“A maquilhagem é uma sala de terapia. Os atores descarregam tudo e mais alguma coisa”

Imagem de José Carlos Carvalho

“A maquilhagem é uma sala de terapia. Os atores descarregam tudo e mais alguma coisa”

Nasci em Angola, no Huambo. Vim para Portugal aos 8 anos, em 1978, com os meus pais e a minha irmã, mais nova. Fomos viver para Viseu, o que foi um choque para mim, que me marcou bastante. Não sabia o que era o frio, nem nunca tinha visto pessoas encasacadas que não falavam umas com as outras.

Mas sempre gostei de artes, por a minha mãe as trazer muito para a nossa casa – ela desenhava e pintava. Aos 18 anos, vim para Lisboa, para tirar Pintura e Design Gráfico no Ar.Co [Centro de Arte e Comunicação Visual]. Ainda antes de terminar a minha formação, num dos fins de semana que fui a Viseu, disse a uns amigos que tinha aprendido umas técnicas e que queria pintar-lhes os braços. Consegui pintar os de alguns deles e fotografei-os. Uma brincadeira de experimentação.

Quando voltei a Lisboa, mostrei as fotografias a uma tia minha, que tinha uma galeria. Ela deixou as fotos esquecidas numa secretária, e a Catherine Palmeiro, maquilhadora que na altura tinha fundado a L’Agence, empresa de modelos – ela e a minha tia eram muito amigas –, viu-as e gostou delas. A minha tia disse-lhe que aquele trabalho era meu. A Catherine pediu-lhe então que me perguntasse se queria fazer um curso de formação de maquilhagem, para trabalhar com ela na L’Agence. À época estagiava num atelier de design gráfico e recusei a proposta. Pensei: “Não tenho nada a ver com maquilhagem, eu própria não me pinto.”

Mas, pouco depois, saí do atelier de design gráfico, porque era explorada, e fiquei na encruzilhada de: “O que faço e para onde vou?” E voltou a surgir, em 1992, a sugestão de frequentar um curso de formação de maquilhagem e caracterização, financiado por um fundo europeu, em que uma das matérias, por exemplo, era História de Arte. Fui convencida a experimentar. Ainda por cima, era remunerado e eu estava sem trabalho. Precisava de ganhar dinheiro para me sustentar.

E gostei imenso do curso. Descobri uma nova faceta e a Catherine chamou-me para trabalhar na L’Agence. Depois, fui convidada para integrar a equipa da série Riscos [RTP 1, 1997], pela maquilhadora que ia chefiar a caracterização. A série teve imenso êxito, e ali comecei a ganhar o gosto pela ficção – a construção de personagens, o trabalho com os atores… Nos Riscos, tive a sorte de conhecer muitos atores jovens, formou-se ali uma equipa que vem até hoje. Começámos todos muito novos e a série foi também uma escola para nós; o modo de trabalhar era muito diferente do que se fazia antes. Foi uma espécie de berço de atores e técnicos em início de carreira.

Para cada personagem feminina, vou pensar quais são a cor do cabelo, o penteado, a maquilhagem, se vai ou não ter cor de unhas. Nos homens, se vão ter barba, que tipo de cabelo vão usar, se vão ser carecas, se vão ter só bigode ou uma barba mais pesada, se vão ter barba por fazer… É a construção de um ‘boneco’ num todo, para durar oito meses de novela

“PERCEBER AS INSEGURANÇAS”

Nos Riscos também estavam a Alexandra Lencastre e o Rogério Samora, duas pessoas com personalidades superintensas. E logo a seguir, no Médico de Família [SIC, 1998-2000], conheço a Rita Blanco. A minha estratégia para lidar com estas pessoas já com muita experiência foi sempre a de observar antes de falar. Perceber como são, as suas inseguranças, porque é que às vezes estão mais ou menos intensas, abordá-las com cuidado, não lhes impor nada, e indo assim conquistando-as. É preciso perceber que acontece os atores estarem a encarnar personagens mais dramáticas e isso mexe com eles. E quando se começa a criar laços de amizade, as coisas tornam-se mais fáceis.

Nunca mais parei. Da Endemol, onde trabalhei de 1997 a 2000, saí para a NBP, que é agora a Plural. Aí fiz a Joia de África [TVI, 2002-2003] e imensas novelas, e passei a ser uma maquilhadora que gostava de “meter as mãos na massa”. Não sendo cabeleireira, gosto de visualizar os cabelos, o que fica melhor, das cores ao penteado. Comecei a criar o todo, desde a cor das unhas a bigodes, barbas e cabelos. Formei, então, uma equipa que trabalha sempre comigo nas criações.

Indo a um exemplo mais próximo, A Promessa [em exibição na SIC] é uma novela da SP – produtora onde estou desde a fundação, há 17 anos – em que existe uma família rica e uma família pobre. É uma narrativa tipicamente tradicional, em que estão bem distintos os estratos sociais, e, claro, é preciso que isso se note. A família mais pobre vem de Trás-os-Montes e é necessário que tenha um visual mais rural, menos estruturado. É a partir daí que vou construir os “bonecos”. Para cada personagem feminina, vou pensar quais são a cor do cabelo, o penteado, a maquilhagem, se vai ou não ter cor de unhas. Nos homens, se vão ter barba, que tipo de cabelo vão usar, se vão ser carecas, se vão ter só bigode ou uma barba mais pesada, se vão ter barba por fazer…

Depois, ao longo da novela, há que pensar, em relação a uma personagem feminina, por exemplo, quais podem ser as variantes do visual com que começou. Se andar de cabelo preso, o que pode usar? Em que situações pode estar sem maquilhagem? É a construção de um “boneco” num todo, para durar oito meses de novela.

Mas essa é só a primeira parte da preparação de um projeto, antes do arranque das gravações. Existe sempre muita pressão. Entre o fim de uma novela e o início de outra, não chegamos a ter uma semana para respirar. E a maquilhagem é uma sala de terapia. Às oito da manhã, somos os primeiros a chegar para as gravações, assim como os atores, que se sentam nas nossas cadeiras e descarregam tudo e mais alguma coisa.

Os atores são pessoas muito intensas, que precisam de muita atenção e, com frequência, é necessário tomar de manhã o comprimido da paciência [Risos]. O certo, porém, é que gosto muito de trabalhar com eles. Nem todos aceitam as nossas abordagens, ou o que a gente pensa, mas tentamos sempre levar as coisas a bom porto, para que ambos os lados fiquem satisfeitos.

Quanto a cinema, até agora só fiz o Bem Bom [biopic sobre as Doce]. Também para mim o filme foi bom: com ele ganhei o Prémio Sophia 2022 de Melhor Maquilhagem e Cabelos. Vi reconhecidos mais de 30 anos de trabalho.

Palavras-chave:

Mais na Visão

Mais Notícias

Um viva aos curiosos! David Fonseca na capa da PRIMA

Um viva aos curiosos! David Fonseca na capa da PRIMA

Da Varanda ao Jardim: Viva o Exterior com a Nova Coleção JYSK

Da Varanda ao Jardim: Viva o Exterior com a Nova Coleção JYSK

CARAS Decoração: 10 espreguiçadeiras para aproveitar o bom tempo

CARAS Decoração: 10 espreguiçadeiras para aproveitar o bom tempo

CARAS Decoração: 10 ideias para transformar o velho em novo

CARAS Decoração: 10 ideias para transformar o velho em novo

A Sagração da Primavera - Quando a morte é também fonte de vida

A Sagração da Primavera - Quando a morte é também fonte de vida

Feira do Livro de Lisboa: 30 escolhas de autor

Feira do Livro de Lisboa: 30 escolhas de autor

O futuro da energia é agora

O futuro da energia é agora

Moda:

Moda: "Look" festivaleiro

25 peças para receber a primavera em casa

25 peças para receber a primavera em casa

Só ver uma pessoa doente já faz disparar o sistema imunitário

Só ver uma pessoa doente já faz disparar o sistema imunitário

Globos de Ouro também são feitos de diversão e descontração

Globos de Ouro também são feitos de diversão e descontração

Parque Marinho Luiz Saldanha: Um mar abençoado, nas palavras e imagens do multipremiado fotógrafo Luís Quinta

Parque Marinho Luiz Saldanha: Um mar abençoado, nas palavras e imagens do multipremiado fotógrafo Luís Quinta

Familiares e amigos despedem-se de João Lobo Antunes

Familiares e amigos despedem-se de João Lobo Antunes

Vencedores e vencidos do 25 de Abril na VISÃO História

Vencedores e vencidos do 25 de Abril na VISÃO História

O que os cientistas descobriram ao

O que os cientistas descobriram ao "ressuscitar" o vírus da gripe espanhola

De Zeca Afonso a Adriano Correia de Oliveira. O papel da música de intervenção na revolução de 1974

De Zeca Afonso a Adriano Correia de Oliveira. O papel da música de intervenção na revolução de 1974

Na CARAS desta semana - Edição especial viagens: Os melhores destinos para umas férias de sonho em hotéis e

Na CARAS desta semana - Edição especial viagens: Os melhores destinos para umas férias de sonho em hotéis e "resorts" de Portugal

Investigadores conseguem novas

Investigadores conseguem novas "receitas" para reprogramar células que podem ajudar a combater o cancro

Biquínis para quem quer disfarçar a barriga

Biquínis para quem quer disfarçar a barriga

Os melhores fixadores para que a maquilhagem dure o dia todo

Os melhores fixadores para que a maquilhagem dure o dia todo

Segway apresenta série de trotinetes elétricas Ninebot E3

Segway apresenta série de trotinetes elétricas Ninebot E3

Um novo estúdio em Lisboa para jantares, showcookings, apresentações de marcas, todo decorado em português

Um novo estúdio em Lisboa para jantares, showcookings, apresentações de marcas, todo decorado em português

Vídeo: A festa final de 'Miúdos a Votos'

Vídeo: A festa final de 'Miúdos a Votos'

Keep the coins, I want change: um mapa para a sustentabilidade empresarial em 2025

Keep the coins, I want change: um mapa para a sustentabilidade empresarial em 2025

As 10 zonas erógenas masculinas

As 10 zonas erógenas masculinas

Microsoft revela poupanças de 500 milhões com Inteligência Artificial, depois de despedir nove mil

Microsoft revela poupanças de 500 milhões com Inteligência Artificial, depois de despedir nove mil

Novo implante do MIT evita hipoglicémias fatais nos diabéticos

Novo implante do MIT evita hipoglicémias fatais nos diabéticos

SIC celebra 32 anos: 32 programas que marcaram a televisão portuguesa

SIC celebra 32 anos: 32 programas que marcaram a televisão portuguesa

Pode a Inteligência Artificial curar o cancro?

Pode a Inteligência Artificial curar o cancro?

Pavilhão Julião Sarmento - Quando a arte se confunde com a vida

Pavilhão Julião Sarmento - Quando a arte se confunde com a vida

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1733

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1733

Recorde as melhores imagens da XXIX Gala dos Globos de Ouro

Recorde as melhores imagens da XXIX Gala dos Globos de Ouro

Dia da Criança: 5 sugestões para te divertires

Dia da Criança: 5 sugestões para te divertires

Ljubomir Stanisic abre as portas do seu refúgio secreto em Grândola - Um santuário no campo

Ljubomir Stanisic abre as portas do seu refúgio secreto em Grândola - Um santuário no campo

O grande negócio dos centros de dados

O grande negócio dos centros de dados

Deus, intuição e Rock and Roll

Deus, intuição e Rock and Roll

Todas as fotografias do casamento de Rúben Boa-Nova e Tatiana Magalhães

Todas as fotografias do casamento de Rúben Boa-Nova e Tatiana Magalhães

Tesla entregou menos carros no segundo trimestre do ano

Tesla entregou menos carros no segundo trimestre do ano

Ralis de regularidade: das apps gratuitas às sondas, conheça a tecnologia que pode usar para ser competitivo

Ralis de regularidade: das apps gratuitas às sondas, conheça a tecnologia que pode usar para ser competitivo

Parabéns, bicharada!

Parabéns, bicharada!

O

O "look" de Letizia no reencontro com a filha em Marín

Fotografia: Os tigres de Maria da Luz

Fotografia: Os tigres de Maria da Luz

Samsung vai lançar smartphone dobrável tríptico até final do ano

Samsung vai lançar smartphone dobrável tríptico até final do ano

Sede da PIDE, o último bastião do Estado Novo

Sede da PIDE, o último bastião do Estado Novo

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1735

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1735