Entre casar e viver com vista para o IC19, na linha de Sintra, Paula Costa, 29 anos e Nuno Frade, 33 anos, escolheram mudar-se para Marvão e serem os primeiros investidores portugueses de um parque de campismo naturista. O desemprego súbito de Nuno, formado em Ciência Política, mas a trabalhar como administrativo numa empresa informática, deu o empurrão de que precisavam para investir em Cabeçudos, a 5 km de Marvão. À espera do primeiro filho, os dois conheceram-se nos escuteiros de Sintra, e foi nos acampamentos que descobriram esta vila do Alto Alentejo. Paula estudou Turismo e pensou que, um dia, poderia abrir ali um pequeno hotel rural. Mas, em 2005, o namorado desafiou-a para a primeira experiência, a nu, de ambos. Passaram um dia na praia do Meco e tudo correu dentro da normalidade, assumindo o respeito pelo meio ambiente e pelos outros. Depois de visitarem 15 dos 250 parques de campismo naturistas franceses, decidiram gastar 160 mil euros para comprar um terreno com dez hectares, casa e piscina. Já receberam os fundos do ProDer (Programa de Desenvolvimento Rural) e estão a reunir orçamentos para escolher o construtor. No site (www.quintadomaral.com), começam a chegar pedidos de informação, sobretudo de holandeses. Fotografados com a cadela Luna, avisam: “No inverno, os naturistas andam à paisana.”
Um contrato que não foi renovado levou Catarina Machado, 32 anos, a arregaçar as mangas para recomeçar a vida. Natural de Portalegre, cursou História em Lisboa e há dez anos escolheu Marvão para casar e ter os seus dois filhos. Em agosto de 2011, quando foi despedida da divisão de cultura da Câmara, o marido, Nuno, 42 anos, formador de educação física, luta e defesa pessoal na GNR, podia facilmente ter pedido transferência para Queluz, mas Catarina quis ficar na vila onde criara raízes. “Na minha cabeça tinha o projeto de uma mercearia antiga e Marvão precisa de desenvolver o comércio e o turismo.” Recebeu o subsídio de desemprego por inteiro, para criação do próprio emprego, e comprou o prédio que albergara a Casa do Povo, nos anos 30, junto do Largo do Pelourinho, na rua que desemboca no castelo. Para os cem habitantes da vila, a Mercearia de Marvão colmata as falhas do dia a dia, mas, a pensar nos turistas, oferece muito mais: castanhas, mel, queijos, enchidos, doces e artesanato tudo local, enaltecendo a riqueza da região. No balcão e no móvel, novos mas com desenho antigo, expõem-se talegos (sacos do pão), mantas, cadernos e ímanes idealizados por Catarina. Uma joeira (peneira), a máquina registadora da avó de uma amiga e a balança do veterinário da vila reforçam o cunho de velha mercearia. Jeropiga, pão quente e visitas guiadas com percursos temáticos serão os próximos passos.
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