Desde o princípio de março que, entre nós, não se fala de outra coisa: da covid-19 e das suas circunstâncias. Dos malefícios diretos na saúde pessoal e coletiva e dos indiretos, na Economia e nos afetos.
Começou por ser um vírus distante, que acompanhamos com atenção mas sempre com o secreto convencimento de que não chegaria a nós, ilusão que se foi cimentando à medida que outros países europeus, já em fevereiro, começaram a sentir os seus efeitos.
Finalmente chegou, nos primeiros dias de março, com os primeiros casos no Norte, fruto de contágios no exterior. Na primeira vaga, março a junho, Portugal manteve-se entre os países com alguns casos, é certo, mas misteriosamente, com pouco trabalho para os hospitais e muito poucas mortes. As imagens que recebíamos de Itália e de Espanha chocavam-nos pela brutalidade e faziam-nos temer o pior. O Governo, o Presidente da República e a Assembleia da República uniram-se na luta contra a pandemia, e adotaram posições consonantes para um confinamento exemplar durante seis semanas rigorosamente fechados em casa, com as exceções mínimas de circulação. Nenhum de nós terá passado por um período tão estranho e, para muitos, difícil. Mais estranho e mais difícil para os mais deserdados, no emprego, no rendimento, na habitação, no ensino, nos meios de transporte, na alimentação e no acesso a bens essenciais e supérfluos. É sempre assim.
Sabíamos, então, muito pouco sobre o vírus e eram muitas as vozes e os estudos que se perfilavam com novos dados, conclusões atrevidas e conselhos previsíveis. A OMS não conseguiu liderar o processo, tal a torrente de novos casos e as especificidades da incidência em diferentes continentes. O uso ou não uso da máscara, hoje uma questão para nós distante e arrumada, foi então objeto de polémica e de argumentos pró e contra que pareciam, todos eles, fazer algum sentido. Hoje o uso da máscara passou da controvérsia a um imperativo ético e social.
No verão, tivemos uma diminuição generalizada de novos casos e uma aparente resignação dos portugueses a terem que conviver com o vírus por muito mais tempo e com novas vagas.
Entretanto, na política caseira, de um aparente consenso nacional, logo no princípio e também fruto dos bons resultados que íamos apresentando no concerto internacional, passámos aos sinais de oposição, a propósito do apoio às empresas, micro, pequenas, médias, grandes e muito grandes, e ao lay-off. O Governo foi respondendo como pôde, mas dando uma resposta expedita e eficaz para as primeiras impressões. Na frente sanitária, as conferências do INFARMED passaram a não interessar para nada, os briefings diários da DGS e do Ministério da Saúde, também, num sinal de cansaço generalizado com uma informação sempre igual e sem novas medidas. É-se preso por ter cão e preso por não ter. Recordo-me bem do desplante do governo brasileiro que, no auge da pandemia, decidiu esconder os números e acabar com os boletins diários. Realce-se, no nosso caso, o momento de humanidade do Secretário de Estado Adjunto e da Saúde no dia em que anunciou que não tinha havido qualquer óbito. Tocou-nos a todos pela espontaneidade e pelo apreço pela vida.
O estado de emergência, enquadramento jurídico-constitucional necessário para se declarar o confinamento mais radical, começou por ser relativamente bem aceite pelos partidos políticos, mas rapidamente passou a ser frontalmente rejeitado por alguns. As liberdades individuais, de reunião e de manifestação, foram colocadas por alguns à frente do interesse coletivo, destacando-se aqui as posições de quem menos se esperava. Uns porque defendem um Estado autoritário sem grandes liberdades, outros porque tendem a sacrificar o individual ao coletivo.
A realização de reuniões de impacto social em setembro por parte de algumas forças políticas, com mais ou menos disciplina, foi uma clara provocação contra o interesse público num momento de aflição. O Estado contemporizou, com medo de males maiores…A cena repetiu-se, já na segunda vaga.
O SNS sofreu um real teste de stress. Os que nele acreditam fizeram figas para que respondesse bem à pandemia. Os que não morrem de amores por ele, aguardavam ansiosamente o seu colapso, e com ele o colapso do Governo. Os primeiros pediam mais investimentos (os ventiladores foram pedidos e vieram, as camas de cuidados intensivos aumentaram) e mais empregos no SNS (entraram mais médicos, enfermeiros e outros profissionais), os segundos apelavam ao auxílio imediato do setor privado, perante o colapso, mil vezes anunciado, do SNS. Entretanto, os profissionais de saúde iam fazendo o seu trabalho, melhorando os níveis de resposta, no rastreio e no tratamento de novos casos. E a resposta foi sendo cada vez mais competente. Tivemos poucos doentes nos hospitais, não houve qualquer rutura na resposta e não foi necessário o recurso ao setor privado. Os profissionais foram elogiados e tivemos uma das mais baixas taxas de letalidade da Europa Ocidental.
O que correu francamente mal foi a resposta aos lares e aos idosos aí residentes. Percebemos tarde o vulcão que esses estabelecimentos representavam, albergando muitos idosos com saúde frágil e portadores de doenças crónicas favoráveis ao vírus. E, por outro lado, sem assistência médica e sem meios à altura das circunstâncias. Os óbitos concentraram-se nos lares de forma descontrolada e houve episódios pouco edificantes por parte de entidades com grande responsabilidade profissional, como no caso do Lar de Reguengos de Monsaraz, abandonado à sua sorte.
Veio a segunda vaga e uma aparente anemia dos decisores políticos. Presidente e Governo pareciam querer convergir numa estratégia de “pare, escute e olhe”, aguardando um milagre, quando o número de novos casos era já assustador.
Não resultou, e a proximidade do Natal obrigou-os a negociarem um novo confinamento que nos desse alguma normalidade nesta quadra. Atuaram tarde, mas também não vimos a oposição a pedir ou exigir uma intervenção mais atempada. A ideia era proteger o mais possível a Economia, depois da devastação sofrida na primeira vaga (prevê-se, para este ano, uma quebra de 7% no PIB).
As coisas correram agora muito pior: 8 vezes mais infetados, 3 vezes mais doentes a necessitarem de internamento, mais do dobro de doentes críticos e quase o triplo de óbitos é, para já, o balanço da segunda vaga.
A evolução que resultou do novo estado de emergência fez com que a covid começasse a ceder cerca de 3 semanas depois (como era previsível) com a redução em todos os indicadores relevantes, exceto nos óbitos, que é expetável que ainda aumentem.
Mais uma vez, e apesar de uma escala agora muito maior, o SNS tem respondido com serenidade e resiliência. Houve, aqui e ali, alguns hospitais com ruturas momentâneas que rapidamente foram superadas pela resposta, em rede, de todo o sistema, incluindo os privados, e nenhum doente covid ficou para trás.
Para trás ficaram, infelizmente, os doentes não covid. Vários estudos mostram o eclipse parcial da resposta dos centros de saúde e dos hospitais aos seus doentes crónicos e aos novos doentes com patologias de evolução prolongada. Numa análise retrospetiva, nada parece ter justificado o fecho de portas da primeira vaga, com a quebra brutal em toda a atividade hospitalar e nos centros de saúde. Os serviços estiveram em subrendimento e isso tem condicionado o acesso de muitos doentes. A recuperação tem sido muito lenta e há necessidade de uma task force para preparar uma resposta suplementar e enérgica para estes doentes.
Task Force temos, e de peso, para o programa de vacinação contra a COVID. Aquilo que parecia ser uma miragem só concretizável lá para o fim de 2021, tornou-se, prodigiosamente, uma realidade. Investigadores, laboratórios, investimento público, governos e, numa atuação notável, a EU, permitiram-nos concretizar o início da vacinação ainda este ano. É um acontecimento da maior relevância e a única oportunidade para nos livrarmos do vírus.
Cada país adotou as suas regras para definir as prioridades da vacinação. No nosso caso, elas enfermam de falta de simplicidade e de omissões inexplicáveis. Vamos acreditar que tudo acabará bem, com a vacina a chegar a todos sem grandes iniquidades. Talvez o problema mais difícil de ultrapassar se prenda com as bases de informação sobre a situação de saúde atualizada de cada português. Não basta hierarquizar prioridades. É preciso depois encaixar cada cidadão no nível que lhe corresponda para, depois, ser chamado no momento próprio. Muitos portugueses não têm processo clínico no SNS, outros apenas têm registos nos hospitais, outros ainda, apesar de inscritos nos centros de saúde, nunca lá vão (cerca de 30% todos os anos). Outros, ainda, estão registados em mais do que um centro de saúde. Como resolver esta parafernália de contratempos e entropias? O que devem e podem fazer os “doentes desconhecidos” do sistema de informação? Há já algumas escapatórias e nem todas parecem ser sérias e equitativas…
Passemos esta quadra confortados com a notícia de que um dia destes seremos chamados para tomar a vacina redentora. Até lá, evitemos os contactos pessoais em excesso e, principalmente, nestas festas. A terceira vaga está ao virar da esquina…Todo o cuidado é pouco.