
Em 89% dos casos [sempre admirei quem faz cálculos de estatística baseados em percepções empíricas], a segunda frase que um estrangeiro ouve nas ruas de Myanmar, depois do ‘omni-audível’ Mingalaba é a inevitável referência à nacionalidade. A resposta nem sempre é fácil, não por qualquer dúvida de identidade, mas porque “Portugal”, envolto em maior ou menor sotaque inglês, nem sempre é reconhecido. Várias tentativas e erros depois, descobre-se como somos conhecidos em Myanmar: ‘Pótugui’ou ‘Pótugui lumió’ (literalmente Portugal nacionalidade), fórmula certa para ganhar mais fãs e a falsa ideia de que dominamos a língua oficial do país.
A partir deste ponto, os desconhecidos interlocutores, em 93,8% [adoro!] dos casos, referem-se a Cristiano Ronaldo. Imagino que nada de novo para quem vive em qualquer canto do mundo. Desengane-se se pensa que referir o nome do jogador serviria para identificar o país naqueles momentos em que ainda não se decorou o tal de ‘pótugui’. CRistiano Ronaldo tem provavelmente muitos Rs que enrolam na língua. Com a prática, chega-se lá: ‘Ci Lonaldo’ de ‘potugui’. Depois (78% das vezes), perguntam se conhecemos pessoalmente o famoso número 7. Às vezes atrevo-me dizer que sim, só para ver onde aquilo vai dar, segura que ganharei um novo amigo para a vida (e um nariz maior).
Curiosamente, fui várias surpreendida (33% dos casos), [e aqui as estatísticas começam a não bater certo, como habitualmente- 74% ?- acontece, mesmo com os melhores empíricos de café] por um nome desconhecido em resposta à nacionalidade portuguesa. Aos meus ouvidos, falavam-me de um tal: ‘nha nhinga’. Algum tempo e ignorância depois, descobri que falavam de Nga Zinga, nome atribuído ao mais famoso português que passou por Myanmar. E eu, tonta, sorria. ‘Sim, sim, o ‘nha nhinga’. Então não havia de conhecer?!’ E sorria de orelha a orelha. Mas nem sempre havia sorriso na troca.
Algumas leituras (e ainda ignorância) depois, pude finalmente afirmar que Nga Zinga foi Filipe de Brito de Nicote, nascido em Lisboa algures entre 1550 e 1560, filho de pai francês e mãe portuguesa. Escolheu claramente ao lado português já que adoptou o nome da mãe, Filipe de Brito, mas de feitio cheira-me que saía ao pai (já lá iremos).
Nos livros de história, aparece como mercenário ou aventureiro ganancioso (conforme o nível de simpatias dos autores) que fez parte da expansão portuguesa no Sudeste Asiático. De facto, Filipe de Brito foi declarado (ou declarou-se, conforme os gostos) “rei” de Pegu, uma área do delta do Irrawady (maior rio de Myanmar que atravessa o território de norte a sul), de 1602 a 1613.
Mas vamos por partes. Muito jovem foi enviado para a Índia para “alcançar honra e fazenda”, como era tradição com a baixa nobreza. Andou pelas negociatas do carvão e do sal até que colocou os seus dotes militares e guerreiros (também sinónimo de mercenário) ao serviço do rei de Arakan, uma área no nordeste de Myanmar, ainda hoje conhecida como estado de Arakan ou Rakhine.
Grato pela ajuda na conquista da cidade de Pegu, no sul, o rei de Aragan deu-lhe o controlo do porto de Syriam (ou Sirião, em bom português) na margem do rio Pegu, no lado oposto do que é hoje Yangon. Brito não se deixou ficar. Mal conseguiu permissão para estabelecer uma alfândega na boca do rio Pegu, logo começou a erguer uma fortaleza. E assim nasceu a ideia de tornar a zona parte da coroa portuguesa, recebida com agradado pelo rei Filipe II de Portugal. Filipe de Brito recebeu o título de fidalgo e a Ordem de Cristo e tornou-se “rei” de Pegu. Corria o ano de 1602. O rei de Arakan andava há muito desconfiado das intenções do português e enviou 6,000 homens para uma visitinha de “cortesia”. Correu mal. Depois mandou uns 40,000, mas voltou a ser derrotado.
Pegu tornou-se pequena demais para tal espírito expansionista. Filipe de Brito quis transformar a alfândega num porto de paragem obrigatória da navegação entre a Índia e Malaca. E pelo meio ainda se meteu em novas guerras com o rei de Arakan. Conta a história que, cercado na fortaleza e com os seus homens a passar fome, Filipe de Brito terá preparado um festim com os alimentos que restavam. Os prisioneiros de guerra, que propositadamente assistiram à festa, foram depois enviados ao acampamento das tropas do rei de Arakan com as sobras de comida para que as senhoras do acampamento estejam “muito gordas e formosas” quando Filipe de Brito as capturar, segundo o recado transmitido. Parece que parte das tropas aliadas desertou na hora com medo do resistente português.
Dizem as más-línguas (i.e. os meus contemporâneos ‘tugas’ em Myanmar) que Filipe de Brito tinha mais filhos que Osama bin Laden, embora eu não tenha encontrado tal feito escrito em lado nenhum. Eu, que nem sou de intrigas, li que Dona Luísa de Saldanha, a legítima de Brito, tinha um caso com um dos seus homens de confiança e que isso era motivo de falatório entre os soldados.
Entre traições, invasões e guerras, Filipe de Brito não terá feito muitos amigos. Quando prendeu e roubou todo o ouro a um rei da vizinhança com quem tinha estabelecido uma aliança, semeou a vingança nos restantes líderes da região, ditando o início do fim do ‘rei’ de Pegu. Foi derrotado e capturado por um dos vizinhos, o rei de Ava. Não terá ajudado o facto dos seus submissos não lhe terem perdoado as atrocidades cometidas contra a população local, a destruição e o saque de pagodes, conversões forçadas ao cristianismo e assassinatos a torto e a direito. Resultado: em 1613, Filipe de Brito, ‘rei’ de Pegu foi empalado e Dona Luisa dada como escrava. A aversão ao português era tal que um dos príncipes aliados foi ordenado a matar o seu próprio genro, o filho de Filipe de Brito. Para eliminar por completo os Britos da face da terra (birmanesa).
Agora que sou uma sabida, já não caio na esparrela:
Desconhecido na rua: ‘Mingalaba’
Sabida: ‘Mingalaba’
Desconhecido: ‘de onde és?’
Sabida: ‘pótugui lumió’
Desconhecido: ‘ah, Nga Zinga, conheces?’
Sabida: ‘Xi! Como não havia de conhecer?! Era mau como as cobras!’
Desconhecido que já se tornou amigo: ‘ E o Ci Lonaldo, thi la? [conheces?]
Sabida: Então, não?! Somos unha com carne!

VISTO DE FORA:
Dias sem ir a Portugal: 17 dias
Nas notícias por aqui: Várias organizações de direitos humanos exigem explicações ao governo e aos militares sobre o desaparecimento de dois líderes da igreja Baptista, vistos pelo última vez a 24 de Dezembro a caminho de uma base militar no norte do estado de Shan. Uns dias antes, os dois religiosos acompanharam alguns jornalistas a uma igreja católica que alegadamente tinha sido bombardeada pelas forças armadas de Myanmar, envolvidas num conflito civil com vários grupos étnicos há quase 70 anos.
Sabia que por cá…Myanmar não só faz fronteira com os dois gigantes asiáticos- a China e a Índia- mas também com o Bangladesh, a Tailândia e o Laos.
Um número surpreendente: Com uma área total de 676 mil km², Myanmar é o maior país no sudeste asiático continental e, à escala mundial, está nos 40 maiores. Ainda assim é mais pequeno que o estado do Texas. [Portugal tem pouco mais de 92 mil km²]