O Papa da esperança e da misericórdia, Francisco foi um homem que gostava genuinamente do contacto com as pessoas. Detinha-se para as escutar, enternecia-se com elas, sofria a sua dor, indignava-se com a sua marginalização, e para todos tinha palavras de alento. Tinha um olhar que via profundamente o ser individual de cada um, sem olhar aos seus defeitos. Era na fragilidade humana que reconhecia o rosto de Cristo e nos espaços das periferias que melhor encontrava os grandes desafios de transformação que o Evangelho coloca às sociedades desenvolvidas.
Mas o Papa Francisco foi também o Papa do sorriso e do humor. Na sua autobiografia refere-se justamente a um Deus que sorri, e encontra no humor qualidades verdadeiramente evangélicas. Ao contrário do ditado inglês que diz que “o diabo se encontra nos detalhes”, para o Papa Francisco é no pormenor que se manifesta Deus. E esse pormenor alarga-se do cuidado pelo outro ao ridículo de uma situação e, afinal, à alegria que dá sentido à vida. O olhar do Papa era um olhar de constante encantamento pela maravilha do mundo e pela diversidade das pessoas. Um episódio divertido que se passou comigo durante a Jornada Mundial da Juventude demonstra-o à abundância.
O dia era 3 de agosto, na Universidade Católica. Após uma sessão empolgante e emotiva, o Papa dirige-se para a saída e eu acompanho-o. O dia estava quente e, como é habitual na presença do Papa, vestia um fato preto discreto. Mas, apesar de tudo, era verão e o agosto de Lisboa é inclemente. Por isso, calçava umas sandálias coloridas, que cortavam a formalidade. Ao chegar ao carro, o Papa abre a janela e chama-me e, com aquele seu humor terno e desarmante, comenta com um sorriso: “Fiquei encantado por ver uma reitora com sapatos tão juvenis!” Quem estava à volta não pode conter o riso franco.
A frase, dita com leveza, carregava no fundo o espírito da JMJ: juventude, liberdade, autenticidade. E era também uma síntese perfeita do próprio Papa Francisco ‒ um homem que nunca deixou de se surpreender com o inusitado, que encontrava beleza onde outros veriam irreverência, e que valorizava mais o gesto espontâneo do que qualquer pose ensaiada. O Papa que elogia sandálias coloridas não fala de moda, mas de atenção ao outro e empatia. Diz talvez que há sempre espaço para a alegria e para o humor e que o Evangelho é também juventude do coração.
O Papa Francisco é amplamente reconhecido pela sua profunda sensibilidade humana e espiritual, mas algo igualmente importante é o seu apurado humanismo estético ‒ uma capacidade rara de perceber a beleza como uma via privilegiada para a verdade e a esperança. Para ele, o belo não era um luxo, mas uma necessidade da alma. Desde a sua juventude que Jorge Mario Bergoglio encontrava na literatura um refúgio e, mais ainda, um terreno fértil para cultivar a fé e desenvolver a empatia.
Inspirado por autores como Dostoievski, Borges e Hölderlin, o Papa Francisco via na palavra escrita não apenas uma forma de arte, mas uma ponte entre o humano e o divino. Mergulhava nos dramas, nas contradições e nas pequenas epifanias que os livros oferecem, como quem busca, nas entrelinhas, sinais de esperança. Porque o futuro tem de ser imaginado, como bem disse no seu discurso aos estudantes da Universidade Católica, e para tal o cultivo da ficção é determinante.
No fim das contas, as sandálias coloridas inspiram a caminhar com esperança. E o Papa Francisco sabia bem que a Igreja precisa disso ‒ de passos leves, coloridos e verdadeiros.
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