Considerado uma das vozes mais marcantes da literatura britânica contemporânea, Geoff Dyer passou por Lisboa para participar no festival literário 5L. O autor britânico veio apresentar Trabalho de Casa, um livro de memórias sobre a sua infância e a sua adolescência, antes de entrar na Universidade de Oxford. Descendente da classe operária, Dyer oferece-nos uma obra que é o começo de uma vida dedicada à escrita.
Comodamente sentado numa sala da Biblioteca Palácio Galveias, Geoff Dyer falou-nos da necessidade de escrever um livro sobre as suas memórias, sobretudo das duas primeiras décadas de vida, a base daquilo que define como a sua matéria enquanto pessoa. Escritas até à entrada em Oxford, momento em que toma consciência da realidade das classes sociais tão intrinsecamente britânicas, Dyer conta-nos a descoberta da literatura através da música. A ausência de livros em casa foi para ele um dos maiores privilégios porque lhe permitiu descobrir o espanto da literatura, incentivado por um professor de Inglês que colocou os alunos a ler autores contemporâneos, além dos habituais clássicos dados na escola. Num ambiente pós-Grande Depressão e II Guerra Mundial, Geoff Dyer acabaria por encontrar desta forma o seu improvável destino, afastado da vontade da família, que desejava para o seu único filho uma vida dedicada ao serviço público. Como forma de apreender o mundo, e enquanto escritor, a Dyer interessa-lhe ainda hoje essa capacidade que a literatura permite ao autor e ao leitor: a da perceção sobre o que se passa ao nosso redor.
Queria começar por perguntar sobre a sua mãe, porque a presença dela não é tão forte como a do pai, mas no capítulo final entramos na história desta mulher de uma forma muito direta. Houve uma tentativa de a proteger, como ela fazia com a sua marca de nascença?
De certa forma, ela tinha uma presença modesta. Mesmo nos encontros de família, eventualmente ela acabava por desaparecer para a cozinha. Era como se, dentro do nosso próprio mundo, ela fosse mais feliz por ser uma cuidadora. Mas eu sabia que acabaria por escrever sobre a sua marca de nascença e a forma como a influenciou, no final do livro.

Para quem cresceu nos anos 70 ou 80, todo o universo Geoff Dyer é perfeitamente identificável. Os brinquedos, as coleções, os canais de televisão reduzidos a dois, as bicicletas, as viagens infindáveis de carro e a Natureza constantemente presente. Num ambiente britânico pós-II Guerra Mundial e antes de Margaret Thatcher chegar ao poder, viviam-se dias tranquilos, sobretudo para quem pertencia à chamada classe trabalhadora. A saúde e a educação eram para todos, havia trabalho e ninguém se imiscuía nos sentimentos nem na vida dos outros. A par com esse equilíbrio comunitário, a música e a descoberta da literatura, e a intransigente ética moral da sua família, contribuem para formar um jovem adulto que chega a Oxford com um contexto social, económico e cultural que se distinguia dos habituais estudantes. Ao longo das quase duas décadas que o autor descreve no livro, vemos como se forma o homem e potencial escritor. Os laços familiares, a lealdade entre os amigos, a ligação com o pai, que lhe traz a perspetiva do orgulho e da honestidade; e a mãe, uma mulher modesta, que tentava passar despercebida e para quem era essencial a discrição, mas que traz o lado emocional para Dyer. Trabalho de Casa é um diário íntimo coletivo de uma geração que se formou numa época em que todos os sonhos eram analógicos e todas as experiências conjuntas, mesmo que fôssemos filhos únicos. Quetzal Editores
Quando ela está muito presente.
Foi uma decisão consciente. Ao longo do livro, vou escrevendo sobre o meu pai, a sua relação com o dinheiro, enquanto, no caso da minha mãe, quase tudo é explicado naquele epílogo.
Mas há uma perspetiva sobre ela nesses momentos familiares, quando vamos descobrindo a sua história: a mãe que morre, o pai que volta a casar-se, as irmãs do primeiro e do segundo casamentos do pai. Inclusive ficamos a saber do seu sonho de ser costureira.
Sim, há algumas referências ao longo do livro.
Porque é que acha que ela nunca se tornou costureira?
Eu acho que não é tanto o que ela queria ser, mas o facto de afirmar que gostaria de ser. Era a sua forma de aceitar tudo o que não podia ser ou ter. Embora ela tivesse toda a deferência das outras pessoas, considerando o seu passado e o seu contexto, não havia razão nenhuma para não alcançar este objetivo, que era bastante simples. Isso também demonstra como ela, desde cedo, se considerava inferior. Neste caso, o trauma que carregou desde o nascimento – a morte da mãe – afetou muito a sua autoestima.
E mesmo a ligação muito forte com as irmãs nunca a ajudou a ultrapassar esse trauma.
Hoje em dia, fala-se muito de traumas de infância, mas naquela altura não era algo de que se falasse. O nascimento da minha mãe é traumático, assim como tudo o que estivesse relacionado com isso. Ao longo do livro, e sobretudo no final, tento explicar porque é que ela tinha essa característica de autodepreciação muito forte. Era muito modesta.
Há um episódio muito bonito com a sua mãe, quando regressa de Oxford e vai ter com ela à cantina da escola, em que se abraçam e começam a chorar. E é muito surpreendente porque não há muita demonstração de afeto ao longo do livro.
Eu tinha acabado de regressar de Oxford e, inicialmente, antes de ir, achava que era só passar a uma série de exames. Mas, nessa altura, percebemos que é muito mais do que simplesmente fazer os exames e passar. Há esta coisa também que se chama educação. E na altura em que eu vou para Oxford é que começo a perceber que há uma espécie de buraco social tão profundo que toda a nossa forma de ser e viver acabará afetada. Nesse momento, nós percebemos que eu estava a tornar-me uma pessoa que era mais do que simplesmente um filho. É claro que havia este privilégio de ter acesso a um sistema de educação pública gratuita, mas também tínhamos consciência de que isso implicava alguma perda. O meu contexto familiar era muito tranquilo, não havia violência – à parte daquela que se passava na escola –, havia muito pouco álcool, era um ambiente familiar muito calmo. E, ao contrário do que acontece nos Estados Unidos da América [Geoff Dyer viveu em Los Angeles durante dez anos], em que as pessoas falam de ter crescido na pobreza, nós fazíamos parte da classe trabalhadora, não éramos pobres. Vivíamos num ambiente em que os contextos familiares e sociais estavam cheios de artesãos, pessoas com várias habilidades manuais. E eu não tinha a consciência de onde vinha e do que era até ter entrado num ambiente mais alargado, como o de Oxford.
Acha que se tivesse crescido num ambiente mais privilegiado não teria descoberto a literatura e se tornado escritor?
O que eu sinto fortemente − e sinto-o mais desde que li os ensaios de Larry McMurtry − é que não há maior privilégio do que vir de uma família que não tem livros. A minha mulher leu Grandes Esperanças [Charles Dickens] praticamente desde que nasceu, mas a minha descoberta da literatura, tendo crescido numa família que não lia, é um enorme privilégio. Larry McMurtry tinha sido educado para ser rancheiro, e um tio deixou-lhe uma caixa com livros aos 12 anos, o que criou nele uma intensa relação com a literatura. Certamente que teria sido diferente, mas, ao mesmo tempo, a minha experiência é bastante comum no meu país, mas também a nível internacional: um miúdo de famílias operárias, sem livros em casa, que, sob a influência de um professor, descobre a literatura. Albert Camus escreveu sobre isso. O interessante é que se falarmos uns com os outros, em países diferentes, descobrimos que esta é uma história bastante comum. Mas ainda que haja algum apelo, ele não funciona se não estivermos atentos aos mais ínfimos detalhes. E depois todas as histórias têm a sua particularidade.
Leio muitas autoras agora, mas se me perguntassem há 20 anos, só indicaria homens e não tA minha experiência é bastante comum no meu país, mas também a nível internacional: um miúdo de famílias operárias, sem livros em casa, que, sob a influência de um professor, descobre a literatura
Uma das suas referências literárias é Shakespeare. O autor aparece em vários momentos do livro, e no início do terceiro capítulo, Jerusalém, surge um excerto do King Lear, para assinalar essa diferença, após o regresso de Oxford. Sentia-se diferente?
Foi uma mudança gradual e por cada ano que passei em Oxford a mudança foi surgindo. O meu sotaque alterou-se, tornei-me uma pessoa diferente.
Mas era uma mudança consciente ou foi-se dando conta porque os outros reparavam?
Eu tinha essa consciência, mas aconteceu uma coisa curiosa: os meus pais sempre falavam do facto de eu ter entrado em Oxford e esperavam que, depois da universidade, eu seguisse uma vida comum de classe média, sem saber muito bem o que isso significava. O meu pai pensava que seria um emprego na função pública. O que aconteceu – e eu adorei a vida de estudante, de estar constantemente a ler – foi que acabei a viver com subsídio de desemprego [dole] num bairro degradado em Brixton. E quando a nossa família perguntava aos meus pais “como é que está o Geoff?”, eles já não tinham muita vontade de falar. Para o meu pai era motivo de orgulho nunca ter dependido de subsídios, mas, na minha geração, sobretudo nos primeiros anos Thatcher, a dependência desses apoios era comum entre o grupo de artistas, escritores. Para os meus pais era muito confuso porque eu fazia parte da classe dos “desrespeitados”, ao contrário daquilo que eles eram. Mas essa era também a maior prova de que eu passara a ser da classe média [Risos].
Há um momento, após a morte da sua mãe, que vai até ao jardim e começa a descrever aquilo que está à volta, as árvores, as nuvens, a vista, e faz referência ao “mundo apreendido”. Há esse olhar sobre as coisas mais comuns?
É isso que a escrita tenta fazer. E idealmente é o que o escritor procura. Eu nunca tive muito interesse por livros que descrevem coisas extraordinárias. E, mesmo quando o fazem, há uma procura dos detalhes, da qualidade da perceção. Fala-se muito do estilo na escrita, mas eu prefiro a perceção da escrita. Há um duplo sentido na palavra “apreendido”: por um lado, temos o que os sentidos apreendem, mas, nessa cena, há também o sentido do que é retido [apprehended em inglês tem dois significados, o que os sentidos apreendem e o que é detido]. Aldous Huxley refere-se a esta apreensão quando fala sobre o LSD e a forma como absorvemos o que vemos, porque este alucinógeno permite-nos eliminar os filtros que vamos criando e dessa forma podemos “apreender o mundo como se fôssemos Adão e Eva no dia da criação”. É isso que tentamos fazer quando escrevemos: tornar o mundo visível em todo o seu espanto.
Há outro momento no jardim, quando regressa com a sua mulher e avistam três veados, e refere que esperava sentir-se como uma criança, mas não se sente assim.
Acho que é importante não nos rendermos aos clichés. A ideia de voltar a sentir-me como uma criança teria sido o mais simples. Mas tenho de ser honesto e não foi isso que aconteceu. O mais marcante nessa cena foi que, ao descrevê-la como eu o fiz, procurei interpretar o cliché de forma livre. Muito do que está no livro é sobre esta coisa estranha de já não ser aquele miúdo, mas ser a mesma pessoa. É essa coisa extraordinária de não termos consciência do minuto em que deixamos de ser uma coisa e passamos a ser outra. Em algum momento, alguma coisa mudou [Risos].
Afonso Cruz escreveu um livro sobre memória e dizia que a memória dos nossos primeiros anos pertence aos nossos pais e quando eles desaparecem, essas memórias desaparecem.
Nunca tinha pensado nisso. Os meus pais contavam-me episódios de quando eu era muito pequeno, mas, neste livro, eu queria escrever a partir do momento em que tenho essa autoconsciência da minha pessoa.
Afirmou que uma das razões por que começou a ler era para fugir do tédio e da solidão, mas, ao mesmo tempo, isso acabou por afastá-lo mais dos seus pais. A leitura era um escape para a solidão, mas também uma forma de acentuar essa solidão.
Absolutamente, o que é que posso dizer além de que está certa? [Risos] A outra coisa é que eu tinha passado a fase dos brinquedos. Quando o meu editor americano leu o livro, sugeriu-me tirar parte do início do livro, porque havia muitas referências a brinquedos. “Queremos menos brinquedos e mais sobre as relações humanas”, disse-me. Mas quando se é filho único, as nossas relações são com os nossos brinquedos. E, quando comecei a ler, os livros eram equivalentes aos brinquedos. E a minha vida interior foi-se alterando.
Além dos brinquedos, era um ávido colecionador…
Eram tempos em que se colecionavam coisas. E também era uma época em que uma coleção podia ser finalizada e o objetivo era esse, de certa forma, de ser uma coisa alcançável. Enquanto agora esse propósito não existe, porque tudo está facilmente disponível. Naquela altura tínhamos de procurar e fazer trocas. Nós pegamos no nosso telemóvel e queremos ouvir uma certa música e ouvimos. A cultura era muito mais homogénea, também. Na altura, tínhamos dois canais de televisão e acabávamos a ver as mesmas coisas entre nós. A vida era coesa de certa forma.
E quando se comprava um disco, todos se juntavam para ouvir, ler as letras. Havia uma espécie de comunidade à volta da música, agora parece ser um ato mais solitário.
Sim, tudo está disponível perto de nós, no telemóvel, no computador. Acabamos por estar mais solitários.
Há uma frase sobre o sotaque de Gloucestershire em que diz: “Para mim, será sempre a melodia e a expressão da própria bondade.” Porque era o sotaque da sua família?
O meu ambiente familiar e de comunidade era muito calmo, e muito cooperante, e a paramédica [personagem sobre a qual Dyer refere o sotaque] tinha exatamente o mesmo sotaque da minha família. A forma como ela falou comigo foi tão incrivelmente gentil… e a maneira como o disse também. Era um ambiente de comunidade muito tranquilo e muito simples. Em termos sociais, não era sofisticado e havia um conjunto de princípios morais muito presente. Éramos muito terra-a-terra, e muito centrados na família. Quando me lembro de pessoas como Boris Johnson [ex-primeiro-ministro britânico], penso nos valores morais que a sua família lhe terá transmitido e comparo-os com o ambiente em que cresci, em que os meus pais diziam: “Se disseres a verdade, vais ficar bem.” É incrível que algo como isso se tenha perdido. Tenho profunda admiração por essa fundação de valores éticos e morais em que cresci.
Acha que era uma característica dessa classe, que beneficiava de uma série de vantagens, como o NHS [equivalente ao SNS], escolas públicas gratuitas, e que as valorizava?
Acho que sim, e mostra o que correu mal nos Estados Unidos da América. A insatisfação das pessoas que se revoltam votando no Trump, por exemplo. Os meus pais pagavam impostos e tinham os benefícios disso e a descendência daquela geração usufrui ainda mais desses benefícios, seguramente.
De certa forma, crescer era mais tranquilo e seguro.
A sociedade era mais equilibrada e o Estado não representava algo que tivéssemos de temer. Eram tempos em que as perspetivas de prosperidade eram reais. As coisas começaram a mudar no meu primeiro ou segundo ano de Oxford, quando Margaret Thatcher foi eleita. Mas até esse período foram décadas muito estáveis.
Porque é que decidiu terminar esta história com a entrada em Oxford?
Porque representava o fim daquela era, daquela infância, daquela adolescência. Era o fim daquela vida. Tudo até àquele momento foi o que me formou enquanto pessoa. Eu queria chamar a este livro não uma memória, mas um prelúdio que me leva ao crescimento. Tudo o que acontece até esse momento é um prelúdio. A partir daí, todas as influências em mim são diversas, não apenas familiares, mas as da comunidade onde cresci.
Voltando à literatura, houve algum autor ou livro que o tivesse marcado nessa altura? Quando pensou em tornar-se escritor, houve alguma influência em particular?
Foi um progresso natural. Quando se começa a ler, há um momento em que começamos a desejar fazê-lo também. Descobrir William Shakespeare foi incrível, uma revelação, e depois comecei a ler D. H. Lawrence, mas aquilo que o meu professor de Inglês fez de diferente foi dar-nos a conhecer autores contemporâneos, os norte-americanos, como Kerouac ou J. D. Salinger. E a linha entre aquilo que líamos na escola e o que líamos por puro divertimento e por gosto foi-se dissolvendo. O que também nos mostrava que a literatura não era uma forma de arte distante, mas antes constante e próxima. E quando se percebe isso, percebe-se também que a loja está sempre aberta e que nós também podemos estar nela. Tudo foi acontecendo de forma gradual.
Muitos escritores afirmam que queriam ler as histórias que não tinham lido.
Não foi o meu caso. A escrita, além de ser aquilo a que eu aspirava, era também o que me restava quando tudo o resto tinha falhado. Eu não sabia o que significava trabalhar em publicidade, mas candidatei-me a muitas entrevistas para publicidade. E duas coisas poderiam ter acontecido: acabar a trabalhar em publicidade ou, ao fim de seis semanas, ser despedido porque não tinha perfil para ser publicitário. Houve outras coisas que eu desejei ser, antes de perceber que escrever era a minha única saída. A primeira coisa que escrevi foram críticas literárias, o que veio diretamente da minha paixão pela leitura.
Quando lhe perguntaram sobre os seus autores preferidos, mencionou Elizabeth Taylor…
Sim, é impressionante, porque ela [novelista inglesa 1912-1975] tem uma obra incrível, com mais de 12 livros publicados e uma coletânea de histórias, e é uma escritora fantástica.
Acha que a leitura de autoras femininas mudou a sua perspetiva do mundo em geral?
Totalmente. Leio muitas autoras agora, mas se me perguntassem há 20 anos, só indicaria homens e não teria essa noção de que estava a exibir sinais de patriarcado. Obviamente que era uma influência dos tempos em que vivia. Por isso, agora tenho estado muito mais atento às autoras femininas e a nossa perspetiva muda com essa leitura.
A música teve também um papel muito importante no seu crescimento, sobretudo nos anos 60 e 70, com a proliferação de tantos músicos e bandas britânicos. A música ainda faz parte da sua vida, com a mesma intensidade?
Sim, e estes são excelentes tempos para se ouvir música. Há menos dinheiro para os músicos mais interessantes e, por isso, o impulso comercial é menor e o tipo de música de que gosto agora é muito experimental, de improvisação, e é fantástico. Recentemente, eu e a minha mulher fomos a Liubliana para ver uma banda australiana, The Necks, eles já estão juntos há 35 anos e são muito bons. Há muitas bandas assim, com um interesse comercial mais limitado e que criam coisas incríveis.
Escreve com música?
Não, nunca.
Em total silêncio?
Sim, porque eu gosto de ouvir música com atenção. Tenho um amigo que trabalha ao som de música indiana clássica, o que, para mim, seria inconcebível, porque para a escutar com atenção precisaria de entrar num transe total.
No livro refere os nomes que as pessoas tinham quando comparados com os nomes registados. Nunca perguntou porquê?
Não, porque se assumia que aquele era o normal. Qualquer que seja o mundo em que crescemos, nós assumimo-lo como o normal. E o mais engraçado era que, às vezes, as pessoas tinham nomes glamorosos, como Phyllis, a minha mãe, que depois era conhecida por Mary. O meu pai era Arthur e todos o tratavam por Jack.
Há um momento em que fala dos rapazes que cresceram consigo, e um deles acaba por se suicidar anos depois. Mas não se falava de traumas nem de problemas.
Ele era um bully. Mas ninguém falava desses problemas na altura, ou do facto de alguém que era um bully poder ser também vítima de violência… Não havia o hábito de se falar dos problemas dos outros, dos problemas familiares, e a única coisa que sabíamos era que ele tinha uma mãe francesa e aquilo que se dizia era que provavelmente a mãe era prostituta.
Há um episódio na sua juventude em que os rapazes andam a correr por cima dos carros e o Geoff é o único que é apanhado e acaba preso e julgado.
Sim, se ao menos eu tivesse ficado em casa nessa noite…
Mas não teria a história para contar.
Sim, verdade. E a literatura é isso: tudo o que nos acontece pode ser transformado numa vantagem. Mas foi uma sorte que nenhum mal nem trauma tivesse saído dessa experiência.