Muito simples, é como a roda de uma bicicleta. Se estiver parada, podemos atravessar a mão pelos raios, mas se estiver em movimento, isso é impossível, é como uma parede. A solidez da matéria é feita desse movimento repetido. O eletrão cria um anel pela velocidade e pela repetição. A realidade depende dessa repetição, dos ciclos. Um nómada viaja pelo seu território como um eletrão viaja ao redor do núcleo. Numa sociedade sedentária, isso é mais evidente, e a realidade torna-se mais sólida ainda, mais difícil de destronar.
Tudo se passa num espaço confinado, com menos volubilidade. O pensamento único ganha poder, a moral certa, a maneira de viver correta, algo que exclui tudo o resto. Chegam a perguntar a artistas o motivo pelo qual se exprimem em geografias que não são as suas. Como se isso não fosse o seu trabalho. Cristo existe pela repetição da ceia. Algo que pediu e que foi perpetuado. Se esquecêssemos isso esqueceríamos Deus na sua forma humana.
O ritual é uma repetição, mas a viagem é um crime contra tudo aquilo que é estabelecido. Rompe os muros construídos, destrói ideias feitas. Em ambos os casos, tanto no nomadismo, quanto na sedentarização, a rotina faz parte da vida, ainda que em proporções e geografias diferentes. A solidez depende da espessura, mas a novidade depende da nossa capacidade de romper essa espessura, de chegar ao outro lado do muro.
A verdadeira viagem é o rapaz que tenta saltar o muro para apanhar uma pera. Tenta chegar ao inalcançável. É uma pulsão que nos acompanha desde sempre, saltar o muro para o desconhecido, para encontrar a novidade, mesmo que seja uma peça de fruta. Isso é a essência da viagem. Não é a repetição sazonal da viagem nómada, nem a sedentarização no espaço geográfico e psicológico, é, isso sim, a exploração do escuro, da noite, de tudo aquilo que, tantas vezes, nos é perfeitamente aberrante, temível, monstruoso.
O desconhecido é o barro do futuro e é a matéria-prima para o moldarmos. Eu, para saber se uma coisa é real, costumo perguntar aos meus filhos. As crianças costumam saber destrinçar melhor. É graças a elas que ainda não se extinguiram unicórnios e dragões. Não atravessamos com a mão a roda de uma bicicleta em movimento, essa é a realidade da matéria: algo que se repete. No entanto, a História está cheia de exemplos de homens que foram capazes de fazer esse gesto impossível, fazer atravessar a sua mão para o outro lado de uma roda de bicicleta.
É o movimento artístico. A viagem na sua maior pureza. Chegar mais dentro na espessura, como disse São João da Cruz.
Toda a ambição de um viajante é, em vez de repetir algum trajeto, criar um novo, em vez de definir a alma de um deus com orações, atravessar-lhe o fígado, em vez de tirar a mesma fotografia que já foi milhares de vezes eternizada em postais, perceber um grito numa língua distante, pintar uma ária. Esse é o trabalho do artista.
Da mesma maneira que ele tenta recriar a realidade com a sua visão, o viajante procura a mesma coisa. Procura caminhos que ainda não foram percorridos, em vez de fazer a órbita do eletrão ou a tarde no sofá a ver derrotas do Sporting. Por vezes, a viagem surge-nos inocentemente em pequenos detalhes, mais ou menos ingénuos.
Em Praga reparei que muita gente bebia em serviço. Nas obras, nas lojas. Quando numa livraria fui pagar um livro e o livreiro me atendeu com uma caneca de meio litro de cerveja na mão, percebi que aquele era um pormenor que não pertencia à minha realidade. Não creio ser possível acontecer em Portugal, mas é deliciosamente realista em Praga. Paguei um livro do Hrabal como se fizesse a minha mão atravessar a roda de uma bicicleta em movimento.