Ela olhou mais uma vez para a casa, como sempre tivesse vivido lá. Mas são apenas memórias feitas de histórias contadas pela mãe, reflectidas nos olhos do pai, de poucas palavras, ou pelas lembranças desfocadas do irmão mais velho que ainda se lembra de brincar naquele chão e naquela sombra de árvore que já ali não mora. E agora ela está ali em frente ao azulejo pintado com um moliceiro ao centro e uma bateira no canto, típicos da Ria de Aveiro, a lembrar-lhe as origens de toda a sua família, a uns 11,500 km daquele bairro da Beira

Ela já não tem mais tempo para se perder nas memórias. Olha para o relógio, não almoçou, algo normal desde que aqui chegou, e lembra-se que tem que ir correr para outro bairro para encontrar-se com um grupo de jovens que têm feito mobilização porta-a-porta, na luta contra o surto de cólera. Corre para o carro e entra pela porta da direita, dando de caras com o condutor, ainda não habituada com a condução pela esquerda.
Três meses depois do ciclone Idai, ela ainda fica impressionada com os telhados desventrados, com estruturas e árvores curvadas por um ciclone que nunca ninguém tinha sequer imaginado. Ela passa os dias num corre-corre contra o tempo, mas nem se atreve a queixar-se perante aqueles milhares de mulheres e crianças desalojadas e que todos os dias lhe ensinam a (re)fazer a vida a cada dia. Estão cansadas de repetir o que se passou naquela noite de 14 de Março, onde estavam, o medo que foi crescendo à velocidade do vento e das chapas que foram sendo arrancadas até as famílias ficarem a céu aberto. E quem diria que horas antes, já alertados para a chegada do ciclone, corriam piadas no WhatsApp sobre esse tal de Idai que nem um coco conseguia fazer cair. E depois caiu (e perdeu-se) tudo.
Desde então, vai-se reconstruindo casas e telhados, famílias passam de campos temporários para zonas definitivas onde vão começar de novo, mais de mil mobilizadores voluntários andam de bairro em bairro, distrito a distrito, para proteger as famílias da cólera, malária, malnutrição, exploração e tantos outros perigos que ainda espreitam. Um esforço partilhado por líderes religiosos e comunitários, jornalistas, por todos e todos os dias. Porque “amanhã há que continuar a sonhar”, dizia-lhe um dos camaradas da Rádio Moçambique.
Ao final do dia, quando finalmente regressa a casa, já o sol se pôs, ela escuta músicas angolanas a tocar em cada esquina, ou nas colunas de som improvisadas dentro dos txopelas, a berrar nos ouvidos dos passageiros, e apetece-lhe parar e dançar, como se não houvesse amanhã. Mas não tem tempo. E o corpo, cansado, pede sono.
Ela volta a olhar o relógio e lembra-se que ainda está ali à frente do azulejo, e que não tem tempo, tem os jovens à espera. Sorri ao lembrar-se que a mãe, sem saber, já estava grávida dela quando partiu daquela casa pela última vez, há mais de 40 anos. Ela sou eu. Olho para o relógio e penso: “Tenho tempo”. E aprecio o momento, como se (não) houvesse amanhã.