Se alguém, de repente, se vir confrontado com uma cobra-cascavel ficará de imediato em grande tensão, em estado de alerta intenso, a sua frequência cardíaca aumentará, a frequência respiratória também e certamente a sua capacidade de fuga à situação ficará ao nível máximo de eficiência permitindo assim o sucesso da sua sobrevivência.
Como Charles Darwin ressaltou, as emoções são fundamentais à sobrevivência da espécie e o medo em particular permite aos animais (como o ser humano) terem soluções imediatas para as ameaças com que são confrontados.
No exemplo da cobra, a reação é tão imediata que o sujeito poderá só ter consciência do medo à posteriori. Nesta sequência cobra>reação>fuga, a consciência do medo encontra claramente uma justificação e um sentido.
Este não é o caso da Perturbação de Pânico, forma patológica cuja prevalência aparentemente tem vindo a aumentar nas últimas décadas. Sem motivo aparente, a pessoa é subitamente invadida por uma sensação de medo intenso para a qual não tem justificação ou sentido. Como a respiração se tornou ofegante e o coração disparou, muitas vezes aparece uma dor opressiva no peito, com tonturas, tremor, suores, formigueiros vários e sensação de desmaios, a pessoa tem a sensação que pode desfalecer ou morrer em poucos minutos. Se a fluência das ideias se tornar tão rápida ou até caótica, nessa altura então sobrevêm também a sensação de estar a enlouquecer.
Nesta situação de medo patológico, ou seja, sem justificação, sentido ou finalidade, a emoção gera paradoxalmente a iminência de morte sem ser salva pela sensação eufórica de sobrevivência que acontece perante um perigo real.
Com a iminência de loucura ou morte ou até de forma mais suave, correndo o risco de um desmaio, a pessoa procura um SOS salvífico que só pode ser encontrado no 112 e inevitavelmente nas urgências hospitalares.
Para quem sofre de pânico é comum ter uma recordação muito viva da primeira crise, havendo pessoas que se lembram com detalhe desse dia, dessa hora, desse local e de todo o contexto situacional envolvente.
A partir dessa primeira crise e das outras que se seguem, a pessoa inicia um calvário de consultas de Medicina Geral e Cardiologia para “descobrir” o problema orgânico, que lhe provoca tais sensações no corpo. Para cada um é difícil aceitar que o coração em sobressalto, a sensação de asfixia e “respiração incompleta”, o tremor, as tonturas, os suores e sobretudo, a ideia de morte iminente, esteja associado a uma disfunção cerebral/mental. Mais ainda, quando não parece haver causa psicológica imediata ou longínqua para tal sofrimento. Para muitos, a vida corre bem na família, no trabalho e no lazer. E as perguntas surgem revelando a incredulidade da situação: Porquê eu? Porquê isto?
Por vezes os desígnios do cérebro não obedecem à lógica da nossa formulação da vida e do sentido que para ela damos. Por isso parece ser uma disfunção hiperativa da amígdala, pequena estrutura anatómica situada na região ântero-inferior do lobo temporal, importante na gestão das emoções que é responsável pelo desencadeamento das crises de pânico.
É no corpo que se expressam estas crises mas como nos demonstrou António Damásio “sem corpo não há emoções”.