Por estes dias ficámos a saber que o mítico “Bota Alta” e a centenária “Casa Chineza” fecharam as portas. Para a posterioridade ficam as memórias e as cumplicidades que nasceram naquele espaço do Bairro Alto, ficam as pedras da calçada que teimam em informar que ali, na Baixa, foi a “Casa Chineza”. Não são casos isolados. São apenas dois exemplos recentes dos muitos que encontramos no eixo Baixa/Chiado em plena cidade de Lisboa.
Sinto tristeza por ver fechar o muito património que nos distingue, as expressões culturais que deram vida aos nossos bairros e nos identificam enquanto povo. Sei que não é com pataniscas, bifanas e velhotas a entender roupa ao sol numa janela no coração da capital que atraímos turistas. Mas, também sei que sem uma estratégia, sem ambição, caminhamos para a descaracterização da Lisboa bairrista, cada vez mais povoada por etnias várias, com insígnias que oferecem exatamente o mesmo no Chiado, no Paseo de la Castellana, nos Champs Élysees ou em Oxford Street.
Somos um País fantástico, um povo que tem uma forma de ser única, somos tranquilos e hospitaleiros, mas falta-nos ambição coletiva para fazer acontecer e não perder a identidade. Se queremos continuar a atrair turistas, a ter no turismo uma das maiores fontes de receita – o setor foi responsável por cerca de 18% de todas as exportações portuguesas em 2023 – temos de pensar fora da caixa e fazer diferente. Lisboa não pode ser francesa, espanhola ou inglesa. Lisboa tem de continuar a ser portuguesa, a respirar fado enquanto embala o turista no azul do Tejo. Tem de oferecer na ementa (para além da língua portuguesa) a patanisca, o arroz de grelos, o bitoque, o foie gras, as trufas xpto ou o caviar, sem esquecer a simpatia e os bons vinhos “Made in Portugal”. As economias que dependem tanto do turismo são tipicamente pobres, por isso temos que nos diferenciar.
Debitar ideias é fácil. Eu sei. Passar à prática é uma história mais longa e que carece de estratégias, de políticas que têm de ir mais além. Já percebemos que o projeto “Lojas com História” não basta para fazer diferente, para fazer conviver o tradicional com o moderno, para replicar os Jerónimos e o Centro Cultural de Belém e enquadrá-los nas muitas Lisboa(s). Que tal fazer emergir ambição coletiva e à ideia inicial do projeto “Lojas com História” juntar-lhe alguma magia e trabalhar afincadamente para que a histórica Baixa Pombalina saia da lista provisória de Património Mundial da UNESCO e passe à condição de residente, tal como o Edifício Real de Mafra – Palácio, Basílica, Convento, Jardim do Cerco e Tapada?
Como está não pode continuar. A descaracterização da cidade de Lisboa, que a cada dia se torna menos nossa e menos ela própria, assume cada vez mais contornos inaceitáveis, merecendo a atenção de todos nós.
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