Precisamente dois anos antes das eleições presidenciais de janeiro de 2016, o PSD estabeleceu o perfil daquele que poderia ser um bom candidato a Belém, a apoiar pelo partido. Definindo-o mais pela negativa, ou seja, pelo que “não deveria ser”, o partido liderado por Pedro Passos Coelho afastava a hipótese de apoiar alguém que pudesse ser visto como um “cata-vento político”. A generalidade dos analistas viu nesta recomendação uma farpa a Marcelo e o próprio professor acusou o toque, dramatizando, no seu comentário da TVI, declarando que, depois desta “boca”, recusaria vir a ser candidato. Os portugueses já tinham visto “Cristo descer à Terra” − e veriam o “milagre” pela segunda vez, um ano e tal depois: candidatou-se mesmo. Mas por que razão o título de cata-vento político lhe parecia assentar-lhe como uma luva?
Para muitos, levar Marcelo a Belém era como dar a chave da despensa a uma criança viciada em bolachas. O seu génio criativo, a sua arguta inteligência e uma enorme capacidade de trabalho, características aliadas ao seu instinto comunicacional que, durante quase duas décadas, em horário nobre, colocaram o País a seus pés, eram qualidades frequentemente canalizadas para a desestabilização e o exercício lúdico, mas irresponsável, da influência indiscutível. O cativante, simpático e moderado Marcelo − e a moderação foi um caminho de conveniência dirigido ao centro (onde se decidem eleições) através do comentário político − podia servir-se do mais alto cargo da Nação para dinamitar o sistema. A manipulação de factos fora, também, uma das suas especialidades. Tentando estar bem com Deus e com o diabo − uma tendência que frequentemente o prejudicou, mesmo durante os dez anos em Belém… −, tornou-se famosa a sua posição sobre a interrupção voluntária da gravidez, e que seria desconstruída pelo humorista Ricardo Araújo Pereira, num dos mais célebres e influentes sketches dos Gato Fedorento: “É proibido… Mas pode-se fazer!”

