Podia ter sido modista de chapéus de alta-costura, manualidade que ainda executou durante três anos, antes de ser jornalista ao lado do irmão, Paulo Portas, no jornal O Independente. Nessa altura, em 1988, já tinha saído de casa e morava com Miguel Portas, o irmão mais velho, então jornalista do Expresso, futuro deputado do Bloco de Esquerda. Sempre foi uma curiosa por cidades, Lisboa em particular, ou não fosse filha de dois urbanistas, Nuno Portas e Margarida de Souza Lobo.
Catarina Portas, 55 anos, tornou-se empresária e empreendedora há 18. A história de sucesso d’A Vida Portuguesa faz-se também do legado das marcas, algumas centenárias, que ajudou a pôr de novo na ribalta, num inovador conceito de showroom do melhor da manufatura e da indústria nacionais. Se nos portugueses causa nostalgia, aos estrangeiros mostra o quão modernos somos há largas décadas. Além de três lojas em Lisboa (Chiado, Intendente e Mercado da Ribeira) e uma no Porto (Estação de São Bento), A Vida Portuguesa mostra-se por estes dias em Nova Iorque, com produtos de 25 marcas à venda em duas lojas do Museu de Arte Moderna.
Portugal é a matéria-prima do seu negócio?
Comecei, no fim de 2004, com esta ideia: escrever um livro sobre o quotidiano em Portugal no século XX. Sempre quis mostrar e provar aos portugueses que fabricávamos bem e tínhamos produtos muito interessantes. O comércio mudou imenso com o aparecimento da grande distribuição, que não foi buscar marcas mais pequenas e acolheu muitas marcas estrangeiras. De repente, depois da crise [de 2008/9] e com alguma literacia económica, percebemos que era mesmo importante para o País consumirmos os produtos fabricados em Portugal, em vez de importarmos tanto. O sucesso da loja é não ter sido feita para turistas, foi feita para portugueses. Quando vinham várias gerações juntas, as pessoas ficavam muito tempo na loja a contar histórias umas às outras.
É bom termos muita variedade de matérias-primas?
Para mim, uma das ideias fundamentais é o poder das mãos portuguesas. Na Europa, muitos países perderam esse saber-fazer das mãos. Eram países mais ricos, que se industrializaram e automatizaram mais e antes de nós. Se calhar, isto que identificamos como o nosso atraso – ainda termos uma grande parte de manufatura na nossa produção – pode ser o nosso avanço. O Governo devia mesmo fazer uma grande campanha a favor das mãos portuguesas e desse saber-fazer. Ele está no calçado, na cerâmica, no têxtil, no artesanato em menor expressão, está em muito do que produzimos e exportamos. Essa é uma das grandes forças da nossa economia hoje.
Concorda que ajudou a transformar Portugal numa marca?
Tornámo-nos um showroom de Portugal, de um certo modo de vida português. Sei a quantidade de marcas estrangeiras que contactaram as fábricas com que trabalho para lhes comprar produtos. Lembro-me do dia em que estava o diretor criativo de Christian Lacroix na loja e disse-lhe: “Experimenta este creme, Alantoíne da Benamôr, que é ótimo.” Passados 15 dias, estava a vender Alantoíne na loja da Christian Lacroix, em Paris. Casos como esse foram muitos ao longo dos anos. Começámos a aparecer em todos os guias de viagens sobre Lisboa, por sermos uma loja diferente e só com coisas portuguesas, e passámos a ter uma grande parte de clientela estrangeira. Percebemos que estávamos muito dependentes dela durante a pandemia, quando o turismo desapareceu durante um ano e meio.
Do que mais se orgulha nesse percurso?
Hoje, temos cerca de 500 fornecedores e cerca de cinco mil referências. Dá-nos um panorama muito completo do que é a produção em Portugal. Tanto trabalhamos com um artesão único, como com uma fábrica com 150 trabalhadores. Passamos por todo o tipo de indústria e manufatura em Portugal.
Em que momento é que saudosismo e identidade se confundem?
O meu espírito a fazer A Vida Portuguesa nunca é nostálgico ou saudoso. Nunca foi. Há poucas marcas portuguesas, isto nunca foi uma coisa de nacionalismo. Muitos dos produtos foram, aliás, inventados por estrangeiros. A Ach.Brito, a primeira fábrica de sabonetes em Portugal, foi feita por dois alemães, o vinho do Porto foi inventado pelos ingleses. Interessa-me essa mistura cultural de pessoas que vêm para um sítio, fabricam, trazem outras coisas. Sempre fomos um país de ir e vir e andámos muito pelo mundo. O que é que trouxemos, de que forma é que isso se integrou na nossa cultura, isso também é uma forma de contar o País. Mais do que nostalgia, tenho uma curiosidade sociológica, antropológica e histórica. Não tenho mesmo nostalgia nenhuma dos anos 40 e do Estado Novo.
Há alguma fábrica que não tenha fechado graças à Vida Portuguesa?
Não me cabe a mim dizer isso. Durante a primeira crise [a partir de 2008], em vez de fazermos o que faz a grande distribuição – esconder a marca e a origem dos produtos –, fizemos exatamente o contrário. Demos a ver muitos produtos que estavam um bocadinho escondidos ou esquecidos. É claro que isso fez com que as fábricas tivessem outra visibilidade e, por isso, houvesse mais encomendas. Depois de A Vida Portuguesa existir já com alguma presença, começaram essas marcas a abrir as suas lojas. Os nossos próprios fornecedores são também nossos concorrentes.
Se fosse presidente da Câmara Municipal de Lisboa, quais seriam as primeiras medidas que tomava?
Comprava espaços comerciais nos centros históricos para albergar comércio antigo e novos projetos. Acabava com muitas lojas iguais na mesma rua, mas bem sei que tem de partir de uma lei da República. A lógica já não é a Rua da Conceição com muitas retrosarias, mas estamos a falar de uma Rua da Prata com 27 lojas de ímanes, todas iguais. Isto não pode acontecer. Não são verdadeiras essas lojas, estão ligadas a máfias da imigração. E não percebo como é que se gastam milhões a fazer um terminal de cruzeiros e nunca ninguém gastou milhões a fazer um terminal rodoviário. A estação de Sete Rios é uma vergonha, é um sítio horrível, feio, desconfortável. Também acho que os tuk-tuks deviam ter todos a mesma cor, como os táxis. É um ruído visual horrível.
E imagina-se nesse lugar?
Ai, não! Nada, nada, nada. Política, nunca.
É membro do conselho consultivo da Câmara Municipal de Lisboa, para as Lojas com História – o que tem sido feito?
Numa reunião, no ano passado, até chorei de emoção porque a sala já não estava cheia de pessoas de 70 anos. Mais de metade eram pessoas de 30, 40 anos, que tinham herdado e acreditado nos negócios da geração anterior. O programa não serve para os casos em que a pessoa tem 90 anos, quer ir para casa e ninguém quer ficar com o seu negócio. Dou o exemplo da Casa Pereira, em 2019: os sócios tinham 90 anos, os seus filhos quase 70 e a loja de que eram proprietários passou a valer milhões na Rua Garrett. Era impossível que não fechasse. Mas a Pérola do Rossio, por exemplo, foi a única coisa que restou em todo o edifício do Rossio ocupado agora pela Zara.
Defende a regulação do comércio por parte dos municípios?
O Licenciamento Zero [iniciativa do SIMPLEX, em 2011] fazia todo o sentido naquela época de crise, em que havia muitas lojas fechadas e imensa burocracia. Agora estamos exatamente na situação oposta. O Licenciamento Zero tem de ser revogado, porque as câmaras e as juntas de freguesia devem ter uma palavra a dizer. Não é possível que numa segunda-feira feche uma padaria e que, nesse lugar, abra um bar poucos dias depois, a funcionar até às quatro da manhã. Não pode ser só restauração, só hotéis. Cada hotel na Baixa mata cinco ou seis lojas. Para quê? Para terem uns átrios que, em geral, não servem para nada. Por exemplo, em Itália, Florença obriga os hotéis a serem só do primeiro andar para cima. O rés do chão tem de ser comércio. O comércio é a parte viva de uma cidade.
Essas “lojas de ímanes” para turistas na Rua da Prata deviam fechar?
É muito mais difícil fechá-las do que não as deixar abrir. Faz sentido haver cinco lojas iguais da Ale-Hop que vendem umas coisas baratuchas feitas na China, entre a Rua Garrett e a Baixa? Tem de se pensar como é que isto se regula. Mas temos de ter uma mistura, não podemos ter só um tipo de serviço só para um tipo de população. Isso é matar uma cidade.
O problema da imigração é uma extrema-direita que manipula esse tema para causar medo e insegurança. Claro que todos os países europeus hoje precisam de imigrantes para a sua economia
E quando a criticam por também fazer parte da gentrificação do Chiado, onde recentemente inaugurou uma nova loja, na antiga livraria Ferin, como responde?
Também estamos no Intendente, que não é uma zona turística. Abrimos no Chiado porque era o bairro comercial por excelência, ao longo de pelo menos dois ou três séculos. Há 20 anos, quando fui para o Chiado, as lojas não abriam ao sábado à tarde nem ao domingo. Eu dizia aos outros comerciantes: “Mas como é que querem fazer concorrência aos centros comerciais se não abrem quando as pessoas não trabalham?!” Queremos continuar no Chiado, sobretudo porque descobrimos outro espaço antigo, muito bonito, a livraria Ferin, e para mim é importante preservar espaços antigos.
Há turismo a mais em Lisboa hoje?
Acho que o turismo está muitíssimo mal distribuído e a câmara devia fazer uma política diferente. Por exemplo, a Baixa foi sacrificada ao turismo. Tal como escreveu Manuel Salgado [arquiteto e responsável pelo urbanismo na capital durante vários anos], “há que travar mais hotéis e reduzir o alojamento local”. Nem mais um hotel na Baixa. Não pode continuar.
Mas, agora, já não dá para reverter.
Mas dá para salvar, ainda, muitas coisas e as câmaras têm poderes para licenciar ou não licenciar. Tem de haver regras diferentes. O que me assusta não é o turismo em geral, é o turismo de massas.
A chegada de milhares de imigrantes nos últimos anos mudou muito a cidade? Há imigrantes a mais?
Não há nada imigrantes a mais. Confronto-me muito com uma parte dessa realidade porque tenho uma loja no Largo do Intendente, que é onde desemboca a Rua do Benformoso, ocupada sobretudo nos últimos anos pela comunidade do Bangladesh, como é usual em qualquer tipo de imigração. Como os portugueses sempre se juntaram em Newark, nos EUA. Esta é a comunidade mais visível por estar no centro da cidade. São pessoas que não são bem pagas, algumas pelas empresas mais poderosas e mais ricas do mundo, como a Uber, que em Portugal paga menos impostos do que eu pago.
Tem medo de andar a pé pela Rua do Benformoso?
Não, ando para a frente e para trás. Todas as semanas faço aquela rua, é uma rua que me maravilha. Estou ali no Intendente, e também sei que houve uma pessoa esfaqueada no ano passado e que na semana passada houve uma rixa às dez da manhã. Em Alfama e no Bairro Alto sempre houve problemas, a Avenida da Liberdade também era um problema, mas isso foi há 30 anos.
Mas como vê a evolução da segurança das ruas de Lisboa, nomeadamente o centro, nos últimos anos?
Acho que os imigrantes não têm nada que ver com a insegurança. Têm que ver com o mercado de trabalho, que precisa deles. Eles próprios vêm de países que estão em situações bastante difíceis. Mas acho que a imigração tem de ser minimamente regulada. O problema da imigração é uma extrema-direita que manipula esse tema para causar medo e insegurança. A insegurança não vem da imigração, vem da extrema-direita. Claro que todos os países europeus hoje precisam de imigrantes para a sua economia, nós próprios também somos um povo de emigrantes.
Lisboa está mais suja, ou também é uma perceção?
Aprendi com um negócio que tive [Quiosque de Refresco, de 2009 a 2016] que os lisboetas são muito porcos. Não há outra maneira de dizer isto. Cospem para o chão, atiram papéis para o chão, mesmo tendo o caixote ao lado. Para isso, a minha solução seria criar uma “EMEL do lixo”: se houvesse fiscais junto aos ecopontos e pudessem multar as pessoas que põem o lixo no sítio errado, acho que estas equipas se pagavam a elas próprias. Em Itália, por exemplo, há multas à séria para quem não faz a separação do lixo.
Como evoluiu o conceito de vida de bairro?
Cresci ali ao pé das Janelas Verdes, e a Rua do Olival, onde desembocava a minha rua, tinha um estofador, várias tascas e mercearias. Hoje em dia não tem um único café, a única coisa que tem é um atelier de serigrafia. Os prédios foram transformados em alojamento local ou as partes de baixo foram transformadas em garagens. É um bairro morto. A Lapa, por exemplo, é um bairro que tem ricos, que se deslocam para as compras de carro, não compram no bairro.
Do que gosta na vida de bairro?
Há uns anos, fui viver para os Anjos, na zona entre o Bairro das Colónias e o Intendente. Estou fascinada. É um bairro vivo ainda. Além de ter metro muito perto, tem ainda o comércio antigo e o comércio novo, tem pequenos negócios muito criativos e interessantes e tem as mercearias indianas e as portuguesas, tem crianças e escolas, tem pessoas mais velhas, tem estrangeiros, tem portugueses… E é isso que é uma cidade feliz para se viver. A definição de cidade é a mistura. É um sítio onde as coisas se encontram e se misturam. É sermos todos diferentes e vivermos no mesmo lugar.
Como se pode atrair novamente pessoas para os bairros?
Depende dos bairros… O alojamento local é uma grande parte do alojamento disponível num bairro como Alfama. Mas vamos lá olhar para a realidade: Alfama tinha umas casas muito pequenas, velhas e com condições miseráveis que a maior parte das famílias, com carro e crianças, não quer. Não percebo como é que há, hoje, tão poucas cooperativas de habitação, como existiram antes do 25 de Abril. Lisboa teve uma EPUL [Empresa Pública de Urbanização de Lisboa] que construiu ao longo do século XX os Olivais, Telheiras, bairros bons e que são para vários tipos de classes. Também há muitas casas vazias em Lisboa [quase 50 mil]. Isto é um problema que está a acontecer em grande parte das cidades no mundo e que tem que ver com a última crise, quando os mais ricos perceberam que não era seguro ter o dinheiro nos bancos e era muito mais seguro comprar os centros históricos das cidades, que nunca desvalorizam. Era necessário ter sido muito mais rigoroso quando as seguradoras começaram a vender as suas carteiras de imóveis a fundos de investimento e depois puseram as pessoas na rua.
Tem saudades de ser jornalista, nestes tempos tão desafiantes para o jornalismo?
Gostei imenso, imenso, de ser jornalista. Mas já estou muito longe. E encontrei aqui um terreno em que sou tão ou mais feliz do que no jornalismo. No jornalismo, investigava e comunicava. Aqui posso concretizar, posso fazer algo pelas coisas em que acredito. Dantes só podia lançar o alerta. Hoje em dia posso dar a minha contribuição, e adoro ter esse poder de ação.