A primeira vez que Charles Littnam viu a imagem de uma foca-monge com uma enguia a sair-lhe por uma narina foi há dois anos. O biólogo liderava há cerca de uma década o Programa de Investigação das Focas-monge Havaianas e nunca ouvira falar de um incidente semelhante.
A fotografia vinha num e-mail em que o assunto era simplesmente “Enguia no nariz”. Investigadores no terreno perguntavam-lhe o que fazer, queriam saber se existia algum protocolo, mas era coisa inédita e, depois de vários e-mails e telefonemas, decidiu-se que o melhor seria tentar puxar com toda a força a enguia.
“Havia só talvez uns cinco centímetros de enguia a sair do nariz, por isso foi como naquele truque em que os mágicos tiram lenços e eles estão sempre a sair, a sair, a sair”, descreve Littnam ao Washington Post. Em vez de lenços, apareceu uma enguia morta, com quase 80 centímetros.
Desde então, a equipa de cientistas já se deparou com mais três ou quatro casos idênticos, o último este outono. De todas as vezes, as focas ficaram incólumes, nem sangue perderam, e as enguias já estavam mortas ou morreram durante o procedimento. Uma fotografia com a última foca-de-enguia–no-nariz foi partilhada a 4 de dezembro, na página de Facebook do programa de investigação, e tornou-se rapidamente viral.
Ao fim de dois anos, os biólogos continuam sem saber como é que as enguias vão parar ao nariz das focas-monge do Havai, uma espécie ameaçada de extinção que tem apenas 1 400 exemplares. Já surgiram várias teorias, quase todas desmontadas por Charles Littnam.
Para começar, as presas favoritas das focas – peixes, polvos e enguias – escondem-se nos recifes de coral. “Elas gostam de enfiar os seus focinhos nos buracos, e cospem a água da boca e fazem mais uma série de truques”, conta o investigador. Neste processo, seria possível uma enguia acabar entalada na narina da foca. “Mas são enguias muito compridas e com um grande diâmetro”, nota. Além de que as narinas das focas-monge são bastante musculadas e fecham sempre que elas mergulham à procura de comida.
Colocou-se também a hipótese de as enguias terem ficado entaladas quando as focas regurgitaram, como quando nos engasgamos a beber água e ela sai-nos pelo nariz, compara o biólogo. Mais uma teoria que Littnam afasta quase liminarmente – seria natural que a enguia saísse pela boca e não por uma narina, nota.
O biólogo tem uma explicação mais plausível – e bem humorada: as focas-monge adolescentes não serão assim tão diferentes dos seus homólogos humanos; também terão tendência “para se meter em sarilhos”, diz. “Quase parece como uma daquelas tendências dos adolescentes”, compara. “Uma foca juvenil fez esta coisa muito estúpida e agora as outras estão a tentar imitar.”
Pudessem elas entender os humanos e Charles Littnam teria um pedido a fazer-lhes, confessa ao Washington Post: “Parem, por favor”.