Os gregos antigos tinham uma palavra para traduzir o desejo de regressar a casa, Nostos, que forma a raiz da palavra “nostalgia”. Tema fértil na literatura grega antiga, o regresso a casa ou à pátria encontra a sua melhor representação no poema homérico A Odisseia que narra as atribulações e aventuras do herói Odisseu, no seu regresso a Ítaca, após o fim da guerra de Troia.
Crescemos a ler as aventuras desta figura grega, que corre pelas veias mediterrânicas da Europa e marca a nossa psique coletiva. Para poder regressar para junto da sua mulher e do seu filho, é forçado a enfrentar enormes desafios e provações, incluindo lidar com um panteão de deuses que comanda os destinos da Humanidade. E conseguirá enfrentar o homem no qual se tornou, após mil perigos e dez anos de ausência?
Vem esta reflexão a propósito do trailer do novo filme de Christopher Nolan, com estreia prevista nas salas de cinema em julho, e que consiste na adaptação de A Odisseia, de Homero, com um elenco anglo-saxónico. Hollywood quase sempre evitou dar um tratamento épico às histórias da Antiguidade Clássica, mas é inegável que há algum entusiasmo em torno desta transposição da cultura grega para o grande ecrã. Desconsiderando algumas liberdades tomadas, em particular no que toca à linguagem, diálogos e sotaques, Nolan parece ter optado por maior realismo, deixando para segundo plano o lado mítico e fantasioso. Todavia, não deixa de ser curioso um realizador britânico, com um elenco anglo-saxónico, apropriar-se de um mito mediterrânico, que se tornou um dos pilares da literatura ocidental.
O que torna este poema épico ainda tão atrativo para as grandes audiências, mais de 2700 anos depois? Será a sua descrição de um herói ardiloso que mente e manipula para sobreviver a todo o custo? Ao longo das várias etapas da jornada, Odisseu perde a sua frota e a sua tripulação, até só restar ele próprio, despojado da sua majestade heroica.
Na realidade, A Odisseia não terminou na época de Homero, foi reescrita por todos os povos do Mediterrâneo que viveram entre o mar, a nostalgia e o exílio. É um espaço partilhado com os fenícios, os cartagineses, ou os árabes muçulmanos do Levante ou berberes do Norte de África que atravessaram o mar em direção à Península Ibérica. Todos estes povos criaram os seus próprios relatos e mitos do mar como lugar de perigo e sacrifícios, um lugar que reflete a condição humana e que representa tanto a promessa como o tormento.
A tradição árabe e islâmica criou o seu próprio herói, à semelhança do protagonista grego. As aventuras de Sinbad, o Marinheiro, em As Mil e uma Noites contêm um formato episódico que se assemelha ao poema homérico, em que o protagonista enfrenta criaturas sobrenaturais e atribulações sem fim. E não esquecer as viagens de Ibn Battuta no séc. XIV, que partiu de Tânger aos 21 anos numa peregrinação a Meca, e só regressou quase 30 anos depois, após percorrer o Norte de África, o Levante, o golfo Pérsico, a Ásia Central, a Índia, a China e a África Subsariana, num total de 130 mil quilómetros. Quem melhor do que Ibn Battuta para encarnar a ideia de Nostos? No fim da sua vida, partilhou por escrito o relato das suas viagens, mostrando civilizações sofisticadas que sabemos hoje terem criado os instrumentos que permitiram aos exploradores portugueses partir nas suas viagens marítimas.
E, por sua vez, a própria épica portuguesa, através de Camões, não resistiu a transformar essas figuras portuguesas em heróis míticos, que são testados pela vontade de deuses e monstros nas suas viagens para lá do mar Mediterrâneo. O apelo da viagem, da odisseia, não é apenas grego ou europeu, é universal.
Pouco importa se a visão da Odisseia que Christopher Nolan irá recriar no grande ecrã é um sucesso ou não. O poema recorda-nos, uma vez mais, o fascínio universal pelo impulso para a aventura, a viagem, a jornada repleta de temor e inquietação. Fernando Pessoa escreveu-o em quatro versos: “Senhor, a noite veio e a alma é vil / Tanta foi a tormenta e a vontade! / Restam-nos hoje, no silêncio hostil, o mar universal e a saudade.” Entre Homero e Pessoa, o mar continua como lugar profundo da condição humana. E Nolan será mais um a tentar atravessá-lo.
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