Não há “Coração na Rua” que fique indiferente a esta expressão, acredito que ninguém fique depois de ler esta crónica. Só peço 5 minutos da vossa atenção, porque há quem se questione “Mato ou Morro”?
Não basta colocar o Coração na Rua, os amigos da rua estão presentes e batalham todos os dias. Somos apenas grupos de voluntários que anda pelas ruas do Porto a apoiar quem nada ou pouco tem. Achamos que só todos juntos, unindo experiências e partilhando informações, é que podemos fazer algo melhor e mais rápido. Mas, até agora, essa união de esforços parece não resultar para o Domingos.
Por favor, leiam. Chamem os amigos, passem a palavra, pesquisem nas nossas páginas, abram o vosso coração e ajudem o Domingos a ter o mundo diferente que merece. Por vezes, por mais que se escreva, que se grite alto ou em silêncio, nada parece resultar. Esta é a minha conclusão.
Por onde deveremos ir? Que mais há para fazer, ou melhor, o que se pode fazer? Neste momento parece que ninguém tem respostas. E-mails enviados e partilhados em todas as páginas, anónimos revoltados contra o que sabem e o que conseguem ver, dia após dia.
Digam-nos, que mais fazemos? Deixamos o Domingos morrer numa tenda montada na avenida ou no jardim? Mas alguém sabe quem é o Domingos? Claro que não! Nunca entrou num reality show. Mesmo que diga palavrões, não aparece a rodinha vermelha no canto de qualquer televisão. Mesmo que se dispa em público, não há câmaras a filmar 24 horas por dia! Ai se houvesse… que bom seria! Veriam o Domingos a falar sozinho ou com os seus amigos imaginários. Mostrariam o Domingos em momentos de grande descontrolo a agredir quem passa. Veriam o Domingos a chorar em momentos de solidão, a cair sem forças no meio da rua.
Que mais veriam? Um ser humano que já não sabe o que deve ou não fazer, que tem picos de consciência e alterações a todos os níveis, que precisa de ajuda! Sejam bem vindos à tenda do Domingos, onde o cheiro afasta muitos que não estão preparados, onde os cobertores estão molhados da chuva e de urina, onde a “sapataria” está montada e o “guarda-vestidos” sujo e com camadas de roupa encharcada. Este é o mundo do Domingos, que ninguém merece.
Entrem no mundo do Domingos e juntem-se a nós, porque as respostas até agora recebidas não nos servem de consolo. Mas interessa ou conforta alguém ouvir que o Valdemar, a Ana ou o António morreram atropelados porque eram casos semelhantes ao do Domingos? Estão a condenar o Domingos à mesma sorte, à morte? Que resposta é essa? Que atitude é essa? Não desistimos e queremos que todos conheçam o Domingos e que ele tenha um mundo melhor, digno de um ser. Dá trabalho? Dá, claro que sim, mas por isso é que existem entidades competentes para estes casos.
Deixem-se de palavras bonitas e exemplos passados que não deveriam ter acontecido! O Domingos, há muito que se perdeu, já não tem mais nada a perder, por isso… mata ou morre? Fica nas mãos e na consciência de cada um, e principalmente de quem o deveria tratar, cuidar e não julgar.