Há filmes que contam histórias de amor, crime, perseguição, dramas familiares, situações hilariantes, seres de outros planetas, pessoas comuns, casos de vida, angústia, vingança, libertação. Em A Árvore da Vida, Terrence Malick tenta contar a história do universo. Ao ponto de podermos duvidar a certa altura se isto é apenas um filme ou toda uma teoria cósmica, um ensaio, uma doutrina espiritual de uma religião unipessoal prestes a ser inventada (ou que vai sendo criada ao longo que o filme se desenvolve). Independentemente de Malick ser um dos mais geniais realizadores contemporâneos, daqueles que dá um toque de sublime a tudo por onde passa o olhar (nesse sentido ele próprio é uma espécie de messias do cinema americano), A Árvore da Vida é um filme místico, com um lado religioso irradiante, por vezes quase catequista. Não chega à metafísica de uma forma tão primária como Peter Jackson, em Visto do Céu, onde o realizador nos colocava na voz e no olhar da rapariga morta. Não entra no plano do mistério por desvendar de Clint Eastwood, em Hereafter, em que a vida além da morte é um mistério a investigar, tal como o desaparecimento de um colar de pérolas ou o caso Watergate. Também não entra nos tramites sadomasoquistas com o objetivo declarado de ludibriar e agredir o espetador, como faz Lars Von Trier, em Anticristo ou Ondas de Paixão. Terrence Malick faz um trabalho mais profundo, em que o deslumbre estético, e o trabalho de montagem nos encaminham para um além sem precedentes. Mas o Além, o Eden, existe, mesmo que se deixe envolver por uma catadupa impressiva, pelo que não restam dúvidas de que se trata de um filme crente ou, pelo menos, um filme de um crente.
Em A Barreira Invisível (1998), que continua a ser a obra-prima absoluta de Malick, o contexto de situação-limite, a Batalha de Guadalcanal, também servia de pretexto para uma reflexão sobre a própria existência humana. Só que a base era uma partida do microcosmos para o macrocosmos (cabia ao próprio espetador, se assim o entendesse, fazer essa passagem).
Em A Árvore da Vida, o cosmos está lá todo. Literalmente, é um filme com uma ambição infinita. Ali cabe a invenção do universo, a clemência dos dinossauros, um Eden marítimo e uma família americana. Como que sugerindo, claro, que isto anda tudo ligado e, através de um filme feitos de flashes, procurar, de alguma forma, ordenar o caos, dar uma lógica ao universo.
O que Malick procura fazer logo desde o primeiro instante, é a ambição máxima de qualquer realizador: filmar o pensamento. Daí o tom desordenado das imagens, que se encadeiam, e nos fascinam mais que não seja pelo hábil trabalho de câmara. Mas logo se percebe que no meio de semi-abstrações há algo maior que o realizador nos tenta transmitir, não de modo racional e linear, mas emocional e intuitivo. Na cena dos dinossauros, o mais forte esmaga o mais fraco ou mais forte apieda-se do mais fraco. Fazemos parte de um todo e, como dizia o filósofo, o primeiro choro de um bebé é o choro mais antigo do mundo.
Mais à frente, o filme recentra-se na vida terrena. Mas também aí se percebe que um dos pontos de debate de Malick, questão essencial, volta a ser religiosa. É a questão do bem e do mal. Na sombra do caçador, o bem e o mal eram representados nas letras tatuadas nos punhos de Robert Mitchum, aqui deixam-se representar pelo pai e pela mãe. E essa é uma questão comum a todas as religiões. Em simultâneo, o drama maior – a morte do filho – através do qual se exige a tal ordenação lógica do universo. Mas judaico-cristianissimamente, A Árvore da Vida elabora um ato de fé, quando, tal como Abraão faz com Isaac, a mãe entrega o seu filho à misericórdia de Deus. E o que vale é que o Paraíso existe. Eu vi, fica à beira-mar, estava para lá o Sean Penn a andar descalço.