É quando um problema começa a produzir as suas piores consequências que nos ocorre, tarde e a más horas, procurar uma solução. Às vezes nem isso. Como quando acordamos de noite com a boca seca e vamos à cozinha à procura de um copo de água. Nem sumo, nem vinho, nem vodka, mas água: simples, inequívoca. A resposta certa para a sede. Tudo o resto são engenharias para adiar o inevitável.
As eleições presidenciais portuguesas funcionam hoje assim. São uma resposta que não responde. Uma vodka institucional servida de quatro em quatro anos, incapaz de resolver aquilo que finge tratar: a necessidade elementar de qualquer comunidade política se ver representada.
Há quem retire prazer do espectáculo: debates, sondagens, a noite eleitoral como se de uma final olímpica se tratasse. Também há quem se divirta a ver acidentes. Ou a Eurovisão. O problema não é o entretenimento; é a indiferença moral que o sustenta. No Portugal dos anos 80, votar era uma festa porque ainda havia espanto. Hoje é um frete. Um desfile de figuras a disputar tempo de antena. Não é por acaso que a metáfora circense regressa sempre nestas alturas.
Basta lembrar o debate presidencial de terça-feira. Manuel João Vieira no papel do palhaço pobre, libertando a burguesia urbana do incómodo de escolher entre vinte tonalidades da mesma esquerda; Ventura, prestidigitador profissional do ressentimento; Gouveia e Melo a ensaiar poses de estátua, imóvel e solene, equilibrado sobre o nada. Ao centro, Carlos Daniel reduzido à condição de domador de feras subnutridas. Havia personagens e havia truques. Faltava apenas o essencial: a sensação de que alguém estava ali para representar mais do que a si próprio.
Sabemos, por instinto, que isto não chega. Que é preciso haver alguém. Um agente. Um procurador. Alguém que, em nome do “nós”, esteja diante dos outros. Um “nós” feito dos que estão vivos, dos que estão mortos e dos que ainda estão para vir. Exactamente onde todo o acto político devia começar. Na obrigação para com quem não pode responder.
Antigamente isso resolvia-se de forma simples. Havia um Rei. Morria o Rei, vinha o filho. Como antes dele viera o pai. Assunto encerrado. Não porque os reis fossem virtuosos por definição, mas porque a ideia de legitimidade traz consigo uma força que nenhuma eleição para Presidente da República consegue reproduzir.
Qualquer criança percebe isto sem esforço. Porque é na infância que se formam as intuições mais duradouras sobre autoridade, pertença e ordem. A identificação monárquica nasce desse lugar primeiro onde se brincava aos reis, às espadas, às coroas. Quando o mundo ainda tinha hierarquias compreensíveis.
Talvez por isso não se estranhe o Rei dos Frangos, nem o Rei do Golo ou o Rei da Praia. Aceita-se sem esforço a Rainha do Gelo, da Noite ou das Abelhas. Mas há sempre uma ligeira hesitação perante a palavra “President” impressa no rótulo de um queijo no supermercado. Como se, ao comprá-lo, cometêssemos uma traição mínima — mas efectiva — à criança que um dia fomos.
Exagero? Dir-se-á que isto é ingénuo. Talvez. Mas convém lembrar que o que parece apenas estético é, na verdade, ético: a forma não comunica a substância; é já a própria substância. A autoridade começa sempre pelo modo como se apresenta.
Nesse sentido, a monarquia é daquelas coisas que não deveria ter de ser explicada, uma vez que educa pelo olhar antes de educar pelos argumentos. Não é preciso um libreto para perceber quem manda. Vê-se a coroa e reconhece-se a distância. Na monarquia, retirar a forma é destruir a coisa. Na nossa República actual, mudar a forma é apenas redecorar o vazio.
A modernidade ensinou-nos a desconfiar do visível e a chamar “teatro” a tudo o que não é técnico. Mas essa desconfiança, ao contrário do que se possa imaginar, não tem nada de maturidade. É, antes, uma espécie de analfabetismo simbólico.
É por isso que hoje é tão difícil falar do tema. Para quem considera evidente que um rei seria preferível ao “reizinho” — a expressão é do Miguel Esteves Cardoso — que esta República nos oferece, o argumento parece tão óbvio que se supõe partilhado. Não é. O vocabulário desapareceu. Evaporou-se do espaço público. Pior — e é isto que vos quero dizer: a causa real, em Portugal, não é sequer controversa: é impronunciável.
Percebi-o com clareza quando aceitei, imprudentemente, ir a um podcast como “o monárquico”. O resultado foi uma longa e involuntária rábula do Tal Canal: perguntas que eu achava ultrapassadas, respostas que soavam curtas, silêncios incómodos; embaraço geral, e aquele ar de quem está na sala errada à hora errada. O problema não foi discordarmos. Pelo contrário: o entrevistador era um desses raros exemplos de alguém disposto a aceitar um bom argumento. O problema era falarmos línguas diferentes. E nenhuma delas era a do debate público contemporâneo — até porque, sobre o assunto, não existe debate público contemporâneo.
Já se sabe que o que temos não serve e precisamos de um Rei. Mas, enquanto não existir um povo disponível para ser reinado, é preciso outra coisa, ainda mais básica: falar do assunto. Caso contrário, manter-se-á este desconforto doméstico, próprio de um país que trata certas ideias como as famílias tratam os segredos. Não se discutem, nem se enfrentam, finge-se que não existem. Às vezes isso pode ser sinal de uma certa sabedoria. Neste caso é a questão.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
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