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O problema – tem de haver sempre um problema, senão não tinha graça… – do filme de Baz Luhrmann (O Grande Gatsby estreia-se hoje, 16, em Portugal, depois de ontem, 15, ter inaugurado a 66.ª edição do Festival de Cannes), é que o realizador australiano, responsável por filmes pouco ou nada interessantes como Romeu + Julieta (1996), Moulin Rouge (2001), ou Austrália (2008), não se apaixonou verdadeiramente pela personagem. Pode ter-se fascinado, arrebatado, entusiasmado e outros sinónimos, mas não se apaixonou de verdade. Porque Gatsby está, em versão masculina, para a história da literatura como a Madame Bovary ou a Anna Kareninna ou a Capitu: permanecerão sempre lá, a intrigar-nos, a acenar-nos debaixo de vários véus e a nunca terminar de dizer o que têm para nos dizer – e esta é a melhor definição de um clássico. Retirando, é claro, do enredo tudo o que seduzia os escritores do século XIX, o adultério feminino, e que, nos loucos anos 20 do século XX, pouco interessou a Scott Fitzgerald. Capitu, de Machado de Assis, tinha uns olhos de ressaca, oblíquos, de cigana dissimulada. Gatsby, o homem fabulosamente rico, que alimentava românticas especulações, “tinha um desses raros sorrisos que trazem consigo uma espécie de confiança, como só os encontramos quatro ou cinco vezes na vida”. Poucas mais pistas nos deu Fitzgerald do seu aspeto físico (também Assis foi parco nas descrições de Capitu e isso sustenta tanto o enigma como o magnetismo): que era elegante, robusto, com pouco mais de 30 anos, e portador de um formalismo de linguagem que quase raiava o absurdo – tratava todos por um muito, muito snob “meu caro”.
Insetos noturnos
O encanto de Gatsby está também nessa grandeza de se ter tudo e manter-se em estado de permanente míngua, porque nada nunca basta. O seu esplendor é a sua decadência. E é essa a metáfora do sonho americano, dos loucos anos 20, da lei seca, sim – mas estavam sempre bem guarnecidas as carteiras e as gargantas dos gangsters, de dólares e de álcool clandestino e barato. Nunca Wall Street prosperou tanto, nunca a sociedade americana se euforizou tanto, nunca as festas foram tão excessivas e desenfreadas como no pós-primeira guerra. Tudo isto, às portas da grande depressão, e depois foi o que se sabe… Mas o não enamoramento de Luhrmann pela personagem nota-se no facto de ter dado tanto “fora” e tão pouco “dentro” a Leonardo DiCaprio (um dos grandes atores da sua geração, tomara que seja desta que ganha o Oscar…). Ele deslumbra-se com as inúmeras toilettes de DiCaprio, detém-se no seu anel, nos seus olhos implacavelmente azuis, no seu carro amarelo, modelo único, nas festas de mil e uma noites na sua mansão com outras mil e umas divisões, num género castelo-de-novo-rico inspirado nos da Normandia, nos banhos na piscina de mármore, no alisar da sua madeixa loura. Usa, e bem (é para isto que ele serve), o 3D para sentirmos o borbulhar do champanhe, as pérolas que rolam pelo chão, os dardejares dos cortinados brancos, as plumas das almofadas que pairam no ar, o fogo de artifício, os vidros do carro a estilhaçarem-se… Mas faltou-lhe olhos de raios X para ir além das aparências (que, no filme, são mesmo muito importantes, é de frivolidade que se trata aqui). A paixão de Gatsby por Daisy (Carey Mulligan), no livro bem mais casta do que no filme, torna-se quase frouxa; é uma questão de vida ou de morte, mas não parece ardente, dura e resoluta, como Fitzgerald a definiu. No livro, há obstinação demencial, como um impulso suicida, no filme uma espécie de ingenuidade impávida. Porque, na realidade, toda a obsessão de Gatsby pela superficial e egocêntrica Daisy, que o faz construir um império, enriquecer estupidamente, e esperar, perseverante, que ela caia na sua teia-castelo, é muito mais uma questão metafísica – a de fazer parar o tempo, voltar atrás e retificar uma peça solta, que ficou fora de sítio num relógio desarranjado. É esta a sua grandeza, e é esta a sua tragédia. Gatsby é o homem que afirma: “Can’t repeat the past? Why? Of course you can!”. Acredita que o passado se pode repetir – porque não?
O milionário excêntrico abre as portas do seu palácio tão generoso quanto calculista. Aqui aflui todo o género de alcoólicos e boémios nova-iorquinos, como traças, sem serem convidados, e ele mantém-se discreto, na sombra, na esperança de que, um dia, também lhe apareça Daisy, seduzida como um inseto noturno, a testemunhar aquela opulência luminosa… Há nele qualquer coisa de aniquilamento, de destrutivo, só para que ela possa admirar as chamas que o devoram. Scott Fitzgerald conheceu bem este espírito autodestrutivo, que, no caso dele, era viver até a vida se dissolver num copo de champanhe, loucura e cirrose. O festivo e mundano casal Fitzgerald – Zelda e Scott – da geração dos escritores malditos (contemporâneos e próximos de Hemingway ou Faulkner), era conhecido pelos excessos, pelos caprichos, pelos desaires, pela embriaguez, pela transgressão, às vezes bastante infantil, pela rebeldia às convenções e ao bom-senso. Tinham tudo, como Gatsby, fortuna, glória, beleza, charme, admiração, mas uma compulsão para queimarem as asas nos tais holofotes extravagantes das festas e da fama. A sede de viver parece que nunca era saciada. Tinham o diamante na mão mas não resistiam ao prazer de o estilhaçar, só para ver como ficava. Acabaram arruinados, na demência (ela) e na doença e morte prematura (ele). Tragicamente sem nunca ver reconhecido em vida o sucesso do seu livro O Grande Gatsby, hoje considerado clássico, obrigatório nas escolas anglo-saxónicas, e na altura rejeitado, talvez, pela falta de consciência política que ostenta.
Jay Z nos anos 20
Na Grande Depressão que se seguiu à publicação do livro (de 1926) talvez não houvesse grande complacência para ler os desvarios dos absurdamente ricos. A geração proletária não lhe perdoou. Teve de ser reabilitado mais tarde, já nos anos 50, depois da Segunda Guerra Mundial.
E nestes tempos de hoje, remanescentes de outros que já passaram, talvez também não haja grande disposição para ver filmes com glamour que fere os olhos e indigna, caleidoscópios frívolos – a grande depressão do século XXI é agora. Por isso se lamenta que Luhrmann não tenha ido para além do óbvio, e olhado o espírito atrás da letra; que se tenha deixado deslumbrar por esta obra-prima mais pela sua exterioridade do que pela sua “interioridade”. Nomeadamente, sem se deter nessa intricada tessitura da personagem – e é pena, porque DiCaprio podia dar mais, muito mais, já o provou com Scorsese. E naquele clímax incrível, em que Gatsby força a amante a negar publicamente o amor pelo marido, e ela parece muito mais renitente do que a convicção dele supunha, o realizador torna a falhar. Fica-se pela superficialidade, não conquista a tensão, apenas denota o embaraço, o que é pouco, muito pouco. Apesar de ser de exibir uma fidelidade canina ao romance, aos diálogos (até no retardar da apresentação da personagem de Gatsby, que, no livro, é genial), as coisas não passam para o celuloide por mera transposição, às vezes tem de se dar mesmo uma grande volta para conseguir alguma aproximação que seja. O realizador acaba por transgredir apenas num elemento, tornando-se tão convencional que… agride: em pleno auge do jazz e do charleston, Luhrmann usa, para garantir uma contemporaneidade mais instantânea (e, talvez, uma banda sonora mais vendável) Jay Z, Lana Del Rey, Beyoncé ou os The xx – e também algum Gershwin, mas só para disfarçar. Mas essa disrupção musical não acrescenta, nem surpreende. Já em Maria Antonieta, a realizadora Sofia Coppola juntava Vivaldi com The Cure e bandas do pós-punk – e perto das festas de cair para o lado da corte de Luís XVI as raves com smart pills de agora ou deste filme parecem brincadeiras de bebés. <#comment comment=”[if gte mso 9]> <#comment comment=”[if gte mso 10]>