Rui Costa vai, nos próximos meses, ter a sua primeira grande prova de fogo. Depois de algumas boas indicações nesta primeira época no papel de responsável máximo pelo futebol, só agora o dirigente do Benfica vai ter de mostrar se consegue, nos gabinetes, atingir o gabarito que conseguiu enquanto actuava nos relvados.
Sou dos que considera positiva a primeira época de Rui Costa à frente do futebol do Benfica, apesar de, em termos desportivos, a conquista da Taça da Liga – ainda por cima da forma como correu a respectiva final -, ser fraco pecúlio para um clube que parte todos os anos com os olhos postos no título de campeão nacional. Neste capítulo, o saldo final é mau, ainda para mais quando também a hipótese de participar na próxima edição da Liga dos Campeões está praticamente posta de lado. Mas nem só com títulos se deve avaliar o trabalho de um administrador, nomeadamente o de Rui Costa, que acaba por conseguir levar a sua equipa a realizar uma temporada razoável, naquele que é o seu ano zero como dirigente.
Em termos de construção do plantel, foram muito poucos os erros. Sobretudo, bem menos do que em épocas anteriores. David Suazo terá sido o maior fracasso, prejudicado pelas lesões. Pablo Aimar tardou a mostrar argumentos, mas pode ter ainda muito para dar. Balboa parece um caso perdido, mas também Lisandro Lopez o era no primeiro ano em que chegou ao FC Porto… De resto, Reyes, Ruben Amorim, Sidnei, Carlos Martins e Yebda entraram bem na equipa, ficando a sobrar Urreta Vizcaya e Jorge Ribeiro. O primeiro mantém intacto o estatuto de grande promessa, ao passo que o segundo continua sem explicar a razão do regresso, parecendo o caso mais flagrante daquilo que Rui Costa vai ter de evitar repetir.
Apesar de má época, a verdade é que a acção de Rui Costa permitiu ao Benfica manter alguns dos seus melhores elementos, valorizando-os, como acontece nos casos de David Luiz, Di Maria, Óscar Cardozo e até Luisão, Miguel Vítor e Maxi Pereira. Neste capítulo, só a gestão do dossiê Katsouranis terá falhado.
Sendo a actual equipa do Benfica uma boa base de trabalho, será na forma como o antigo número 10 dos encarnados conseguir gerir o planeamento da próxima época que se poderá começar a tirar conclusões quanto ao seu talento para a função. E é, neste capítulo, que entra a questão do treinador. O mais fácil, para agradar a adeptos, opinadores e demais críticos – muitos deles com assento na tribuna de hora da Luz -, seria despedir Quique Flores no final da temporada. Com isso, porém, o que Rui Costa iria conseguir era, muito provavelmente, dar início ao fim precoce da sua carreira.
Sejamos pragmáticos: qualquer treinador novo que venha para o Benfica, se tiver, de facto, currículo e capacidade, vai querer construir uma equipa nova. Lá vai assistir-se à habitual plataforma giratória da Luz: sai meia-dúzia, entra dúzia e meia. Isto sem a mínima garantia de que se esteja perante o técnico certo, pois o Benfica não é, nesta altura, o clube mais cativante para grandes treinadores.
Parece-me, pois, claro que a forma mais segura e mais indicada de o Benfica construir um projecto de sucesso será a manutenção de Quique Flores, aliada a uma planificação e política de contratações acertada. Sem esta estabilidade, dificilmente o Benfica conseguirá melhorar em relação ao que viveu na presente temporada. E será esta a grande prova de fogo de Rui Costa: a de mostrar que é capaz de ajudar a construir uma verdadeira equipa e a mudar a filosofia do clube. Caso contrário, não tardará a ser mais um dos que já foram triturados pelo tão glorioso quanto ingrato Sport Lisboa e Benfica. Alguns dos quais, capazes de mostrar, mais tarde, não serem tão maus quanto os pintavam. Como um certo professor que, por estes dias, poderá ser visto a festejar mais um São João antecipado…