Quando o Stranger Things estreou, há 10 anos, começou como começam quase todas as boas histórias: por nos devolver aos anos 80. Estou a mentir. Começou com uma criança a desaparecer. E eu fui apanhado pela alquimia dos Duffer Brothers que misturavam The Explorers e Siouxsie and the Banshees, Carrie e Modern English ou Stand By Me e Psychedelich Furs. Poderia passar a tarde a enumerar referências. E seria uma grande tarde. Para quem cresceu naquela década, aquilo foi um pequeno milagre. Nostalgia em estado sólido. Como se fosse possível reviver os anos 80 sem os repetir.
Mas o que era uma aventura de amigos assombrada pelo inexplicável tornou-se outra coisa. A impressão que dá é que, às tantas, o critério mudou. O processo de escrita deixou de confiar na história e passou a responder outro tipo de exigências.
Por volta da terceira temporada, a narrativa deixou de confiar em si mesma. As personagens passaram a justificar-se. Deixaram de servir a história para servir a razão de estarem no mundo. Foi aí que se abriu outra fenda. O mundo de fora entrou na série. Num conto sobre dimensões paralelas, isto é fatal. Chama-se Outside In: ao Upside Down e ao Right Side Up juntámo-nos nós.
Ora, aquilo que trazemos connosco raramente melhora uma história.
Quando uma personagem deixa de existir para sofrer, escolher e errar, e passa a existir para representar uma causa, uma boa intenção, uma preocupação, seja ela qual for, deixa de ser personagem. Transforma-se num cartaz numa rotunda. O problema não é haver adolescentes confusos (os adolescentes são confusos). O problema é transformar isso num certificado de virtude. Como se a dúvida tivesse passado a ser uma espécie de redenção instantânea.
E eis que regressa o desaparecido. Will Byers: o mais sensível, o mais deslocado, o mais ligado ao invisível. Aquilo que durante as primeiras temporadas existia como um silêncio eloquente transforma-se, a certa altura, no eixo interpretativo total da personagem. A sua afectividade deixa de ser uma dimensão entre outras e passa a explicar tudo retroactivamente, enquanto dispositivo narrativo. O ponto é simples: o drama deixa de ser vivido a partir do território verdadeiramente misterioso da infância e da adolescência, para ser resolvido num arco de molde pré-fabricado.
Mas a tal fenda que o Outside abriu no vidro da televisão também permitiu que passassem coisas para o lado de cá. Monstros. Ou melhor, fantasmas.
O terror de Stranger Things é daquele tipo muito americano que não sabe o que é sugestão. Funciona mostrando corpos torcidos, ossos partidos, olhos sugados, sangue, desespero pânico. Tudo aquilo que, em tempos, não se permitiria que uma criança visse. Mas, por algum sortilégio, tornou-se numa moda da miudagem. Os meus filhos mais velhos chegam a casa e contam que no pátio da escola, o vilão Vecna é uma espécie de novo Ninjago. Se já se esqueceram, o bom Chesterton não: as crianças compreendem dragões; não compreendem é a ironia dos crescidos. Se o horror da série é demasiado pesado para elas (é demasiado pesado muito bom homem de barba feita, bolas), a pedagogia do nosso Outside é demasiado leve para os adultos.
Antigamente — esse tempo odioso de que ninguém gosta mas de que todos beneficiámos — havia uma figura fundamental que dizia: “ainda não”. Por prudência, uma das formas mais inteiras de amar. Hoje, o adulto diz outra coisa qualquer. Talvez “faça favor de entrar”. Como se o medo não educasse.
Há coisas que uma criança não deve ver porque ainda não tem palavras para lhes dar forma. E o que não recebe forma insiste em regressar durante a noite.
Não se trata de maldade do adulto. Trata-se de esquecimento. Faz parte de ser crescido desaprender a ser criança. O adulto sabe que foi pequeno, mas não sabe ser pequeno, por isso não consegue compreender a infância no outro. Não totalmente. Dá-se então aquele caso bicudo de, ao tentar revivê-la na perversidade da nostalgia, confundir tudo. E, Peter Pan de cerveja na mão e Brufen no bolso, seguir voando com os seus filhos para uma versão sombria da Terra do Nunca.
Também cresci com o Spielberg, o Stephen King e o Carpenter. E ainda fui a tempo de apanhar os Clash e a Kate Bush a passar na telefonia. Mas nem tudo o que nos desperta ternura retrospectiva é automaticamente apropriado para as nossas crianças, nem sequer como legado. Pelo menos não por enquanto. Importa este detalhe: termos vivido as histórias no tempo certo, mediadas, espaçadas quase sempre pelo atraso das estreias em solo nacional. Não engolimos o Pesadelo em Elm Street em maratonas descontroladas. E os nossos Goonies — perigosos e aventureiros — viviam num mundo com uma fronteira clara entre a infância e o horror.
Querem partilhar a vossa infância com os vossos miúdos? Andem de skate juntos, vão à pesca, ou então sintonizem na RTP Memória.
O paradoxo é cruel. Stranger Things, uma série obcecada com a destruição da inocência, com adultos que falham, com experiências feitas em crianças. E nós, actualizadíssimos da silva, repetindo o gesto.
Eu queria ter gostado da série até ao fim. Só que lá para dentro entraram os equívocos dos nossos dias e, directamente da versão de Hawkins congelada no Upside Down, saíram monstros transformados em brinquedos do Happy Meal.
Há um certo génio nisto. Mas não tem infância.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
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