Nem sequer a escolha de Monte Gordo se pode dizer que tenha sido inocente. A primeira grande praia, de extensos areais, a oeste da Ponta da Areia (Vila Real de Santo António), onde desagua o Guadiana, é um dos locais mais populares do Sotavento Algarvio e está, em agosto, sempre superpovoado. As suas águas tépidas, as mais quentes do País, atraem milhares de veraneantes e a estância está longe de ser considerada um local elitista, estando mais próxima, nos nossos dias, de um típico ponto de turismo de massas. Quem quisesse ficar próximo do povo, sentir-lhe a pulsação, ir ao “despacho das selfies” e juntar aos banhos de mar os de multidão teria escolhido o sítio certo. Mesmo ali ao lado, Marcelo Rebelo de Sousa tinha opções mais diferenciadas, com águas igualmente mornas, na praia do Cabeço ou na praia Verde. Mas não: Monte Gordo foi a base perfeita para o relatório de atividades, quase diário, prestado às televisões nacionais, que montaram a barraca, em permanência, não muito longe do toldo presidencial. Alguma coisa se estava a preparar, e Marcelo deu várias pistas, entre as quais o anúncio de que não enviaria o diploma do pacote Mais Habitação para o Tribunal Constitucional. Como explicou, esta legislação não tem problemas de constitucionalidade. “Mas agora vou fazer uma ponderação política.” Para meio entendedor, o recado era claro: o Presidente não deixava ao TC a responsabilidade de uma decisão, porque, mais importante, para ele, era deixar registado o seu julgamento político e (confirmou-se depois) vincar a sua discordância, em matéria de substância. Ou seja – e o Governo já estava preparado para isso, até por comentários críticos anteriores –, vinha aí um veto. Ora, há duas semanas, quando Marcelo seguiu para o Sul, António Costa tinha dito que “não havia pressa nenhuma” e que o “senhor Presidente da República, uma pessoa muito ativa, também tem direito a um merecido descanso”. Nesta semana, porém, depois de ter sido conhecida a decisão, o líder parlamentar e a ministra da Habitação justificaram a reconfirmação da lei, no Parlamento, pelo facto de as medidas serem “urgentes” e o País não poder esperar mais. Afinal, a pressa, que não era nenhuma, ganhou, depois do veto, foros de emergência…
No seu “descanso ativo” no Algarve, Marcelo deu novidades quase todos os dias – e uma, bastante importante, foi a da convocação do Conselho de Estado para 5 de setembro. O PR deixou bem claro que não se trata de uma nova reunião, mas sim da continuação daquela que foi interrompida, quando António Costa teve de sair, porque tinha um avião para apanhar, rumo à Nova Zelândia, onde assistiria à estreia da seleção feminina de futebol num mundial – por sinal, o único jogo que as “Navegadoras” perderam. Marcelo vinca que faz questão de obrigar o primeiro-ministro a comparecer na reunião até ao fim.