Sylvia Earle: “Falamos muito sobre paz, mas a paz mais importante é com a Natureza”

Sylvia Earle, oceanógrafa americana, fotografada para a revista VISÃO (Foto: Marcos Borga)

Sylvia Earle: “Falamos muito sobre paz, mas a paz mais importante é com a Natureza”

Chamar Terra, a este planeta, é a maior ironia da Humanidade. Os oceanos ocupam dois terços da sua superfície. Produzem mais de metade do oxigénio, são o maior reservatório de dióxido de carbono e o maior regulador do clima e da temperatura. Todos os 7,8 mil milhões de habitantes da Terra, quer vivam perto ou longe do mar, dependem diretamente dos oceanos para a sua sobrevivência, mas os oceanos não são água. São vida, e esta está seriamente em perigo.

As alterações climáticas estão a impedir o oceano de se regenerar e continuar a produzir um habitat saudável para as espécies marítimas, ameaçadas também pela pesca excessiva e pela exploração mineral, poluição e o lixo. Sylvia Earle gosta de afirmar que “temos de salvar os oceanos como se a nossa vida dependesse disso, porque… depende mesmo”! E ninguém o procura fazer há mais tempo, com tanta determinação e mais profundamente do que ela. O jornal The New York Times chamou-lhe, inspiradamente, “Her Deepness”, num trocadilho com “Her Highness”. O Congresso norte-americano disse que era uma “Lenda Viva”, mas entre todas as honras e prémios que recebeu prefere destacar a nomeação como “Explorer at Large” pela National Geographic, por ser um palco privilegiado para defender a causa, e ser júri dos Rolex Awards for Enterprise, ajudando outros cientistas e exploradores a cumprir o seu sonho.

Autoridade O jornal The New York Times chamou-lhe “Her Deepness”, um trocadilho com “Her Highness”

Mesmo aos 86 anos parece nunca se cansar ou desesperar. A VISÃO encontrou-se com Sylvia Earle às 8h00 de domingo, no primeiro dia da Conferência dos Oceanos, no início de uma semana assoberbada com incontáveis palestras, fóruns e debates, cocktails ou jantares, durante os quais terá pensado muitas vezes em como preferia estar a somar mais algumas horas às mais de sete mil que já passou debaixo de água. Possivelmente nos Açores, onde foi criado um Hope Spot pela sua ONG Mission Blue, e onde admite que gostava de explorar melhor as profundezas do mar. Mantém-se bem informada, pois quando lhe contámos que a Fundação Rebikoff-Niggeler, baseada na Horta, tinha um submarino capaz de descer a uma profundidade de mil metros, respondeu “sim, mas está na Madeira, agora”.

Portugal é 97% mar. Somos uma nação marítima, mas não temos a certeza de que os portugueses percebam melhor do que outras nações a necessidade de proteger os oceanos.
É fundamental que os portugueses percebam que o oceano é responsável pelo ar que respiramos e por cada gota de água que bebemos. Portugal tem uma relação especial com os oceanos, teve ao longo de toda a sua História, mas mesmo nesta nação marítima há pessoas que nunca viram o oceano, e elas também têm de perceber que tudo aquilo que conta depende, em primeiro lugar, do planeta funcionar a nosso favor. Durante anos, achámos que os oceanos eram tão vastos que era impossível afetá-los, mas hoje temos evidências que estão numa fase crítica, e é melhor cuidarmos deles enquanto ainda há tempo.

Durante anos, achámos que os oceanos eram tão vastos que era impossível afetá-los, mas hoje temos evidências de que estão numa fase crítica, e é melhor cuidarmos deles enquanto ainda há tempo

Qual seria a coisa mais importante que todos podemos fazer para proteger os oceanos?
Temos de mudar a nossa mentalidade. Quando olhamos para a vida selvagem, em terra, pensamos que a temos de proteger, mas quando olhamos para o mar vemos produtos. Começámos a mudar em relação às baleias ou às tartarugas, mas temos de fazer o mesmo para todos os seres vivos. Os camarões ou as lagostas são animais selvagens, como os leões ou os tigres. Os tubarões ou os atuns são os seus equivalentes, grandes predadores que fazem parte da química planetária, do ciclo do carbono e hidrogénio, parte da janela de oportunidade que mantém a terra habitável. Pode soar um pouco nerd, mas é tão básico. Sabemos que as árvores geram oxigénio e capturam o carbono, por isso sabemos que as devemos proteger, mas no mar o plâncton tem vindo a diminuir nos últimos anos, tal como os recifes de corais, as florestas de algas, as pradarias marinhas. E capturam mais dióxido de carbono e produzem mais oxigénio do que todas as florestas terrestres. Eu assisti a tudo isto, sou uma testemunha.

Uma testemunha privilegiada, pois ninguém estuda os oceanos há tanto tempo, nem tão profundamente como a Sylvia…
Literalmente milhares de horas debaixo de água e é por isso que não posso ser apenas uma testemunha, tenho de tentar partilhar o que sei.

Depois de tantos anos a defender os oceanos sem ver as mudanças necessárias, nunca desespera?
Mas as coisas mudam. Vejo cada vez mais países despertos para a importância de proteger a Natureza − como se as nossas vidas dependem disso, porque dependem. Quando decidimos estabelecer 30% de áreas protegidas até 2030, em terra e no mar, não estamos a proteger terra ou água, mas sim a Natureza. Não o fazemos porque é o mais correto, apesar de ser o mais correto, nem porque esses lugares são lindos, mas porque são eles que nos mantêm vivos e, em troca, temos de os manter vivos também.

Sylvia foi pioneira na exploração das profundezas

Mas precisamos de alimentar biliões de pessoas…
Que parte das mais de 100 milhões de toneladas de vida selvagem que tiramos do mar todos os anos é realmente para suprimir uma necessidade? O krill é apanhado na Antártica para fazer óleos para a indústria da beleza e para alimentar produções de galinhas e de porcos. Isto não é uma necessidade. Pior, trata-se de uma atividade recente, que começou nos anos 1980. Os hábitos mudam. Quando era criança, não sabia o que era uma alcachofra, e hoje adoro. Quase ninguém comia sanduíches de atum no mundo, o atum-azul era um peixe que ninguém queria, mas hoje é tão procurado que a população adulta, no Pacífico, está reduzida a 3% do que era há 50 anos. No Atlântico são 10%. Dizem que as pessoas têm de viver e temos de manter a economia a funcionar… OK, já fizemos isso e vejam onde nos levou? Podemos continuar a pescar, apanhamos o último atum, e depois?
As pessoas não vão deixar de comer lagostas, bacalhau e atum, tal como não deixaram de comer mamíferos e aves, mas podemos pelo menos reconhecer que são mais do que uma coisa para ser cozinhada. Os peixes têm caras, personalidade, têm famílias e protegem as crias tão vigorosamente como a maior parte das criaturas que adoramos em terra. Claro que se pode vender peixe para obter lucro, tal como se pode vender um elefante. Mas não é aceitável explorar a vida selvagem, nem em terra nem no mar.

Foi chefe da NOAA, que tinha o pelouro das pescas?
Fui cientista-chefe da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) que, entre outras coisas, tem o pelouro das pescas, e isso significa que financiam o setor das pescas. Toda as agências estatais nos seus países o fazem. Financiam a extração comercial de vida selvagem. Nunca defendi nada em que não acreditasse, mas por vezes foi-me pedido para não intervir, e passado algum tempo tive de me demitir. Imaginem o que as gerações futuras vão dizer de nós se, com todas as informações de que dispomos, não fizermos o que está correto?

A vida é um milagre. As hipóteses de um planeta como o nosso existir são ínfimas, por isso devemos celebrar cada momento e não dar importância às coisas pequenas

Fala dos oceanos com tanta paixão. Lembra-se como tudo começou? Lembra-se do seu primeiro mergulho?
Como podia esquecer? Foi um momento de viragem na minha vida. A sensação de poder respirar dentro de água, descer lá abaixo para ver os peixes, e perceber que eles também estavam a olhar para mim. Percebi imediatamente que aquela seria a minha vida. É irresistível e gostava que toda gente pudesse ter a mesma experiência, embora seja cada vez mais difícil ter as mesmas oportunidades. Nos anos 1950, mesmo até aos anos 1980, era muito mais fácil encontrar lugares não afetados pela atividade humana. Havia muito mais peixes, e muito menos desconfiados do que são hoje. Quando me perguntam qual o meu local preferido para mergulhar, respondo qualquer lugar há 50 anos. Temos mesmo de proteger os poucos paraísos que ainda existem e colocar um travão na atividade humana. Adorava que todos pudessem ter a mesma experiência, que pudessem entrar em pequenos submarinos e ver como não estamos a inventar nada. É tudo real.

Fez todo o seu caminho num mundo que era, principalmente, de homens. Sentiu que era mais difícil para si?
Com o tempo, tornei-me cada vez mais determinada em não permitir que o facto de ser mulher fosse um entrave para fazer o que me sinto impelida a fazer.

Testemunha Aos 86 anos, acompanhou de muito perto toda a imensa deterioração ambiental no mundo. Viu acontecer. E quis fazer a diferença. (Foto: Marcos Borga)

Mas tem noção de que ajudou também as mulheres, e não apenas os oceanos?
Percebo que, enquanto cientista e exploradora, fui um exemplo, mas não é isso que me motiva. Estamos constantemente a ser julgados porque somos altos, baixos, gordos, por questões acessórias na realidade. Nós também usamos isso como desculpa, “não posso fazer isto porque sou demasiado alto ou baixo”, quando devia ser “vou fazer o que quero independentemente de ser muito jovem ou muito velho ou outra coisa qualquer”.

Durante o programa Tektite, eram chamadas de “aquababes”, “aquanauties” [de naughty, malandro], tudo menos Aquanauts, como seria normal.
Há muitos anos, deram-me um conselho: se começares a acreditar naquilo que escrevem sobre ti, tens um problema. Éramos cientistas, estávamos ali para fazer um trabalho, e era nisso que nos tínhamos de focar. Por isso acenávamos, e riamos − porque é muito importante manter um sentido de humor – e seguíamos em frente. A vida é um milagre. As hipóteses de um planeta como o nosso existir são ínfimas, por isso devemos celebrar cada momento e não dar importância às coisas pequenas.

A Sylvia tem sempre um grande sorriso e parece estar bem com a vida…
Eu não me vejo como os outros me vêm. Mas tento. Ainda na semana passada saiu um artigo na revista New Yorker que me chamava de Bond Girl com um PhD. Eu?! Tem piada… Mas se me verem assim os ajuda a ver os oceanos com os meus olhos, como um sítio em que os peixes e a vida selvagem merecem o nosso respeito, então seja, serei uma Bond Girl com um doutoramento. Eu só me vejo como uma cientista, e uma repórter honesta do que observo.

Os peixes têm caras, personalidade, famílias e protegem as crias tão vigorosamente como a maior parte das criaturas que adoramos em terra. Não é aceitável explorar a vida selvagem, nem em terra nem no mar

Em que pensava quando desceu até aos 400 metros de profundidade no fato JIM? Foi a primeira pessoa a fazê-lo – pediu para desligarem as luzes e, de repente, viu um espetáculo incrível de luminescência, com animais a brilharem no escuro em várias cores.
Que sou realmente uma privilegiada por ter a oportunidade de ver mais do que toda a Humanidade na sua História. Passar horas na Twilight Zone muda a nossa perceção das coisas. É aqui que vive a maioria das espécies da Terra. Pensem nisto: a maior parte da vida na Terra vive em escuridão total. Nunca vê o Sol. Nunca. A profundidade média dos oceanos é de quatro quilómetros, mas a partir dos 300 metros está tudo escuro. Para nós é quase impossível imaginar, visto que toda a nossa realidade se baseia neste conceito de dia e noite. É o maior ecossistema do planeta, sobre o qual sabemos tão pouco e, no entanto, estamos totalmente dependentes dele para a nossa existência. Ainda hoje há muita gente que não tem esta perceção, por isso adorava que todos pudessem ter a mesma experiência, que pudessem entrar em pequenos submarinos e ver como não estamos a inventar nada. É tudo real. Quero que as crianças vejam, os CEO, os chefes de Estado, presidentes de câmara, os professores, as mães e os pais, porque nos muda. O oceano não é o que vemos à superfície.

Olhando para estes últimos 50 anos, qual foi a sua maior conquista?
Acho que ainda não percebi. Talvez abrir portas, levar as pessoas a olharem para os oceanos de outra forma. Temos o hábito de conquistar tudo o que é natural, como se isso fosse o objetivo da Humanidade. Chamamos progresso a transformar um pântano num centro comercial, ou domar um rio selvagem com barragens… mostra o nosso poder, sem dúvida, mas o poder de que necessitamos agora é o da contenção. Falamos muito sobre paz, mas a paz mais importante é com a Natureza. Nunca vamos conseguir estar em harmonia entre nós se não houver alimentos suficientes, se não tivermos ar para respirar − e não vamos ter nenhuma dessas coisas se não fizermos as pazes com a Natureza.  Temos de descobrir o nosso lugar, que neste momento não é a destruir, mas a proteger o que permanece e restaurar o que ainda pode ser restaurado.

Quem vai continuar o seu legado? A Mission Blue?
Eu espero que a Mission Blue continue o seu trabalho, identificando e protegendo os locais que merecem ser protegidos – os Hope Spots –, ou porque ainda estão em muito bom estado ou porque são um espaço que pode e merece ser recuperado. Não o fazemos diretamente, mas apoiando as instituições no local e as comunidades e, ao mesmo tempo, criando uma rede de entreajuda entre todos estes lugares.
Por outro lado, toda a minha vida caminhou no sentido de desenvolver tecnologia que me permita explorar o oceano. Afinal, por mais que consiga suster a respiração, não posso mergulhar muito longe, por isso criei uma empresa para a criação e o desenvolvimento de robôs submarinos, a Deep Ocean Exploration and Research (DOER). Hoje já não estou diretamente ligada à sua gestão, porque a minha filha Liz (Taylor) tomou conta do negócio, e tenho um grande prazer em ver como já foi muito mais longe – mais profundo – do que eu. Diria que esse é outro legado.

Prepara-se para embarcar em mais uma expedição científica. Desta vez à Antártica. Qual é o objetivo?
À volta da Antártica é alto-mar, o que que significa que todos os estados são livres para explorar sem quaisquer limitações − e é o que estão a fazer. Como é que isto ainda é possível, com tudo o que sabemos?! 
Em terra, fizemos acordos internacionais para que só se possa fazer investigação e não exista nem presença militar nem exploração económica do continente, mas chegamos ao mar e não há regras. Por que razão é a vida marinha diferente da vida terrestre?

Uma vida cheia

1935. Sylvia Alice Earle nasce em Gibbstown, Nova Jérsia, no dia 30 de agosto.

1953. Realiza o primeiro mergulho. Foi uma das primeiras pessoas a conseguir fazê-lo, utilizando equipamento que era, ainda, experimental.

1955. Termina a licenciatura em Botânica, na Florida State University.

1956. Completa o mestrado na Duke University com uma tese sobre as algas no Golfo do México.

1967. Terminado o doutoramento, torna-se investigadora na Universidade de Harvard e no Instituto Radcliff.

1970. Participa no projeto Tektite II, liderando uma expedição totalmente feminina que passou 15 dias num abrigo subaquático, observando os primeiros efeitos da poluição marítima.

1979. Quebra um recorde mundial de profundidade ao descer e caminhar no fundo do leito marinho a uma profundidade de 381 metros. Para tal utilizou um fato JIM, um aparelho de mergulho capaz de manter uma pressão normal no interior. 

1982. Funda a Deep Ocean Engineering e Deep Ocean Technology com o engenheiro britânico Graham Hawkes (que se tornaria o seu terceiro marido). Juntos desenharam o submersível Deep Rover, capaz de chegar aos mil metros de profundidade.

1990. Torna-se cientista-chefe na NOAA, cargo que ocupou até 1992.

1992. Funda a DOER Marine, que desenha e constrói diversos robôs submarinos.

1998. Torna-se a primeira mulher nomeada Exploradora Residente pela National Geographic. 

2009. Funda a Mission Blue, com o objetivo de identificar e salvaguardar os Hope Spots no oceano.

Oceano de Esperança é um projeto da VISÃO em parceria com a Rolex, no âmbito da sua iniciativa Perpetual Planet, para dar voz a pessoas e a organizações extraordinárias que trabalham para construir um planeta e um futuro mais sustentáveis. Saiba mais sobre esta missão comum.

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