O primeiro dia de 2020 nasceu aluado, de céu pintado de uma cor estranha, o calor prometido abafado por uma camada cinzenta.
Com ou sem sol, a tradição pediu que o piquenique de praia no primeiro dia do ano se mantivesse, embebido na esperança, excitação e resoluções próprias deste recomeço virtual.
Na noite anterior celebravam-se vitórias, reconheciam-se, em jeito de balanço, os momentos mais frágeis e ingratos de 2019 e prometíamos trazer mais de bom, sermos melhores, fazermos melhor.
Naquele primeiro dia de praia, cimentávamos, de pés molhados e sorrisos na boca, os desejos para um ano mais rico, menos turbulento, aliviado dos problemas que parecem sufocar o mundo.
Ironicamente, aquele céu estranho trazia consigo uma mensagem alarmante, em jeito de desafio à fé quase inabalável que temos na capacidade de conquistarmos qualquer meta a que nos propomos.
Dizia o Google que o que cobria o céu não eram nuvens, mas sim o fumo do inferno dos milhares de hectares de floresta e vida animal que continuam a arder, desde Setembro, a 4.155km de distância, na Austrália.
O cheiro a queimado enjoou-nos o estômago, a tristeza profunda inundou o coração.
De sangue a ferver, lancei-me numa pesquisa incessante de informações para tentar digerir as proporções épicas do que se passa aqui tão perto.
O ego pedia-me para achar os culpados, os heróis, os portadores de uma solução rápida, mágica, para podermos todos voltar rapidamente à vida normal. Certamente haveria um plano para prevenir que a vida se destrua assim…
Encontrei o que se vê um pouco por todo o mundo em situações semelhantes. Uma classe política que favorece o crescimento económico a qualquer preço e que reage com a surpresa irónica de quem ignora, ano após ano, os alertas dos peritos. Um primeiro-ministro aborrecido por ter que interromper as suas férias no Havai e uma falta de tacto e compaixão que parece coisa de filme.
Também sem surpresas, a complacência e falta de ética dos órgãos de comunicação social.
Nada de novo. Não havia plano A, muito menos B ou C. Nem em Setembro, quando tudo começou, nem agora. E entretanto tudo arde.
Só uma vontade desesperada, de cidadãos comuns um pouco por todo o mundo, de fazerem o que podem para ajudarem a mitigar este horror.
Milhões de dólares continuam a ser recolhidos para serem distribuídos pelas organizações que tentam fazer a diferença no terreno, confirmando o que já sabemos; que, apesar de tudo, estamos aqui uns para os outros quando realmente é preciso.
Esta parece ser a reação geral quando partes do planeta são arrebatadas por catástrofes ambientais destas dimensões.
Mas enquanto apontamos dedos em pânico, agarrados à ilusão de que estamos de mãos atadas, distraídos com o teatro da (des)informação, eis o que teimamos em não confrontar. A nossa responsabilidade pessoal pelo estado do planeta e dos ecossistemas em que vivemos.
Preferimos acreditar que as nossas escolhas pessoais são gotas no oceano. Certamente a culpa é do sistema e das grandes corporações. E, face a isto, sejamos realistas, que diferença podemos fazer?
A verdade é que o sistema (e as corporações que o exploram) nos falha há gerações, mas insistimos em reagir com surpresa a cada medida política aprovada debaixo do nosso nariz que dizima recursos naturais preciosos e nos rouba qualidade de vida.
Reclamamos nos cafés em vez de nas mesas de voto e assembleias de freguesia. Escrevemos posts nas plataformas sociais em vez de submetermos petições aos nossos representantes, para exigirmos mais pelo salário que lhes pagamos com os nossos impostos.
Vendemos a alma para saciarmos o vício do consumismo. Sacrificamos os laços com as pessoas que amamos em favor da aquisição do próximo objecto, na esperança que preencha o vácuo emocional que esta vida sem sentido vai perpetuando.
Esbanjamos dinheiro, pelo qual sacrificamos tanto, em produtos criados por grandes corporações cuja única preocupação é o lucro fácil à custa dos recursos preciosos do nosso planeta.
Fechamos os olhos ao desperdício criado pela conveniência dos produtos descartáveis que entopem as prateleiras dos supermercados.
Criamos mais lixo nas nossas casas que gerações inteiras anteriores e diferimos o problema para as autarquias.
Os problemas globais que hoje enfrentamos parecem monumentais, mas esquecemo-nos que começam à nossa volta, aos poucos. E se todos nos focarmos nas áreas sobre as quais temos influência, o efeito notar-se-á rapidamente.
Obviamente que seria tudo muito mais fácil se a minoria que parece ditar o futuro do mundo agisse em harmonia com os nossos esforços pessoais.
Num mundo ideal não haveria corrupção na democracia. Os políticos que elegemos agiriam sempre com integridade. Os sistemas criados para servirem as nossas comunidades funcionariam sem falhas e as organizações responsáveis por resolverem problemas globais trocariam os debates pelas acções. As grandes corporações utilizariam os seus lucros e o talento que contratam para eliminarem de raiz a devastação que perpetuam.
Podemos argumentar que somos vítimas do sistema, que é difícil fazer a diferença e que lutamos contra forças com raízes profundas e indestrutíveis.
Mas se temos a capacidade de enviarmos missões ao espaço, de inventarmos tecnologia que permite transformar água salgada em água doce, o mesmo engenho pode ser utilizado para restaurar os ecossistemas que ajudou a destruir.
Está na altura de nos portarmos como adultos responsáveis. De nos focarmos nos nossos deveres como cidadãos deste planeta maravilhoso que nos dá vida. E maximizarmos o nosso poder pessoal para contribuirmos para a criação do equilíbrio de que precisamos tão desesperadamente.
Ninguém nos irá salvar, excepto nós mesmos.
Por onde se começa? Pela nossa carteira e pelas escolhas que fazemos com cada euro. Pelo caixote do lixo lá de casa. Pelas organizações que nos empregam. Por marcarmos presença nas assembleias municipais. Por cada árvore que plantamos no quintal. Pelo uso das nossas plataformas sociais para propagarmos as ideias e soluções que apoiamos. Por usarmos a nossa voz para lutarmos contra as barbaridades que vão acontecendo nas nossas comunidades imediatas e inspirarmos a mudança nas nossas famílias e amigos (depois de tratarmos primeiro da nossa).
Faltam sensivelmente cinco meses para a época de incêndios florestais em Portugal. Enquanto aguardamos que a história se repita, tomemos as rédeas das nossas situações pessoais.
Está na altura de levarmos a sério a nossa capacidade de darmos novo rumo à existência da nossa espécie, em harmonia com a terra que nos sustenta, uma pequena acção de cada vez.
Felizmente, ainda que devagarinho, vai-se sentindo o cheiro da mudança.