Quem viu a série O Sexo e a Cidade lembra-se, provavelmente, daquele episódio em que Charlotte, a mais “bem-comportada” das amigas de Carrie, fica obcecada com o brinquedo sexual da moda dos anos 1990: era um vibrador em forma de coelhinho. A novidade era que o aparelho não só era introduzido na vagina, como qualquer outra “ferramenta” do género, como trazia uma espécie de apêndice, em forma de orelhas de coelho, criado para estimular o clitóris. Foi uma grande revolução sexual à época – embora hoje, convenhamos, já não teria o mesmo buzz.
Agora, o protagonismo é de uma maquineta que se tornou conhecida por ser um sugador de clitóris, prometendo fazer o mesmo que a língua de um parceiro/a, mas de forma mais “eficiente”. Ao todo, tem 11 programas de pulsação, ou talvez seja melhor dizer 11 velocidades. Por pouco mais de 100 euros, o Satisfyer Pro, que invadiu o mercado no início do verão, garante uma maior eficácia – como quem diz, o orgasmo em dois minutos. Mas o que é que tudo isto quer dizer sobre o prazer da mulher do século XXI e sobre o que parece ainda lhe faltar na cama?
Há, registe-se desde já, assim à vista, algumas diferenças entre os dois exemplos. Primeiro, este não ficou famoso por culpa de uma série de televisão, mas graças às redes sociais. A segunda é que, hoje, as mulheres têm mais consciência da importância do clitóris no prazer feminino – daí que, como este aparelho se revelou extremamente eficaz, se esteja a falar de (mais) uma revolução.
Eis o tal de Satisfyer de que se fala
Mas como funciona, exatamente? A descrição técnica refere um brinquedo com uma suave boquilha ergonómica, que permite sugar e acariciar a parte visível do clitóris, não oferecendo o tremor do costume dos vibradores ditos comuns. Conhecido como Satisfyer Pro, está já, espante-se, a conhecer variações, a ser revisto e atualizado. Ou seja, como avança o El Pais, há os sugadores e há também os sónicos: os primeiros funcionam através de um mini aspirador ajustável em ritmo e intensidade; os segundos serão mesmo capazes de gerar ondas ultrassónicas e de fazer o clitóris estremecer muito além da sua parte visível. O essencial, assinala o diário espanhol, é que “é fundamental que as mulheres entendam que a penetração não é a única fonte de prazer” e que “façam com que os seus pares também o entendam”.
Apesar de ter passado despercebido durante muito tempo, o clitóris é o único órgão que parece concebido para dar prazer. Com mais de 8 mil terminações nervosas, é preciso ter em conta que este tipo de sugador que agora está a ter tanto sucesso só estimula a parte externa, a chamada glande. Além disso, ajudou muito ao caso que este Satisfyer – e suas declinações – tenha sido divulgado nas redes sociais: a promessa, mesmo que vã, de algum anonimato, parece ter ajudado a esclarecer dúvidas como “é normal ter mais de um orgasmo por sessão”, “se é muito barulhento” ou ainda “como fazer para o integrar nas brincadeiras a par”.
São também as plataformas de venda online que estão a assegurar que, de acordo com os seus dados, mais de 80% das pessoas que os utilizaram chegaram ao orgasmo em menos de dois minutos – mesmo que, depois, todos os manuais do sexo lembrem que o que é agradável para uma mulher possa não o ser para outra, como quem diz, cuidado para não ter nenhuma deceção com este novo amante tecnológico que – celebre-se isso, também, já agora… – já nem usa pilhas e é recarregável por USB.
“Não tem de ser substituto de nada”
O verdadeiro progresso trazido pelo Satisfyer é, no entanto, segundo os estudiosos do tema, pôr os interessados e interessadas no prazer feminino a falar disso mesmo. “O facto de haver um brinquedo novo no mercado que promete superar tudo o que se conhecia até agora não quer dizer que os nossos parceiros/as sejam incompetentes”, salienta, antes de mais, Ana Carvalheira, psicóloga clínica e terapeuta sexual (que escreve regularmente sobre o tema no site da VISÃO) – a insistir que “o prazer a solo não tem nada a ver com o prazer que se tem a dois”, e que este sugador, como se tornou conhecido, “não tem de ser substituto de nada” porque, muito simplesmente, pode ser usado a solo. “É mesmo preciso acabar de vez com essa ideia de que a masturbação só existe porque os parceiros/as não cumprem os objetivos.”
Em suma, o sucesso deste sugador, como todos os outros brinquedos que prometeram, a seu tempo, uma maior satisfação no feminino, quer sobretudo dizer que só falar-se disto já é uma conquista. “As mulheres têm direito a ter prazer, de forma satisfatória e completa”, insiste ainda Ana Carvalheira. Como quem diz, sem tabus, medos ou vergonhas, e com a consciência de que a sua sexualidade lhes pertence.
Além de tudo isto, as pessoas – homens e mulheres – parecem estar a esquecer um outro detalhe que faz toda a diferença, insiste a terapeuta: é que “o clítoris não é só aquele pedacinho de dois centímetros, aquilo é só a glande”; pelo contrário, assinala, trata-se de toda uma estrutura com uma grande parte interna que lhe dá, no total, nove centímetros.
Assim, é verdade que o clítoris guarda a chave do prazer sexual feminino, mas não se pode ficar só pela “ponta do iceberg”, é preciso ir mais fundo. “A genitália feminina é complexa porque não está toda à vista. Mas não há essa coisa do orgasmo clitoriano ou vaginal. Há um orgasmo que resulta da estimulação do clítoris. Seja em que parte for. Depois cada uma é que tem de descobrir as suas preferências.” Palavra de especialista.