Há uma passagem recorrente na literatura russa, de Dostoiévski, onde a relação entre dois indivíduos se mantém não pela harmonia, mas pela incapacidade ou pelo medo de uma rutura. A tensão acumula-se, os gestos tornam-se calculados, a linguagem endurece, mas a separação nunca se consuma, porque ambas as partes temem o vazio que se segue. Durante décadas, a relação transatlântica assentou precisamente neste equilíbrio instável entre dependência e conveniência. Hoje, pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, esse equilíbrio aproxima-se perigosamente do seu limite.
O segundo mandato de Trump não representa apenas uma inflexão tática na política externa americana. Representa uma reconfiguração ideológica que coloca a Europa perante uma escolha estrutural. A aproximação a Moscovo, direta ou indireta, de Trump, a tolerância estratégica em relação a Vladimir Putin e o apoio explícito ou implícito a forças políticas que fragmentam o projeto europeu, como a Alternative für Deutschland (AfD) na Alemanha, ou a figuras como foi com Viktor Orbán na Hungria, não são episódios isolados. São parte de uma visão coerente de poder, onde a Europa deixa de ser parceira para se tornar variável de ajuste.
Esta tensão não nasceu com a guerra no Irão, mas foi aí que se tornou incontornável. A recusa europeia em alinhar automaticamente com a opção militar americana revelou um desfasamento estratégico profundo. Pela primeira vez em décadas, o pilar europeu da NATO não respondeu como bloco político coeso sob liderança americana. E essa hesitação foi lida em Washington não como prudência, mas como deslealdade.
Em paralelo, a política económica americana reforça esta lógica de pressão. As tarifas sobre produtos europeus, nomeadamente o setor automóvel alemão, não são apenas medidas protecionistas. São instrumentos de reposicionamento industrial. A exigência de aumento da despesa militar por parte dos aliados europeus, apresentada como compromisso com a segurança comum, traduz-se, na prática, numa transferência indireta de recursos para o complexo industrial americano. A Europa paga, os Estados Unidos da América produzem.
A isto soma-se um elemento simbólico e estratégico que não pode ser ignorado. As declarações sobre a Gronelândia, a reconfiguração da presença militar americana na Europa, incluindo a retirada progressiva de tropas da Alemanha, e a pressão crescente sobre países como Espanha, indicam uma redefinição do compromisso de segurança. A mensagem é clara: a proteção americana deixa de ser um dado adquirido e passa a ser uma função de interesse.

Neste contexto, a resposta europeia continua a ser insuficiente. As palavras de Friedrich Merz, ainda que reveladoras de uma nova assertividade, expuseram também a fragilidade política de uma Europa que ainda pensa em voz alta antes de agir. A própria Ursula von der Leyen tem insistido na necessidade de autonomia energética, sublinhando o regresso ao nuclear e o reforço das energias renováveis como pilares de soberania. Mas entre a enunciação estratégica e a execução política continua a existir um vazio preocupante.
É neste ponto que a intervenção de Volodymyr Zelensky assume particular relevância. Ao defender uma voz europeia unificada para dialogar com Moscovo, Zelensky não está apenas a proteger os interesses ucranianos. Está, na prática, a oferecer à Europa o seu próprio instrumento de segurança. O Exército ucraniano, pela sua experiência, a sua dimensão e a sua capacidade operacional, constitui hoje a linha mais avançada de defesa europeia. Integrá-lo, financiá-lo e estruturá-lo como parte de uma arquitetura de segurança europeia não é uma opção ideológica. É uma necessidade estratégica e urgente.
Ao mesmo tempo, a evolução da guerra no Irão e o alívio indireto da pressão sobre a Rússia criam um novo eixo de conveniência entre Washington e Moscovo. Se Vladimir Putin necessita de espaço económico para estabilizar uma economia sob pressão, e se Donald Trump procura margem de manobra no Médio Oriente, então a Europa corre o risco de se tornar o elemento descartável desta equação.
Restam ainda dois anos e meio desta Administração americana. Tempo suficiente para consolidar uma transformação estrutural na relação transatlântica. A questão central já não é saber se haverá tensão. A tensão é um facto. A questão é saber se a Europa está preparada para a consequência lógica dessa tensão.
O verdadeiro desafio não é romper com os Estados Unidos, mas deixar de depender deles. Isso implica construir capacidade militar autónoma, garantir independência energética e afirmar uma estratégia política própria. Implica, sobretudo, aceitar que a relação transatlântica entrou numa fase em que a lealdade já não é um princípio, mas uma negociação.
A Europa terá de decidir se quer continuar a ser parte de uma relação disfuncional ou se está preparada para um divórcio estratégico. Não um corte abrupto, mas uma separação consciente, onde a autonomia substitui a dependência. Porque, como em Dostoiévski, há momentos em que a continuidade de uma relação deixa de ser sinal de estabilidade e passa a ser apenas uma forma de adiar o inevitável.
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