O afastamento de Rita Rato do Museu do Aljube – Resistência e Liberdade e de Francisco Frazão do TBA – Teatro do Bairro Alto, anunciado pela EGEAC sem qualquer justificação, foi recebido com estranheza por muitos dos que acompanharam o trabalho dos dois diretores nos últimos anos. E estou a ser meiga na escolha do substantivo.
Mal se conheceu a decisão da empresa de gestão de equipamentos e animação cultural de Lisboa, veio-me à memória uma intervenção na reunião plenária da Assembleia Municipal em janeiro, em que uma deputada do Chega chamou à programação do TBA “cultura panfletária”.
Nesse dia, Margarida Bentes Penedo argumentou que deveria recusar-se “estes teatrinhos, estes espetaculozinhos”, “porcarias sem público”, e defendeu uma “política cultural de direita” e a proteção de “artistas ligados à direita”, dando como exemplo o fadista João Braga. Na reunião seguinte, a deputada do Chega argumentou que a sua intervenção fora confundida com uma proposta de censura.
Os profissionais da cultura não enfiaram o barrete da pretensa confusão e responderam-lhe com uma carta aberta “em defesa da democracia cultural”, contestando: “Não há cultura de direita ou de esquerda – há sim, direito constitucional à cultura, sem diretriz ideológica do Estado.”
Dois meses depois, o afastamento de Francisco Frazão e Rita Rato (na foto), que estavam ambos em regime de comissão de serviço desde janeiro, levou a oposição a pressionar o presidente da CML a dar explicações (e, já agora, o gestor Pedro Moreira, reconduzido há cerca de um mês na presidência da EGEAC?). Os vereadores do PS, do PCP e do BE acusaram Carlos Moedas de falta de transparência e de “saneamentos”.
E o posterior anúncio dos nomes das pessoas que vão substituí-los (o diretor do Teatro Municipal São Luiz, Miguel Loureiro, que acumulará funções no TBA, e a historiadora Anabela Valente, no Aljube) não acalmou ninguém. Na segunda-feira, 16, foi divulgada uma Carta Aberta pela Cultura em Lisboa, a lembrar terem sido diretamente nomeadas pelo Conselho de Administração da EGEAC.
“Vemos este gesto como um exercício de autoridade, procurando, com base numa visão ideológica estreita, domesticar e diluir os projetos que construíram nos respetivos equipamentos com as suas equipas, interrompendo e comprometendo as suas estratégias de médio e longo prazo”, escrevem os mais de 400 subscritores.
“Não aceitamos a justificação de que este é um ato puramente administrativo, pois na verdade serviu para excluir dois diretores num universo de 21 equipamentos. No caso do TBA, a concentração de dois teatros numa só direção artística reduz a diferenciação e a pluralidade da oferta da EGEAC; no Museu do Aljube, a ‘nomeação técnica’ não augura nada de bom para um espaço que não pode ser neutro, sob pena de ver desmantelada a sua missão”, lê-se.
“O silêncio abre a porta a uma interpretação gravíssima do afastamento de Francisco Frazão: a de um saneamento político por pressão da extrema-direita na Câmara de Lisboa”, já tinha escrito, no jornal Público, Tiago Rodrigues, atual diretor do Festival de Teatro de Avignon e ex-diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II.
Infelizmente, não me cheira a uma mera perceção errada.