Tudo começou em 1990, com cercos de toda a espécie e fugas de grande eficácia. Aos poucos, etapa a etapa, os músicos dos Rolling Stones foram ganhando confiança e reconhecendo a “paisagem” portuguesa. É dessas visitas que aqui se fala, entre a verdade e o mito ou não fossem eles os maiores. O sexto concerto dos Stones em Portugal é já no próximo dia 29, no festival Rock in Rio Lisboa
Se esta história fosse escrita com letras e linhas perfeitas, teria passado por uma noite de Santo António em bairro popular lisboeta, de preferência com sardinhas e fogueiras, há duas dúzias de anos. Algures em Alfama ou na Madragoa, o dono da maior boca registada pelo rock ter-se-ia cruzado com uma pré-adolescente tímida e morena, capaz de dar os primeiros passos amadores no mundo das cantigas, cruzando o reportório de Tina Turner e a tendência familiar para o fado. Este é, no entanto, o território reservado dos sonhos: é mais do que provável que Ana Moura tenha passado essa noite de 1990 no conforto de Coruche e o próprio Mick Jagger já tinha deixado Lisboa e Portugal rumo a outros palcos, logo a seguir ao concerto de 10 de junho, primeiro espetáculo português dos Rolling Stones.
O encontro com a fadista teria que esperar pelo momento certo. De resto, nessa estreia profissional entre nós, Jagger mostrou-se um sujeito reservado, porventura receoso, disponível apenas para boas refeições apetite que se confirmaria em escalas nacionais posteriores, para uma ida aos fados separado dos seus parceiros de grupo, para um aceno aos fãs ou uma foto de ocasião a pedido, e para uma forçada visita a um dentista brasileiro de Linda-a-Velha, Aloysio La Viola Fernandes para “cimentação provisória e profilaxia de um dente”.
Pagou honradamente os cinco mil escudos que lhe foram pedidos.
Ir aos fados
Jagger precisou de voltar para se sentir à vontade: em 1995, por exemplo, já juntou à comitiva um personal trainer com quem foi visto no circuito de manutenção de Monsanto.
Em setembro de 2003, quando os Stones inauguraram com lotação esgotada o Estádio de Coimbra (um dos cenários motivados pelo Euro 2004), marcou presença em Serralves, porventura para ver a exposição de Lourdes Castro que o museu portuense exibia na ocasião. Falhou por pouco uma mostra de Paula Rego, que inauguraria no mês seguinte ao da sua passagem.
E também não assistiu a uma palestra de Agustina Bessa-Luís. Quando o grupo de Angie e Start Me Up tocou no Estádio do Dragão, em 2006, Jagger regressaria a Serralves, polo de atração notório para o homem que, 16 anos antes, se mostrara muito mais distante. Até dos seus companheiros de estrada em 1990, o vocalista dos Stones viajou sozinho, em limusina, do Aeroporto da Portela até ao Parque Eduardo VII e deu instruções claras para que não houvesse álcool na sua suite (a presidencial, claro), contrariando a imagem mítica da banda; foi de forma solitária descontado um segurança descrito como “negro, baixinho e forte” que o seguia para toda a parte que alegadamente passeou pelo Bairro Alto.
É justo ressalvar, a propósito, que esse primeiro contacto, em 1990, mobilizou de forma invulgar a imprensa (ver caixa), sedenta de uma fotografia ou de uma declaração, havendo mesmo uma jornalista (Maria José Belo Marques, do Diário de Lisboa) a hospedar-se no Méridien, na esperança de conseguir chegar ao “barricado” 14.º piso. Na época, o termo “paparazzi” ainda não tinha tradução para o mercado português; mas a correria foi tão intensa que, de repente, toda a gente avistava um ou vários músicos da banda, fosse onde fosse.
Está por apurar se algum dos Stones presenciou, como chegou a noticiar-se, a passagem do Ballet Frankfurt pela Gulbenkian.
Certa e documentada foi a paixão assolapada de Keith Richards e Ronnie Wood pela guitarra portuguesa, durante uma ceia n’A Cabacinha, casa de ambiente fadista. Nem um nem outro dos guitarristas da maior banda de rock do mundo conseguiram grande coisa do instrumento nativo, mas terá nascido aí outro amor perene, o que reconhecidamente nutrem pelo fado. Richards chegou a escrever isto: “Adoro fado! Estive em casas de fado e sei que vou voltar! Portugal. Às vezes penso como é que um País tão pequeno conseguiu resistir sempre à Espanha.
Mas a resposta é simples: são povos completamente diferentes, as pessoas e a cultura são diferentes. Vocês, portugueses, são um povo muito importante. Andaram por todo o lado, foram pescar para o Canadá quando ninguém sabia que aquilo existia, exploraram África e andam sempre à procura de qualquer coisa. São um povo muito caloroso. É uma característica que me agrada muito. Depois, o fado. O vosso blues, o retrato de uma alma nacional. É uma forma única de identificação nacional que não encontro em mais lado nenhum do mundo!” Está explicada a presença de Ana Moura no palco dos Stones montado em Alvalade, em 2007. E fica justificada a maior gratificação da carreira da fadista Maria do Carmo, cabeça de cartaz n’A Cabacinha na noite em que por lá passaram Richards e Wood: 36 contos [180 euros]. Porque não tinham mais dinheiro nos bolsos, arriscaria a mulher que, 24 horas depois, sofreria novo abalo, quando o seu local de trabalho recebeu Mick Jagger, aconselhado pelos sócios, mas que só deixaria um autógrafo. Para algo de completamente diferente, com ponto de contacto único na gorjeta (20 contos [100 euros], escreveu-se à época), fica a me-Alto, em Lisboa mória do raid noturno do baixista Bill Wyman ao Plateau, onde foi visto a distância confortável, definida pelos guarda-costas a beber champanhe. É bem possível que o mais velho dos fundadores da banda já tivesse decidido aquilo que veio a consumar-se: que a estreia em Portugal coincidisse com a sua última digressão. E é muito provável que essa incursão na discoteca das Escadinhas do Duque fosse uma forma de mitigar a ausência de Mindy Smith, a teenager com quem se tinha casado um ano antes.
Para registo: a diferença de idades, 34 a mais para Wyman, foi uma das últimas polémicas comportamentais dos Stones.
Digressões gastronómicas
A reclusão de 1990 deu lugar a uma atitude muito mais descontraída nos regressos a Portugal. Em 2007, quando, segundo Nuno Braamcamp, um dos empresários responsáveis pelo show, foram os próprios músicos a insistir no regresso a Portugal e a Lisboa (o espetáculo do Porto, menos de um ano depois, fizera parte da “primeira volta” da mesma tournée, A Bigger Bang), chegou a acontecer o quase impensável: os Stones juntaram-se no restaurante e retiro fadista Bacalhau de Molho em convívio com músicos portugueses como Ana Moura, Jorge Fernando, Rui Veloso, Zé Pedro e João Pedro Pais. Vale a pena recordar que, em duas das etapas nacionais, 1995 e 2007, aproveitaram para gravar por cá. Com heróis nativos: Fernando Rascão, primeiro, Nelson Carvalho e João Bessa, depois, foram os técnicos em ação. O que permitiu saber, entre outras curiosidades, que Mick Jagger, em estúdio, só canta virado para norte…
O resto é um roteiro gastronómico que indicia o cuidado posto por quem lhes planeou essas incursões gustativas: passaram pelos restaurantes lisboetas Escorial e Casa da Comida, pelo cascaense Pescador e pelos portuenses D. Tonho e Dom Manuel.
Sem esquecer outro poiso, especialmente associado a Mick Jagger: o Alcântara-Café.
Na digressão de 1995, o garganta funda dos Stones terá aproveitado a data do concerto, 24 de julho, para ali assinalar, dois dias depois, o seu 52.º aniversário, numa festa em que, de acordo com a mitologia aceite, terá tido a companhia de um amigo de longa data, também ele conhecedor da magia dos palcos portugueses: David Bowie. Em toda a parte, os músicos deixaram uma imagem de boa educação e boa disposição, desmentindo aquilo que chegou a ser dito por fontes ligadas ao hotel Méridien, nos idos de 1990, quando os Stones chegaram a ser classificados como “javardos”, talvez porque Wyman estivesse constantemente a pedir tabaco e Richards “dormisse pouco e fizesse muito barulho” (sic). Essa ideia acabaria por ser desmentida nos capítulos seguintes, em que assentaram arraiais no Méridien e no Sheraton, ambos do Porto, e ainda no lisboeta Ritz.
De cada vez que voltam, os Rolling Stones, agora a cumprir 52 anos de atividade intensa e ainda responsáveis por algumas das digressões mais lucrativas da idade do rock, há quem se apresse a anunciar as despedidas e a garantir que “esta” é mesmo a última vez. O curioso é que, logo em 1990, Ricardo Casimiro, o empresário que arriscou o salto para os grandes concertos de estádio em Portugal, teve oportunidade de mostrar o seu sentido de humor depois de um jornalista insistir em retratar os Stones como os dinossauros do rock foram-lhe enviados ingressos não para o concerto mas para a exposição alusiva aos dinossauros, que então se podia ver no Jardim Zoológico de Lisboa. Agora, em mais uma volta improvável, eles aí estão, carregando consigo os grandes mitos e lendas que só uma carreira assim pode reunir. Não é de admitir que saiam e passeiem sozinhos. Até porque, se acontecesse a um deles o infortúnio de ser atropelado, só Ronnie Wood, 66 anos, escaparia à infalível categoria de “septuagenário acidentado”. E, desta vez, não haverá ao contrário do que aconteceu em 1990, por iniciativa de Mário Soares nenhum convite (mesmo frustrado, por desencontros de agenda) para que os Stones visitem o Palácio de Belém. Nem Mick Jagger perguntará ao senhor Américo, o motorista de serviço há duas dúzias de anos, os nomes das ruas por onde iam passando, nem precisará, como fez outrora, de mostrar saber quem foi o Marquês de Pombal.
Missão comprida
Mobilizava-se meia dúzia de jornalistas de A Capital, à caça do que fosse possível, nessa estreia oficial da banda por cá.
Alberto Peixoto, Carlos Alberto e António Fazendeiro, do lado das câmaras. Rui Miguel Abreu, Jorge Ferreira e eu, para a escrita.
Na Portela, estava o batalhão todo das secções de espectáculos. Corridas para cima (“vão sair pelas partidas”), atropelos para o lado (“seguem por Figo Maduro”), expectativa e ignorância quanto ao hotel havia reservas feitas em três de Lisboa e em mais um de Cascais.
Quando me sopraram o destino Méridien, só confiei porque era palavra de amigo. Entretanto, cumpria-se a suspeita: os Stones não passariam pela porta dos cidadãos comuns. Sabia que, se abandonasse o aeroporto, seria seguido. Pedi ao Rui Miguel e ao Peixoto que avançassem para o hotel e deixei-me ficar, num corpo presente que já sabia inútil. Quando a desmobilização foi geral, já depois das 4 da manhã, Carlos Alberto e eu acelerámos para o Méridien. Quando chegámos, duas ou três equipas de reportagem abandonavam o local, mas toda a gente ia cabisbaixa. Não dera nada. Voámos para o Bairro Alto. À janela do jornal, Rui Miguel Abreu esperava-me já em festa: “Está feita!” O Peixoto perseguira Mick Jagger pelo átrio do hotel, à revelia de todas as seguranças, e quando o cantor entrava no elevador, gritou-lhe: “Hello, Mick!”. O inglês virou-se, respondeu, disse adeus. e a fotografia estava no papo.
No dia seguinte, o grande Peixoto era saudado em take da Lusa e metia baixa por ter escaqueirado um joelho contra uma floreira do hotel. O jornal titulava: “Hello! Stones apanhados no átrio do Méridien” e “Jagger acena só para A Capital”. Exclusivo.
Missão comprida.