investimento terminar
Mais do que risco, há uma dimensão de oportunidade.
A internet e o GPS nasceram de necessidades militares. Portugal fez o mesmo nos séculos XV e XVI: a necessidade estratégica impulsionou avanços em cartografia e astronomia que mudaram o mundo. Hoje, o investimento na digitalização da Defesa pode ser o motor de uma nova geração de capacidade tecnológica nacional. Portugal tem capacidade de se posicionar onde a escala não decide: na capacidade de testar, validar e escalar soluções de IA em ambientes operacionais exigentes, e de as projetar depois no espaço NATO e europeu ou no universo de países de língua oficial portuguesa.
A diferença entre estes dois caminhos não se decide no fim do ciclo de investimento. Decide-se agora, no desenho da arquitetura. Não se trata de quanto Portugal vai investir em Defesa, mas do que ficará depois desse investimento.
Capacidade própria ou dependência estrutural? Tecnologia nacional ou integração periférica? Autonomia ou gestão delegada?
No centro desta escolha está uma decisão silenciosa, mas determinante: a inteligência da futura Força Digital será nossa − ou vamos alugá-la?
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