A não ser que se seja o Miguel Esteves Cardoso, não se pode escrever sobre betos neste país. Não sou eu que o digo, mas a Catarina — que é minha mulher e um dos meus revisores de eleição — e o Filipe Costa Almeida, amigo antigo, leitor desapaixonado, e cirurgião ocasional do meu estilo. Sempre que lhes peço para passarem a vista por um texto que verse o tema, invariavelmente devolvem-no à proveniência com um: “Deixa lá isso, escreve outra coisa”. Reparem: em vinte e dois textos que escrevi sobre o assunto, publiquei um total de zero. Fui sempre impedido. E é pena. O material é bom.
Mas é como se houvesse um véu, um tabu, que nos impede um olhar mais demorado, uma análise menos nervosa. Segundo os meus dedicados revisores, ninguém quer saber dos betos para nada. Mas eu discordo.
Não sou tonto; sei que o tema é nervoso, mas recuso a sua irrelevância. Estou até convencido que Portugal não quer saber de outra coisa. E que adora detestá-los. Arrisco duas razões principais para o problema.
A primeira é que a figura do beto, como tudo em Portugal, é demasiado próxima: está na família, no estabelecimento de ensino dos filhos, à saída da Igreja ao Domingo, a passar com a prancha no tejadilho do carro à Quarta à tarde. Não é um outro distante, mas um-de-nós. E falar de betos implica, mais cedo ou mais tarde, fazer as seguintes perguntas: “onde é que eu próprio sou beto?”, “onde é que finjo não ser?”, e “que invejo eu nesse desgraçado que veio ao mundo com apelido composto?”. E pronto, pouca gente gostará de ler sobre si própria nestes termos, muito menos se for para se sentir exposta.
A segunda é porque é um tema que desorganiza a coreografia social. Há temas neutros — a política, o futebol, a cultura popular —, sobre os quais qualquer pessoa pode opinar sem grande risco reputacional. Mas betos implica classe, gosto, educação, dinheiro, modos, aspirações, fracassos e imposturas. É terreno minado. Simplifico, mas um pobre a criticar betos parece ressentido, um rico a criticar betos parece hipócrita, e um beto a criticar betos parece um alcoólico a fazer o elogio da abstinência. Resultado: o texto sobre betos nunca é neutro. É sempre rés-vés confissão, rés-vés ad hominem e, pior, rés-vés ocioso. O autor corre o risco de sair da redacção directamente para a lista negra dos jantares. Daí o bom senso rigoroso de quem me quer bem: “não te metas nisso, Manel”.
Mas há em mim uma vocação para o pecado venial. De tempos a tempos desobedeço. Tenho até um mau hábito que admito em público, uma pulsão herdada de Adão quando Deus o convidou a dar nome aos animais: gosto de classificar espécies. Num dos raros textos que passaram o crivo dos meus bons revisores, chamei beto-errado àquele remediado que pratica a fé cristã que professa e, aos trinta e oito anos, ainda veste o casaco encerado recebido da prima aos quinze. Tem zero de sofisticação e zero de ironia — um pouco como eu às Segundas e Sextas —; é uma pessoa de confiança, o meu beto preferido.
E, porque toda a santidade tem o seu demónio simétrico, imaginei o seu oposto, ou, — usando a metáfora laboratorial-fotográfica, que é mais precisa — o positivo: era o beto-certo. Esse já não me deixaram publicar. Ficou a marinar na pasta onde deposito tudo o que, segundo os meus conselheiros, “ninguém quer ler”. O beto-certo seria o tal que compra ou vende o carro eléctrico consoante a percepção de virtude do dia, assina os manifestos certos e recita, entre copos de vinho branco e cigarros electrónicos, as frases certas nos jantares apropriados. O tabelião da ortodoxia do progresso com a pontaria moral de um míssil teleguiado.
Era um belo retrato, permitam-me a imodéstia. Continuo a achar que era. Mas ficou por lá, em prisão preventiva, ao lado dos outros vinte e um textos proibidos sobre o tema. Todos condenados pelo mesmo melancólico veredicto: “arranja assunto mais sossegado”.
Entretanto, e enquanto ata não desata, os betos vão passando incólumes pelo mundo da opinião publicada. Entram como figura decorativa, piada lateral, cameo sociológico com dois ou três adjectivos previsíveis. Raramente são olhados de frente. Não porque falte substrato — sobram tipos, subtipos, variações e metamorfoses —, mas porque há pouca disponibilidade para o incómodo. Num país assim pequeno, há sempre a sensação de que qualquer caricatura pode aparecer sentada à nossa frente na próxima reunião de antigos alunos.
Talvez um dia se possa escrever e publicar sobre betos com a mesma tranquilidade com que se discute um lateral-direito ou Orçamentos de Estado. Até lá, continuaremos a fingir que não queremos saber do assunto, enquanto, no táxi, no grupo de WhatsApp ou na fila da comunhão, avaliamos se fulano “é um bocadinho beto” ou se “já não os há como antigamente”.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
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