Querida Portela,
Esta semana escolhi não apontar o dedo nem colocá-lo nas muitas chagas que o mundo, e sobretudo os noticiários inflamados, nos revelam diariamente. Escolhi falar-te do estigma da loucura, mais propriamente de uma poeta e autora neozelandesa quase desconhecida: Janet Frame. Há uma autobiografia intitulada An Angel at My Table (Um Anjo à Minha Mesa), na qual a autora narra, com beleza e profundidade, parte da sua vida roubada por um falso diagnóstico psiquiátrico. Quando estava na faculdade, Janet foi pressionada por um professor a pedir o seu próprio internamento numa clínica psiquiátrica. Talvez, como tantos artistas, tivesse um ar excêntrico e uma forma de olhar o mundo pouco convencional. Para esse professor, sobretudo depois de ter tido acesso ao diário que a própria lhe mostrou voluntariamente, tal comportamento bastou para que fosse considerada doente mental. Na clínica onde foi observada, diagnosticaram-lhe esquizofrenia e, por essa razão, foi sujeita a tratamentos extremamente violentos, incluindo eletroconvulsoterapia (eletrochoques), durante um período de internamento que durou oito anos. E sabes porque lhe foi concedida alta? Janet nunca deixou de escrever durante o internamento e teve a sorte de ser publicada. Em 1952, recebeu um importante prémio literário precisamente quando estava prestes a ser submetida a uma lobotomia. Foi depois desse prémio que a equipa médica decidiu ler o seu trabalho e considerar que talvez o cérebro de Janet não estivesse assim tão doente. Acabaram por lhe dar alta — e foi então que a sua vida começou verdadeiramente. Seguiu-se uma viagem pela Europa, a primeira paixão por um homem e uma entrega total à escrita, embora tenha vivido quase sempre à margem do mundo. Janet tinha poucos amigos e carregava consigo a angústia da morte de duas irmãs, que morreram afogadas, uma na infância e outra na adolescência. Porque escolhi falar sobre isto? Por vários motivos. O primeiro é dar-te a conhecer esta autora — não sei se já a conheces — e também apresentá-la aos leitores da VISÃO. O segundo, talvez mais importante, é partilhar o exemplo de alguém que lutou contra a estigmatização de “doente” que a sociedade e as instituições psiquiátricas da época lhe impuseram. Janet utilizou a escrita como uma arma, foi através da escrita que pode sobreviver. Alguns anos mais tarde, Janet foi avaliada por outro psiquiatra que garantiu não existir qualquer evidência de esquizofrenia. Tinham-lhe sido roubados vários anos de vida e criada uma debilidade da qual talvez nunca tenha recuperado totalmente.
Janet morreu de leucemia em 2004. No dia seguinte, o jornal The New York Times publicou um obituário com o título “A escritora que investigou a loucura”. Coitada da Janet, penso que o título justo teria sido: “A escritora condenada ao estigma da loucura”. O estigma da loucura continua, ainda hoje, a ser (mesmo quando existe um diagnóstico correto) um dos maiores usurpadores da dignidade de uma pessoa. Retira-lhe a identidade, reduzindo-a ao diagnóstico e destrói completamente a sua imagem. Agora imaginemos quem recebe um diagnóstico falso. É como dar uma sentença de prisão perpétua a um inocente e colocá-lo num limbo onde acabará por duvidar da própria sanidade. Extremamente violento. Extremamente injusto. Há um poema curto de Janet que revela bem essa ambivalência entre estar desperto e adormecido:
Before I get into sleep with you
I want to have been into wakefulness, too.
Antes de dormir contigo,
Quero ter estado acordada, também.
Sabemos que a psiquiatria, ainda hoje, tem poucos meios para curar muitas das doenças psiquiátricas. Muitas vezes consegue apenas aliviar ou controlar os sintomas da melhor forma possível. É uma área onde ainda há muito para investigar e descobrir. O que não podemos deixar de tentar resolver, isso sim, é o estigma da loucura.
Cláudia Lucas Chéu
Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela