O cenário é a gala anual da Der Feinschmecker, a mais prestigiada publicação de vinhos e gastronomia alemã. A 12 de março, na entrega dos prémios Wine Awards 2016, os portugueses Baga Friends foram chamados ao palco do hotel Schloss Bensberg, nos arredores de Colónia, para receber o galardão coletivo Awards for Friends, atribuído em nome da “amizade nos vinhos”, na tradução livre de Filipa Pato, uma das fundadoras deste grupo de sete produtores, criado para defender a casta Baga, da Bairrada.
De norte a sul do país são cada vez mais as parcerias em nome do vinho, para fazer, promover ou vender diferentes rótulos. O objetivo é sempre trabalhar a várias mãos, aproveitar sinergias, partilhar custos, ganhar escala, a exemplo do que fizeram os Douro Boys, o mais emblemático caso made in Portugal.
“Faz todo o sentido seguir esta tendência de trabalhar em conjunto. Não resolve tudo, mas pode ajudar pequenos produtores a criar impacto em Portugal e no exterior”, sublinha Jorge Monteiro, presidente da ViniPortugal, a associação responsável pela promoção dos vinhos portugueses através da valorização da marca Wines of Portugal.
No caso da última edição da Prowein, uma das mais importantes feiras de vinho do mundo, que decorreu na Alemanha, no final de março, Jorge Monteiro contabilizou já 20 casos de apresentações conjuntas, que abarcaram meia centena de empresas entre as 130 presenças lusas sob a bandeira da ViniPortugal. A sua experiência mostra que estas associações por vezes são consistentes, “mas muitas vezes são apenas pontuais, para um evento específico, e frequentemente são informais”. A análise que faz do quadro atual leva-o, por isso, a deixar uma dupla recomendação para quem quiser juntar-se à nova vaga das parcerias nos vinhos: “Os grupos deviam trabalhar mais o marketing e apostar um pouco mais na formalidade.”
Quanto às motivações, à organização e aos objetivos dos diferentes grupos, cada caso é um caso, como mostram os 14 exemplos recolhidos ao longo do território nacional, do Minho ao Algarve, sempre fiéis ao lema “a união faz a força”.
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Uma geração D’ouro
Cinco produtores do Douro juntaram-se para promover os seus rótulos e ajudaram a mudar a imagem da região
Um jornalista estrangeiro começou a referir-se aos jovens enólogos da mais antiga região demarcada do mundo como os “boys” do Douro e, de repente, alguém viu naquela expressão a fórmula certa para promover a imagem do Douro em Portugal e no mundo. Foi assim que nasceram os Douro Boys, com cinco produtores associados por relações de amizade, por vezes reforçadas por laços familiares: Quinta do Vale Meão, Quinta do Vallado, Quinta Vale D. Maria, Quinta do Crasto e Niepoort.
Ninguém sabe dizer ao certo a data de fundação deste grupo duriense, onde estão alguns dos responsáveis pelos melhores vinhos que se fazem na região. Sabe-se apenas que tudo terá começado no início do século XXI, entre 2001 e 2003, no meio de conversas informais, que acabaram por evoluir para uma marca registada, um trabalho organizado de promoção e comunicação dos seus vinhos e da imagem do Douro como um todo.
A prová-lo está uma das iniciativas mais recentes do grupo, a Feira do Douro, pensada para apresentar os seus vinhos, os produtos do Vale do Douro e a região como destino turístico, já a preparar-se para a sua segunda edição, a 25 e 26 de junho, na Quinta de Nápoles (Niepoort), depois do arranque no Vallado, no ano passado.
“Vamo-nos adaptando aos tempos. No passado, fazíamos mais ações conjuntas nos mercados externos. Hoje, estamos mais empenhados em trazer convidados às nossas quintas. Percebemos que dar-lhes um banho de imersão no Douro tem outro impacto e que este esforço redirecionado nos torna mais eficazes”, comenta Cristiano van Zeller, da Quinta Vale D. Maria.
Cada um exporta 60% a 80% da produção, tem uma estrutura comercial própria e escolhe os seus mercados e a sua estratégia de preços. Em alguns casos têm clientes comuns, como acontece em Macau, onde os cinco trabalham com o mesmo importador. Para o marketing e a organização de eventos têm o apoio de uma empresa austríaca que fatura um quinto a cada um.
Um exemplo consistente
Coube-lhes romper com um vício típico da mentalidade portuguesa, que é trabalhar sozinho, para provarem que em grupo é possível potenciar múltiplas capacidades que isoladamente teriam escasso efeito. Fizeram isso com vinhos de qualidade e uma imagem de modernidade que ajudou o Douro a atingir níveis de notoriedade sem precedentes no exterior. Foram apresentados por alguns dos mais influentes líderes de opinião do sector como os protagonistas de uma “revolução tranquila” na enologia duriense. Ajudaram a colocar os vinhos de mesa do Douro entre os melhores do mundo nos rankings das revistas da especialidade. Tornaram-se um exemplo para outros produtores durienses e para outras regiões do país.
Jorge Monteiro, presidente da ViniPortugal, não tem dúvidas de que este será, em Portugal, “o exemplo mais consistente” do que é possível fazer com as parcerias no mundo dos vinhos. E se no sucesso que os vinhos do Douro estão a ter no exterior “o mérito é da região”, também é verdade que “os Douro Boys são a organização informal que mais contribuiu para esta notoriedade”.
Cristiano van Zeller apresenta alguns dados, recolhidos em causa própria, que ajudam a perceber o que está aqui em causa. “A primeira vez que a revista americana Wine Spectator publicou uma lista com 19 vinhos tintos portugueses com classificações acima dos 90 pontos (excluindo os Vinhos do Porto, Moscatel e Madeira), em 2005, 16 eram nossos”, diz. “Até 9 de março último, dos 566 vinhos tintos classificados com mais de 90 pontos pela Wine Spectator, 84,28% são do Douro e 30,22% são dos cinco produtores dos Douro Boys, sendo que a nossa percentagem sobe para 82,86% nos 35 vinhos classificados com 95 pontos ou mais. Nos brancos, em 43 vinhos, 35 são do Douro e 17 são dos Douro Boys”, acrescenta. “Nas pontuações de Robert Parker encontramos 1035 vinhos com mais de 90 pontos. 547 são do Douro e 159 são nossos. A partir dos 95 pontos, há 66 vinhos, 24,24% dos quais pertencem aos Douro Boys”, conta ainda.
Se as sinergias de grupo funcionam bem, há razões objetivas que ajudam a explicar a forma como todos se empenham na troca de informações permanente, num programa de promoção conjunto que envolve custos diretos de 200 mil euros por ano, na presença em bloco em eventos internacionais. Desde logo, alguns destes projetos começaram na mesma altura, em meados da década de 90, e alguns dos Douro Boys já faziam coisas juntos antes de o grupo nascer. Três exemplos: o primeiro vinho da Quinta do Vale Meão foi feito no Vallado; o primeiro vinho de Cristiano van Zeller foi feito na Niepoort, e Francisco (Xito) Olazabal, do Quinta do Vale Meão, é enólogo no Vallado.
A dinamizar este espírito de grupo há ainda a pequena dimensão inicial da maioria dos projetos. Quando a Quinta do Crasto arrancou com os seus vinhos do Douro DOC, em 1995, produzia umas 10 mil garrafas, tal como o Vallado, enquanto o Vale D. Maria começou em 1996 com duas mil garrafas, um número que triplicou no ano seguinte. Individualmente, têm pesos diferentes, com a Niepoort a liderar as vendas (10 milhões de euros em 2014), seguida do Crasto (6,5 milhões), do Vallado (5 milhões), do Vale Meão (2,7 milhões) e do Vale D. Maria (1,6 milhões).
Para medir o sucesso do trajeto há números que comparam a dimensão dos Douro Boys em 2002 e em 2013. As vendas cresceram 187%, de 8 para 24 milhões de euros (25,8 milhões em 2015), as exportações mais do que triplicaram, para 14 milhões de euros, o número de trabalhadores passou de 94 para 165, o EBITDA (lucros antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) aumentou 259%, para 7,6 milhões de euros, o preço médio por garrafa subiu 16%, para 7,06 euros, e a área total de vinhas saltou dos 267 hectares para os 524 hectares.
A par deste trabalho, a realçar o espírito de equipa e a promover o nome dos Douro Boys, há vinhos feitos em conjunto para assinalar, de forma simbólica, os 5 e os 10 anos do grupo.
No primeiro caso, cada um dos produtores cedeu uma barrica para produzirem o Douro Boys Cuvée 2005, num total de 500 garrafas magnum (1,5 litros), leiloadas em 2007, por Peter Mansell, da Christie’s , a um preço base que superou os 200 dólares (180 euros). No segundo caso, foram engarrafadas 750 magnum do tinto Douro Boys Cuvée 2011, também leiloadas a preços próximos de 300 euros em 2013, e mais 25 magnum do Douro Boys Vintage Port 2011. “Já encontrei algumas destas garrafas a mais de mil euros”, comenta Cristiano van Zeller, para provar que o mercado valoriza este trabalho e “faz todo o sentido continuar a investir nesta parceria para o futuro”.
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Cliff Richard forma banda para os vinhos
O primeiro passo foi dado pelo músico britânico Cliff Richard, quando decidiu comprar uma quinta e começar a plantar vinha no Algarve, no final dos anos 80. Conheceu então Nigel Birch, que ficou responsável pelo sistema de rega da propriedade e acabou por investir também em vinha, tal como o filho, Max Birch, mas já no início do século XXI. Estava formada a banda da Adega do Cantor, agora em fase de separação, mas apontada como um exemplo do que pode ser feito em parceria no sector dos vinhos.
Juntos, somavam 26 hectares de vinha, distribuídos pelas Quintas do Miradouro, do Moinho e Vale do Sobreiro, num raio de apenas dois quilómetros de distância, suficientemente próximas para o trio inglês decidir trabalhar os seus vinhos numa adega comum. Foi assim que nasceu a Adega do Cantor, em 2003. Fica na Quinta do Miradouro, que pertence a Cliff Richard, mas é uma propriedade partilhada pelo músico e por Nigel Birch, com capacidade para processar 200 toneladas de uvas.
No modelo de negócio desenhado, “a adega compra as uvas das três quintas, faz os vinhos sob marcas comuns e trata de sua comercialização”, nas gamas de vinho Vida Nova (duas ou mais castas) e Onda Nova (monovarietais) e no espumante Congratulations, explica o enólogo Ruben Pinto. Como Max não está a viver em Portugal, a Adega do Cantor tem assumido também a missão de gerir a sua quinta.
Em 2016 serão engarrafadas 100 mil garrafas, entre brancos, tintos e rosés de 2015 a 2012, o que permite criar uma massa crítica que nenhum dos produtores teria sozinho e trabalhar melhor o mercado externo, que absorve 60% da produção, com destaque para o Reino Unido e a Dinamarca.
Através da adega, os produtores têm partilhado também os custos de uma estrutura que absorve duas pessoas na vinificação, duas no escritório e mais duas na loja e no projeto de enoturismo, com 10 mil visitantes por ano. O fim do projeto, no entanto, parece estar à vista, depois de a família Birch pôr as suas quintas à venda, em abril. A Adega do Cantor também está à venda, mas Cliff Richard mantém a quinta e as vinhas em Portugal.
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A Baga no seu melhor
“Somos o único grupo do mundo focado apenas numa casta”, diz a enóloga Filipa Pato quando apresenta os Baga Friends, juntos desde 2010 para defender a Baga, a sua autenticidade e a capacidade para transmitir a essência de um local.
Esse caráter único do grupo pode ajudar a explicar o prémio Awards for Friends, atribuído há algumas semanas pela revista alemã Der Feinschmecker, a mesma que em 2011 já tinha entregue a Filipa o prémio Newcomer of the Year, destinado a distinguir jovens enólogos revelação, mas os sete produtores envolvidos nos Baga Friends também têm os seus vinhos para apresentar como cartão de visita.
Os pais da ideia foram Filipa, da empresa Filipa Pato & William Wouters, e Mário Sérgio, da Quinta das Bageiras, empenhados em contrariar “o fim que parecia anunciado para a casta Baga, muito esquecida na Região da Bairrada nos últimos 15 anos”, inconformados com o “abandono de vinhas velhas fantásticas”, e convictos do potencial de uma uva que “não é igual em todo o lado”.
Dirk Niepoort, que está nos Douro Boys, fez um vinho com Filipa Pato e acabou por comprar a Quinta de Baixo, na Bairrada, e aderiu de imediato a esta ideia que juntou mais quatro produtores: Luís Pato, pai de Filipa, Vinhos Buçaco (Alexandre Almeida e António Rocha), Sidónio de Sousa (Paulo Sousa) e Quinta da Vacariça (François Chasans).
Chegar mais longe
Para darem gás a esta parceria e reunirem os fundos necessários ao arranque da promoção do grupo fizeram o vinho Baga Friends, colheita de 2011. Cada um dos sete produtores envelheceu o seu vinho e depois, na fase de preparação do engarrafamento, juntaram os respetivos lotes para encher 1200 garrafas, que chegaram ao mercado em 2014, com um preço de venda ao público de 80 euros.
A ideia é ir repetindo este trabalho coletivo e fazer novos vinhos a várias mãos no futuro, mas apenas em anos excecionais, como em 2015. É assim que querem promover o grupo, os vinhos de cada um e também uma casta que já foi dominante na Bairrada mas atualmente representa menos de 50% dos pés de videira para vinhos tintos da região.
Ver agora a Comissão Vitivinícola da Bairrada investir no projeto Baga Bairrada, aberto a todos os produtores da região, de forma a estabelecer um padrão coletivo para um espumante feito a partir da casta bandeira bairradina e assumir a Baga como “um património inquestionável, que tem de ser preservado e potenciado, é apenas um indicador de que a parceria está a cumprir os seus objetivos de defesa ativa da casta. Aliás, há adegas que não valorizavam a casta e agora estão a ver a Baga com outros olhos”, diz Filipa.
Ao mesmo tempo, há partilha de custos na promoção internacional, como aconteceu em março, com a presença num stand coletivo na feira Prowein, ou no passado recente, na Embaixada de Portugal em Londres, onde os Baga Friends organizaram uma prova dos seus vinhos focada na Baga.
A preparar mais uma ação conjunta, no curto prazo, nos EUA, os sete produtores amigos da Baga também conseguem criar assim massa crítica suficiente para atraírem pesos pesados da crítica internacional do sector dos vinhos à Bairrada, como Sarah Ahmed, do guia de vinhos de bolso britânico Hugh Johnson, ou Jancis Robinson, com uma coluna semanal no jornal Financial Times. “Juntos, temos mais visibilidade e chegamos mais longe”, reconhece Filipa Pato.
Lucília Monteiro
Unidos para o mercado externo
A amizade entre António Lamas, da Quinta das Bajancas, António Vicente, da Quinta do Soque, António Domingues, da Casa Brites Aguiar, e o casal Maria Luísa e José Guimarães, da Quinta dos Poços, foi meio caminho andado no projeto da Douro Family Estates. A outra metade do percurso foi cumprida com o apoio da Duplo PR, a empresa de consultoria enológica que convenceu os produtores das virtudes de uma solução a quatro para partilhar custos, chegar mais longe, vencer o desafio da internacionalização.
A ideia de criar a DFE – Douro Family Estates remonta a 2004, mas a empresa demorou cinco anos a nascer, com um departamento comercial comum para servir os quatro produtores e um modelo desenhado para partilhar sucessos e insucessos e potenciar mais-valias. As propriedades, no Baixo e Cima Corgo, têm dimensões diferentes, entre os 10 hectares da Bajancas e os 40 hectares da Brites de Aguiar, num total de 100 hectares, mas todos os produtores têm quotas iguais, de 25%, na DFE.
No mercado nacional, cada um trabalha em nome próprio. No exterior, estão em parceria sob a alçada da Douro Family Estates e, ao lado das suas marcas, apresentam a DFE como marca da empresa com rótulos de Classic branco e tinto, Premium e Signature
Dos 22 rótulos comercializados em conjunto, 10 esgotaram em 2015, um pequeno pormenor numa história que pode ser contada em diferentes ângulos, a começar pelas distinções óbvias no negócio de cada um dos produtores. “Em 2002 nem sequer tinham adegas para vinificar. Vendiam as suas uvas a terceiros. Agora fazem os seus vinhos, têm as suas marcas. Tornaram-se autónomos e evoluíram na cadeia de valor”, sintetiza António Rosas, da Duplo PR.
A marca DFE é um espelho dessa mudança. Se no início a ideia era encontrar mais um canal para escoar os vinhos do grupo, hoje é preciso pedir para dispensarem uma parte da produção para encher estas garrafas, porque o mercado reagiu bem às marcas individuais, aos vinhos de quinta.
Cada um dos produtores escolhe livremente a estratégia a seguir e não têm de ir todos aos mesmos mercados, mas há alguns alvos prioritários, como a Suíça, EUA, Brasil, China, Alemanha e Inglaterra. A dependência das exportações também oscila. No caso da Casa Brites de Aguiar fica abaixo de 10%, noutros casos pode chegar a 60%.
Com a DFE, passaram a ir juntos a feiras no exterior. Depois, os custos são indexados às vendas de cada um. Sem este modelo de parceria seria difícil estes produtores terem olhado para o mercado externo, porque, como sublinha António Rosas, “os custos envolvidos seriam incomportáveis individualmente, devido à sua dimensão”.
Quando o marketing é feito no feminino
São oito mulheres, entre os 30 e os 40 anos, ligadas por uma causa comum: o vinho. Mas a história desta parceria, ainda em formação, começou em 2012, quando uma reportagem da Notícias Magazine sobre as “Herdeiras do Vinho” juntou “10 princesas” de casas vinícolas portuguesas, “prontas para a sucessão”.
Todas elas trabalham no vinho, umas ligadas à produção, outras ao marketing e comercialização, outras com responsabilidades de gestão, e logo neste primeiro encontro descobriram o potencial de unirem esforços para organizarem algumas iniciativas conjuntas. A ideia foi amadurecendo, e já este ano oito decidiram formalizar o grupo D’Uva – Portugal Wine Girls, onde cruzam diferentes regiões vínicas e reúnem um portefólio de rótulos que querem apresentar também como uma viagem pelos vinhos de Portugal, do Douro ao Alentejo.
O projeto de apresentar os vinhos lusos no feminino junta Catarina Vieira, da Herdade do Rocim, Alentejo (enologia e viticultura), Francisca van Zeller, da Quinta Vale D. Maria, Douro (marketing e vendas) Luísa Amorim, da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, Douro (direção geral), Maria Manuel Poças Maia, da Poças Júnior, Douro (viticultura), Mafalda Guedes, da Herdade do Peso, Alentejo (responsável pelas marcas premium da Sogrape), Rita Cardoso Pinto, da Quinta do Pinto, Lisboa (coordenação geral e comercial), Rita Fino, do Monte da Penha, Alentejo (marketing e vendas) e Rita Nabeiro, da Adega Mayor, Alentejo (direção geral).
A missão assumida em conjunto é “dar a conhecer os vinhos portugueses, a sua diversidade e qualidade”, aproveitando uma porta aberta para a comunicação segmentada, no feminino, a exemplo do que fazem outras organizações congéneres pelo mundo. Acreditam que as mulheres “trazem uma nova sensibilidade e experimentalismo ao sector”, como diz Rita Nabeiro. Sabem que esta aposta irá permitir cruzar competências complementares para criar mais-valias, otimizar custos, reforçar redes de contactos, partilhar experiências e conhecimentos.
O alvo americano
“Temos dimensões e experiências diferentes, mas isso é muito enriquecedor”, salienta Mafalda Guedes, que está nesta parceria para comunicar os vinhos da Herdade do Peso, onde engarrafa 820 mil garrafas, mas admite “poder eventualmente aproveitar o grupo para apresentar outras marcas da Sogrape”, a empresa da sua família.
Ainda em fase de registo da marca, o grupo vai ter um orçamento comum, mas haverá depois contributos especiais em função das ações que forem surgindo. Na fase de arranque, o foco estará em Portugal, onde realizaram em maio, no Porto, a primeira prova dos vinhos D’Uva para líderes de opinião, profissionais e apreciadores.
A ideia é “começar por solidificar a parceria em casa”, explica Mafalda Guedes, mas o calendário para 2016, ainda em construção, prevê contactos com outras associações similares em diferentes países, como o Grupo Vinissima, que junta 500 mulheres ligadas ao vinho na Alemanha, e tem como objetivo começar já a olhar para o mercado externo, em especial para Inglaterra e Estados Unidos, “dois mercados prioritários para o grupo”.
A oito querem também começar a convidar especialistas internacionais para virem a Portugal conhecer de perto cada uma das casas que representam e estão empenhadas em ter presença conjunta em certames internacionais, partilhando custos.
Fazer um vinho a 16 mãos é uma ideia que também chegou a estar em cima da mesa, mas não será para concretizar de imediato. “As nossas prioridades, nesta fase, passam por não nos dispersarmos muito e deixarmos de ser um grupo informal para sermos um grupo a sério”, justifica Mafalda Guedes.
Na vinha também se faz renda
Sandra Tavares da Silva, a enóloga que começou por ser modelo e se divide entre o Douro e Alenquer, na Região de Lisboa, onde é uma das fundadoras da Lisbon Family Estates, também está a fazer renda nas vinhas do Douro e do Alentejo com a espanhola Susana Esteban. Pelo menos é assim que as duas amigas escolheram apresentar ao mercado o seu trabalho conjunto, com os vinhos Crochet e Tricot.
“Começámos a trabalhar ao mesmo tempo no Douro, em 1999. Eu na Quinta Vale D. Maria e a Susana na Quinta do Crasto (dois dos Douro Boys). Éramos as únicas mulheres a fazer vinho na região, o que nos aproximou”, recorda Sandra. Quando Susana partiu para o Alentejo, onde trabalha como consultora para diferentes produtores (Tiago Cabaço Wines, Herdade do Barrocal, Monte dos Cabaços e Monte da Raposinha), e iniciou um projeto pessoal que abrange os vinhos Procura e Aventura, era preciso encontrar forma de manter o contacto. E foi então que surgiu a ideia de fazerem renda em parceria.
Estrearam-se no Douro, em 2011, com o vinho Crochet. Para isso andaram no terreno até encontrarem a vinha certa, com 40 anos, plantada com as castas Touriga Franca e Touriga Nacional. Escolheram um método de fermentação diferente dos lagares tradicionais durienses e usaram cubas de fermentação prolongada. Definiram como limite produzir quatro mil garrafas por ano. O cuidado com a imagem levou-as a convidar Rita Rivotti, especialista em branding e design de vinhos, a criar a imagem e a embalagem para a sua produção e acabou por dar ao Crochet um Pentaward, considerado o óscar no design de embalagens, na categoria Luxo – Vinho e Champanhe, em 2014, em Tóquio.
Precisamente nesse ano, Sandra e Susana iniciaram mais um projeto conjunto, no Alentejo, onde escolheram uma vinha velha de Portalegre, com a casta Alicante Bouschet, para fazer três mil garrafas de um novo vinho, agora batizado como Tricot, para lançar em 2016.
Com preços acima dos 20 euros, a produção das amigas e sócias Esteban & Tavares garante 50% das vendas no mercado externo e promete não ficar por aqui. Sandra e Susana querem continuar a “partilhar experiências”, simplesmente porque gostam de trabalhar juntas.
Um quinteto transregional
“O projeto Independent Winegrowers’ Association (IWA) nasce pela necessidade imperiosa de criar agrupamentos de empresas do sector vitivinícola que assegurem de forma mais eficaz a promoção conjunta dos seus produtos”, dizem os cinco produtores desta associação no sítio dedicado ao projeto, na Internet.
O esforço para criar sinergias começou há uma década e cria pontes entre o Vinho Verde, Douro, Dão e Bairrada, juntando a Casa de Cello, Alves de Sousa, Luís Pato, Quinta do Ameal e Quinta dos Roques no objetivo comum de “cooperação e interação ativa no desenvolvimento deste agrupamento de viticultores independentes”, sem esquecer o marketing. Como mercados prioritários, o grupo elegeu os EUA, Inglaterra, Brasil, França, Alemanha e União Europeia.
“A ideia é trabalharmos em ações conjuntas, mantendo a autonomia empresarial de cada um”, explica Pedro Araújo, da Quinta do Ameal. É nessa base que os cinco produtores participam em eventos conjuntos, da organização de uma prova anual dos seus vinhos em Portugal à participação em feiras internacionais. Em quinteto também há “a massa crítica necessária” para convidar especialistas internacionais a seguir um roteiro pelas diferentes casas da IWA. “Juntos temos uma oferta e um poder de atração a que nunca poderíamos aspirar individualmente”, reconhece Pedro Araújo.
Para o funcionamento da IWA, que soma entre os seus produtores 300 hectares de vinha e 960 mil garrafas vendidas, há um orçamento base, construído através do pagamento de quotas trimestrais dos associados, mas há também abertura para discutir eventuais reforços de verbas, de forma a dar resposta a ações específicas que podem surgir ao longo do ano. O que uniu o grupo nos primeiros tempos foram as relações de amizade, a proximidade entre alguns dos seus membros. Mas hoje já é possível juntar razões objetivas a esta união de facto. “Há colaboração, troca de experiência e de ideias. Por vezes, ajudamo-nos em mercados específicos com coisas simples, como dar o contacto do nosso importador nesse país”, refere Pedro Araújo, certo de que “esta é uma forma de obter uma projeção que individualmente seria muito difícil de alcançar”.
Todos juntos no Douro
Juntaram-se há 15 anos, para conseguir, em conjunto, aquilo que seria difícil de alcançar individualmente: vender vinho com marca própria, ganhar escala, atingir uma dimensão economicamente viável. Entre os 15 viticultores que aderiram ao projeto há pequenas quintas que produzem menos de 10 mil garrafas de vinho por ano, mas, no conjunto, os Lavradores da Feitoria representam 600 hectares de vinha, uma produção anual de 800 mil garrafas e um volume de negócios de 1,8 milhões de euros.
No balanço do trabalho feito, Olga Martins, administradora delegada, destaca “a matriz única da empresa”, que resulta da união de 15 produtores proprietários de 19 quintas distribuídas ao longo do Douro Vinhateiro, reúne um total de 48 acionistas, entre os quais pontuam nomes como os de António Barreto, sociólogo e antigo ministro da Agricultura, ou Dirk Niepoort, dos Douro Boys e dos Baga Friends, e tem um quadro fixo de 12 funcionários.
Sob uma só marca, uma só adega e uma só equipa de enologia, cada um dos 15 produtores, entre os 40 e os 80 anos, vê a sua parcela ser vinificada de forma independente, é pago de acordo com a qualidade das uvas na entrega, em função de uma prova cega e de três patamares de preço estabelecidos em conjunto em assembleia geral de sócios e que permite triplicar o valor entre uma pipa base e a qualidade extra.
“Trouxemos ao Douro uma alternativa viável, que tem de ser levada a sério, provando que um pequeno produtor, sem capacidade de investir numa marca, pode fazer muito mais do que vinificar as suas uvas para vender a granel ou entregá-las numa cooperativa”, afirma Olga Martins, convicta de que este modelo pode servir a outras regiões vitivinícolas do país.
No portefólio têm uma gama de 18 vinhos, com preços de venda ao público entre 3 e 60 euros, apresentados ao mercado com rótulos da Lavradores da Feitoria, Gadiva, Cheda, Três Bagos, Meruge e Quinta da Costa das Aguaneiras. A esta oferta juntam um vinho de sobremesa de colheita tardia, com uvas vindimadas em dezembro.
Exportam 60% da produção para 24 países, têm no currículo a distinção como uma das melhores empresas do mundo de espírito cooperativo, atribuída em 2006 pela revista norte-americana Wine Spirits, e vão recebendo pedidos de adesão ao grupo de outros produtores. No entanto, como a empresa assina um contrato válido por 10 anos com cada novo produtor a garantir a compra da totalidade das suas uvas, “tem de limitar a abertura a novos sócios, de forma a garantir o crescimento sustentado”, explica Olga Martins. Mesmo assim, está em cima da mesa a possibilidade de vinificar mais duas vinhas a título experimental e até de alargar os horizontes a outras regiões no médio prazo.
Três quintas em família
No Douro, onde se dedica à enologia na Quinta Vale D. Maria, um dos parceiros dos Douro Boys, e trabalha ao lado do marido, Jorge Serôdio Borges, da MOB, na Wine & Soul, a casa dos vinhos Pintas e Guru, Sandra Tavares da Silva viu “no sucesso do projeto Douro Boys um exemplo que podia e devia ser seguido por outros produtores”. Mas foi na zona de Alenquer, onde também está, na Quinta da Chocapalha, na sua família desde 1987, que as conversas à volta da ideia de formar um pequeno grupo para fazer promoção externa e mostrar ao mundo “os vinhos fabulosos da Região de Lisboa foram amadurecendo”, e há três anos levaram à criação da Lisbon Family Vinyards, que junta a Chocapalha, a Quinta de Sant’ana e a Quinta do Monte d’Oiro.
Vizinhas no terreno, num raio de 30 a 50 km a norte de Lisboa, “unidas pela amizade, pela raiz familiar do negócio, pela forma de estar no mundo do vinho”, as três famílias produtoras decidiram aproveitar também as suas diferenças para “mostrar o potencial e a diversidade dos vinhos da Região de Lisboa”. Como? A Quinta da Chocapalha, com uma produção de 150 mil garrafas, trabalha essencialmente com castas nacionais, a Quinta Monte d’Oiro (50 mil garrafas), com castas internacionais, e Sant’ana (50 mil garrafas) está próxima do mar.
A cola que une os três é idêntica à de todos os outros grupos. “A três, cada um de nós tem mais força”, sustenta Sandra Tavares da Silva. No dia a dia das quintas, isto significa que em alguns momentos podem trabalhar isoladamente, até porque têm distribuidores diferentes em cada país e os mercados externos nem sempre se sobrepõem, mas têm cada vez mais iniciativas em grupo.
Realizam provas conjuntas, participam em feiras internacionais com um stand comum, em que cada um apresenta os seus vinhos, partilhando custos, organizam um evento anual, em julho, em Portugal, com palco rotativo, entre as três quintas, em cada edição. O foco está centrado em exclusivo na promoção dos vinhos e a tendência futura “será trabalhar mais em equipa em mercados como os Estados Unidos, por exemplo, e partilhar despesas”. Desta forma, defende Sandra Tavares da Silva, “tudo se torna mais simples”.
Um triplo salto até ao Dão
A marca combina as iniciais dos últimos nomes de Jorge Moreira, Francisco (Xito) Olazabal e Jorge Serôdio Borges, três enólogos que criaram laços de amizade no Douro e decidiram juntar forças num salto a três até ao Dão, para assinarem um vinho em conjunto.
A provar que as histórias e os nomes no mundo dos vinhos estão sempre a cruzar-se, Jorge Moreira, marido de Olga Martins, da Lavradores de Feitoria, é enólogo da Quinta de la Rosa e da Real Companhia Velha, além do seu envolvimento no projeto familiar Poeira e do trabalho ao lado de Sophia Bergqvist nos vinhos Passagem. Francisco Olazabal, da Quinta do Vale Meão, é um dos Douro Boys, e Jorge Serôdio Borges está na Wine & Soul, com Sandra Tavares da Silva, e na Quinta do Passadouro.
Mas, afinal, o que leva três enólogos premiados do Douro a interessarem-se pelo Dão? “Sempre que queríamos um vinho tinto velho, da década de 70 ou 80, acabávamos a beber um Dão, e em 2011 surgiu a oportunidade de arrendarmos a Quinta do Corujão, entre Gouveia e Seia. Era uma hipótese de que já tínhamos falado, por isso agarrámos a oportunidade”, conta Jorge Serôdio Borges.
Entusiasmados pela aventura de fazerem um vinho a três, “com capacidade de guarda e um perfil fresco, diferenciado dos do Douro”, trabalham 15 hectares de vinhas no Dão, com adega própria. Vinificam as uvas, vendem parte a granel e selecionam alguns lotes para produzirem 30 a 40 mil garrafas, que vendem com os rótulos M.O.B (20 euros), Quinta do Corujão (5 euros) e em versões monocasta Jaen e Alfocheiro.
“A recetividade do mercado tem sido boa. Já exportamos 80% do nosso vinho e definimos como objetivo chegar às 100 mil garrafas”, diz Jorge Serôdio Borges. Depois do lançamento do seu primeiro Dão, em 2013, os planos a três ficaram abertos à possibilidade de virem a arrendar mais vinhas por ali. “Acreditamos no potencial da região e sabemos que não está tão explorada como o Douro. As oportunidades podem surgir”, admite o enólogo. Na promoção trabalham em três frentes. Cada um tem a sua empresa e junta ao portefólio as criações comuns. Os principais mercados são os EUA, Bélgica e Portugal.
Rui Duarte Silva
Cantanhede deixa a sua marca
A marca Terroir 2221 explica-se em quatro números: dois produtores, duas castas, dois enólogos e um terroir, a palavra francesa que representa vários fatores, da topografia ao microclima, e ajuda a explicar tudo o que influencia a videira, determinando a qualidade da uva e do vinho.
Neste caso, a marca abarca as Caves de S. João e a Adega Cooperativa de Cantanhede, as castas Baga e Cabernet Sauvignon e os enólogos José Carvalheira e Osvaldo Amado, que se associaram à volta de Cantanhede. O objetivo é “elaborar um vinho único, capaz de expressar o terroir de Cantanhede, mas apenas numa edição limitada, destinada ao segmento médio-alto do mercado “, explica Célia Alves, da direção das Caves de S. João.
Explicar cronologicamente esta ideia envolve, desde logo, vários anos: o projeto nasceu em 2014, foi concretizado em 2015, com lotes da vindima de 2011, e a primeira edição de garrafas numeradas do Terroir 2221 será lançada em 2016.
“Escolhemos a colheita de 2011 porque foi um ano de exceção. Queremos que seja um vinho apenas para anos de qualidade excecional”, afirma Célia Alves. O preço de venda ao público deve rondar os 45 euros, a quantidade a engarrafar no futuro vai depender, em parte, da recetividade desta primeira edição de quatro mil garrafas, e ainda ninguém sabe quando haverá novo engarrafamento. A única certeza, para já, “é que antes da vindima de 2015 não haverá, certamente, outro Terroir 2221, mas o projeto é para continuar”, garantem.
Com um portefólio extenso e vendas de mais de um milhão de euros e 500 mil garrafas de vinho, espumante e aguardente por ano, 30% das quais garantidas no mercado externo, da Europa a Macau, Canadá e Brasil, as Caves de S. João, com sede na Anadia e 37 hectares de vinha própria na Quinta do Poço do Lobo, em Cantanhede, aceitaram o desafio “com naturalidade”, confiantes nas virtudes da ideia que junta as castas Baga, cedida pela adega cooperativa, e Cabernet Sauvignon, da sua produção própria. Depois, dividiram as quatro mil garrafas entre os dois parceiros. Cabe agora a cada um dos produtores comercializar os seus 50% deste vinho feito em conjunto para “valorizar e promover Cantanhede como terroir de vinho”.
Criar uma ilha no Alentejo
A Vidigueira Wine Lands (VWL) nasceu há dois anos, com o patrocínio da autarquia local, assente num consenso à volta da ideia de que este é um terroir bem definido, “uma ilha que produz vinhos brancos com uma frescura diferente no Alentejo”, como explica António Nora, diretor de vinhos da Casa Agrícola Herdade Monte da Ribeira, um dos produtores que aderiu de imediato ao projeto.
Formatada como uma associação de desenvolvimento local, a VWL junta ainda a Adega Cooperativa da Vidigueira, Cuba e Alvito, a Herdade Grande, a Herdade de Lisboa – Paço de Infantes, a Quinta do Quetzal e a Ribafreixo Wines. “Reunimos uma boa parte dos produtores da região e representamos uma área que deve rondar os mil hectares de vinha”, salienta António Nora.
Num concelho que tem no vinho a sua principal alavanca económica, a câmara local entra como sócia honorária no projeto e até já criou um espaço dedicado à venda dos vinhos deste grupo de produtores, sem esquecer a promoção da Vidigueira como destino vínico e gastronómico, para aproveitar o potencial do enoturismo.
Cinco milhões de garrafas
Para uma empresa como a Casa Agrícola Herdade Monte da Ribeira, com uma produção de 500 mil garrafas, 30% das quais destinadas à exportação, em especial para a China, e o objetivo de crescer 5% ao ano no mercado externo, para ter aí metade das suas vendas em 2020, a VWL é, antes de mais, uma “forma eficaz de passar a mensagem de que a Vidigueira tem características singulares e produz vinhos especiais no Alentejo”.
Todos os produtores com vinhas nesta zona de solos xistosos e graníticos têm a ganhar com a promoção do seu terroir e acreditam que o potencial de sucesso é maior se trabalharem em conjunto na divulgação da Vidigueira, dos seus vinhos e de marcas distintivas desta sub-região, como a casta Antão Vaz, quando uma das tendências do mercado aponta para a procura crescente da diferenciação, personalidade e caráter da oferta. É que a marca Alentejo, apesar do reconhecimento nacional e internacional, “não expressa a singularidade de todas as suas sub-regiões”, justificam.
Ainda sem um orçamento anual para poder trabalhar, mas à espera de definir as quotas a pagar por cada um até ao final de 2016, o grupo de seis produtores, com uma produção próxima dos cinco milhões de garrafas, já organizou algumas ações promocionais em Portugal e está a preparar uma participação conjunto no exterior, numa das iniciativas da ViniPortugal, este ano. É um trabalho de grupo que promete ganhar força nos próximos tempos, mas não colide com a promoção individual de cada uma das casas.
DR
Amadurecer a quatro
Tudo começou de forma pragmática, no ano passado, quando Joana Santiago, da Quinta de Santiago, quis participar no Vinho Verde Wine Fest e telefonou a Vasco Magalhães, a trabalhar no projeto Cazas Novas ao lado de Carlos Coutinho e Diogo Lopes, para fazer uma pergunta que era, simultaneamente, um desafio: “Porque não juntar um grupo para partilhar custos?”
Foi assim que nasceu o Vinho Verde Young Projects, com quatro produtores, todos abaixo dos 40 anos e formações várias, da enologia ao marketing ou ao direito, a dar a cara pelos seus Vinhos Verdes.
Com projetos pequenos, entre 10 e 30 mil garrafas, “querer pôr a cabeça de fora e marcar posição no mundo dos vinhos não é fácil nem barato, mas, quando se dividem custos, ganhamos força e ambição”, sublinha Vasco Magalhães, confiante nas “mais-valias” deste grupo de jovens produtores, que têm em comum nas suas histórias pessoais o regresso às origens para criar vinhos de nicho inspirados pelos seus antepassados.
À Quinta de Santiago (Sub-Região de Monção e Melgaço) e Cazas Novas (Quinta de Guimarães, Baião) juntaram-se João Camizão (100igual, Amarante) e Miguel Queimado (Vale dos Ares, Sub-Região de Monção e Melgaço), o que permite ao grupo apresentar uma oferta complementar de três sub-regiões dentro dos Vinhos Verdes.
E como é que as coisas amadureceram a partir do que era para ser um investimento de 400 euros num evento? “Contactámos a Comissão de Viticultura da Região do Vinhos Verdes (CVRVV) para saber se podíamos ir em grupo e percebemos o entusiasmo do outro lado. Disseram-nos que precisavam deste tipo de iniciativas. Estimularam-nos. E nós arranjámos um nome, um logótipo, e avançámos”, diz Vasco Magalhães.
Perceberam que estavam a conseguir uma projeção que seria impossível de alcançar individualmente. “Passámos de zero a ser alguém e tínhamos de aproveitar isso”, justificam. Agora, quando a CVRVV promove visitas à região, passou a incluir estes jovens produtores nos seus roteiros, e eles, paralelamente, vão trabalhando para solidificar a parceria e começam a participar em eventos no exterior. Se a presença numa feira como a Prowein custa cinco mil euros a uma empresa, apesar desse valor poder ser reduzido mediante apoios à internacionalização, a verba torna-se “ainda mais leve” se for repartida por quatro.
Com um orçamento de 10 mil euros para 2016, estiveram, em março, numa ação nos Estados Unidos, um dos seus mercados alvo, a par do Japão. Acreditam que as vendas estão a ser impulsionadas e já preparam o lançamento de um vinho do grupo, em 2016, numa edição limitada de 300 garrafas magnum, onde vão juntar lotes de cada um deles.
Uma aventura irreverente
Em comum têm a juventude, a ligação ao vinho e à terra, alguma irreverência assumida na apresentação coletiva, a partir do próprio nome. “Ser young (jovem) é um defeito de caráter que só o tempo cura. Já ser winemaker (fazer vinho) supõe-se que é o tipo de virtude que melhora com cada vindima, cada trasfega, cada estágio, cada vinho provado”, dizem os Young Winemakers, antes de brincarem com os nomes dos seus vinhos: “Somos seis aventureiros que se cansaram de Vadiar sozinhos e talvez presos por Clips se concentraram num Conceito. O Hobby de cada Winemaker é ser muitas vezes Camaleão, transfigurando-se de viticultor em Enólogo, de Provador em Vendedor, de Viajante em Marketeer, de Rotulador em Cobrador.”
“Temos de estar nos negócios com seriedade, mas podemos sempre ser descontraídos e usar algum sentido de humor no trabalho”, justifica Luís Patrão, um dos seis fundadores deste grupo, em que o destaque é dado aos vinhos de cada um, num portefólio que cobre quase todo o território nacional, com presenças do Douro, Vinhos Verdes, Bairrada, Tejo, Lisboa e Alentejo, a que poderá vir a juntar-se ainda o Dão.
Por empresa, pagam 2500 a 3000 euros por ano para um orçamento comum e passam, assim, a ter acesso, desde 2012, “a algo muito próximo daquilo que seria possível fazer multiplicando essa verba por seis”. Os seis são Rita Ferreira, que faz os vinhos Conceito e Contraste, no Douro, Luís Patrão, que assina o Vadio, da Bairrada, Diogo Campinho e Pedro Pinhão, rostos da marca Hobby, com vinhos do Alentejo e Lisboa, João Cabral de Almeida, criador da marca Camaleão, com rótulos que mudam de cor com o frio, e Pedro Barbosa, produtor do Clip, um Loureiro da Região dos Vinhos Verdes.
Juntos, registaram a marca Young Winemakers, começaram a trabalhar em parceria e perceberam que, para além de diluir custos, conseguem ter “um impacto muito maior” quando se apresentam em grupo. Por isso, depois de uma primeira experiência com um stand comum numa feira internacional, decidiram dar continuidade ao projeto, fomentar a partilha de ideias e a troca de experiências.
Cinco são enólogos. Pedro Barbosa tem formação em agronomia. Já pensaram fazer um vinho assinado por todos, mas, como perceberam que outros tiveram essa ideia antes, acabaram por deixar cair a iniciativa. O mais importante, dizem, é cruzarem esforços em algumas feiras e provas internacionais, apesar de os mercados alvo de cada um não serem obrigatoriamente coincidentes.
Ter dimensões diferentes, entre as 20 mil garrafas do Hobbie e as 200 mil do Conceito, não é um problema. A participação, diz Luís Patrão, “é igual, independentemente da dimensão de cada um de nós, até porque estamos todos no mesmo comprimento de onda”.