
Distribuir os pontos de interesse da cidade por novas zonas é uma das ideias do arquiteto para combater a pressão do turismo na zona histórica de Lisboa
Gonçalo Rosa da Silva
O arquiteto Manuel Aires Mateus, que no final do ano passado venceu um concurso internacional (juntamente com o irmão, Francisco) para a construção de dois museus em Lausanne, na Suíça, derrotando três prémios Pritzker, conversou com a VISÃO sobre os desafios e a evolução dos bairros.
Qual é o papel da arquitetura na definição da identidade de um bairro?
O que aglutina o bairro é o espaço coletivo, o espaço de todos funciona como ponto central da urbe, e num bairro isso está muito presente. A ideia de espaço público contribui muito para as relações entre as pessoas e ajuda a superar dificuldades, com o isolamento social. Esse sentido aglutinador é definido pela arquitetura que é, nessa medida, das artes mais presentes na vida do coletivo.
A pressão turística pode ser uma ameaça para os bairros?
O turismo é uma questão de peso e medida, sobretudo de tentarmos diversificar os locais de interesse turístico. O problema a que assistimos hoje em Lisboa é que o turismo concentra-se numa parte muito pequena da cidade e torna-se excessivo para esse local, mas escasso para o espaço global da cidade. Lisboa tem de continuar a ter capacidade de angariação de turismo, mas falta distribuir pontos de interesse que levem os turistas a usufruírem de mais espaços da cidade. E, consequentemente, mais espaços da cidade a usufruírem da presença de turistas.
Como gostaria que fossem os bairros do futuro?
Desejo que se tornem uma espécie de microcidades, onde aconteçam muitas coisas diferentes. No fundo, que se transformem, cada vez mais, em locais onde a vida pode acontecer. Que cada bairro seja autossuficiente, isso é essencial para criar a ideia de identidade e estabelecer relações mais fortes entre as pessoas, fazendo a cidade ganhar coerência e qualidade de vida. Não há nada pior do que descaracterizar os bairros, esvaziando-os dos seus atributos, o que é bom é terem tudo, em vez de serem monofuncionais. É isso que preserva a sua identidade, a vida que as pessoas fazem no bairro e a forma como se reveem nele.

Por um bairro melhor é a iniciativa que une a VISÃO, SIC Esperança e a Comunidade EDP em busca dos vizinhos mais ativos do País. Participe, dê ideias, contribua. Tudo por um bairro melhor.