Não gosto de bichos. Quer dizer gosto de joaninhas mas não tenho nenhuma. Fico a olhar, encantado. Há que tempos que não vejo nem sombra delas. A propósito, o que comerão as joaninhas? Os elefantes comem cenouras, os pobres comem o que calha, as joaninhas não sei. Nunca dei por elas a comerem. No outro dia encontrei um homem de chapéu, com uma joaninha de plástico na fita. Um senhor como deve ser, casaco, gravata, tudo, com uma joaninha de plástico na fita. Ou bem que a comprou ou bem que a esposa lhe ofereceu: ainda há homens como deve ser, com joaninhas de plástico na fita do chapéu. Sentado na mesa ao lado da minha, numa esplanadazita quase em frente do dentista, a fazer horas para o tratamento. Eu, claro. Ele não sei.
Passado um bocado chegou uma senhora que se instalou junto dele, com sacos de compras, e o informou que lhe doíam os pés.
– Estes sapatos, queixava-se ela, estes sapatos que não pareciam apertados nem maldosos. A senhora descalçou um deles e massajou o pé, de unhas pintadas de azul, com um dedo encavalitado nos outros e uma expressão de sofrimento, enquanto o senhor da joaninha, calado, bebia não sei quê num cálice, uma coisa branca que o punha roxo a cada gole.
A senhora, gorda, não aprovou o cálice.
– E depois eu que te ature não é?
enquanto o senhor da joaninha seguia o massajar do pé, a comentar
– Sempre foram uma desgraça de feios, coitados
no caso de me pedirem a opinião, e felizmente não pediram, diria que bonitos: bonitos, não eram lá muito, o dedo encavalitado, a sua dose de joanetes mas talvez feios-feios, o que se chama feios, um nadita exagerado, a idade não embeleza ninguém, é sabido, mas também não era caso para cortá-los, uns sapatos maiores disfarçavam e à noite, debaixo dos lençóis, quase nem se dava por eles, duas saliências lá ao fundo, demasiado longe, que sem óculos passavam, até podiam ter as suas intimidades se não arredassem cobertor, a senhora para ele, ofendida
– És mais bonito tu?
enquanto o senhor da joaninha fazia sinal ao empregado para outro cálice, havia três vazios no tampo e o nariz dele um bocado colorido, a senhora, desgostosa
– Já estás como hás-de ir
o senhor da joaninha, a estalar a língua
– É para me esquecer de ti
a senhora, de pé descalço em cima do sapato, a descansar
– Podes esquecer à vontade que já te esqueci há séculos
mas dali a nada iam para casa juntos, com ele a carregar metade dos sacos
– Gaita que isto pesa
a oscilar derivado à combinação do peso dos sacos e dos cálices, os dois pequenos, lentos, rechonchudos, comigo a pensar nas maldades do dentista, uma coisa aqui atrás que me incomoda com o frio, parece que lhe espetam agulhas, o dentista, avaliador
– Uma cárie e peras
quase a felicitar-me por aquilo, a encher uma seringa de anestésico de maneira que pedi ao empregado
– Um cálice igual ao daquele senhor
porque o ruído da broca assusta, e o espelhinho, e o gancho pendurado da boca, e a empregada a espreitar a cárie
– Ih Jesus o que aí vai
sem contribuir lá muito para me encorajar, coisa que o líquido do cálice não conseguiu, primeiro porque não bebo muito e segundo porque o álcool me entristece, não compreendo porquê, vêm-me logo ao de cima as misérias da vida, a partida da Alice, a partida da Cacilda, que se seguiu à Alice, o que existirá em mim que afugenta as mulheres, segundo a Alice
– Estás sempre de monco caído segundo a Cacilda
– És a alegria dos cemitérios
Isto é se calhar não sou muito exuberante e concordo, não sou, fico no meu canto com os selos, quase não falo, quando se me dirigem respondo sempre
– Perdão?
e as mulheres acabam por se ir embora dado que
– És pior que um defunto
ou
– Ao menos em casa só tenho de cozinhar para mim
sem se preocuparem, como elas acentuam
– O emplastro
sem se preocuparem com o emplastro que sou, enfiado no meu canto
– Não te entusiasmas com nada
sem me entusiasmar com nada. Não é bem verdade: se entrasse agora uma joaninha pela janela até batia palmas, elas, admiradas
– Olha está vivo
porque, se estou contente, além de bater palmas dou-lhes bofetadinhas no rabo de forma que o protesto
– O que é isto?
logo transformado em duas malas no patamar e venho buscar o resto depois. Em geral, ao voltarem, já eu estou com os selos outra vez e, para ser sincero, mal as vejo. Cozinho uma cabeça de pescada, que quase mais ninguém gosta a não ser eu
– A expressão do animal dá-me pena
despejo os restos no balde e a seguir vou até à janela, de mãos nos bolsos, na esperança de uma nova joaninha e, logo por azar, nessas alturas não vem nenhuma. Um gafanhoto ou outro, meia dúzia de moscas e é um pau. É a vida. Não sei bem se é alegre ou maçadora mas é a vida e pronto, temos de viver com o que temos, conforme garantia sempre o meu pai
– Temos de viver com o que temos
e vivíamos com pouco mas ia chegando. Que remédio. Não peço muito. Gostava de encontrar o senhor a fim de saber onde arranjou a joaninha e, a seguir, comprar uma de plástico e pô-la na fita do chapéu. Talvez assim, sentado na esplanadazita quase em frente do dentista, se sente na minha mesa uma senhora com sacos de compras, a informar que lhe doem os pés e que, mesmo sem vontade nenhuma de me aturar, vá até casa comigo e nos sirva, contrariadíssima, uma cabeça de pescada.