Tanto mar, tanto mar. Tanta ventania, tanta quinquilharia. Tanto espaço, tanto sufoco, tanta pequenez. A primeira e extraordinária longa do realizador João Nuno Pinto, 41 anos (que vem da área da publicidade), traz um título do tamanho de um continente, a América, e, no entanto, passa-se quase integralmente na aldeia piscatória e balnear mais única e insólita de Portugal (quem sabe do mundo): a Cova do Vapor, numa encruzilhada entre o Tejo e o Atlântico (Trafaria), lugarejo sem escola, nem centro de saúde, sobressaltado por marés impacientes, e ondas usurpadoras, paraíso do desenrascanço e do chico-espertismo nacional, cheio de casas encavalitadas e cães vadios, puxadas de eletricidade, anexos improvisados, labirintos de betão, arquitetura de autor, imensa criatividade decorativa, azulejos, anjinhos de pedra, gaiolas de pássaros, leões do Sporting, arrebiques nos portões, meninos de Bruxelas a fazer chichi… Um lugar sem ordem, nem cosmos, onde a anarquia urbanística e o caos estético são quem mais ordena. E até parece que estamos dentro de uma metáfora construída não por palavras, e sim por tijolo e alvenaria. Mas deixemos isso para outras instâncias e concentremo-nos no set do filme, que é, todo ele, uma declaração de intenções. Ainda mais a casa que construíram de propósito naquele sítio, e que ganhou o estatuto de quase personagem, tornou-se também ela orgânica como os habitantes que por ela circulam. Toda a casa range e geme, bate portas, e ventila pelas janelas, com as entranhas, os fios e os contadores à mostra, como veias e órgãos vitais. Está apresentada a primeira personagem, e também a segunda: o mar, que é, ao mesmo tempo, horizonte de evasão e muralha de reclusão – “É tão pouco o que nos faz ficar, mas é preciso tanto para partir.”
E já vai sendo altura de começar a introduzir aqui as personagens de carne e osso deste filme. Lizza, a emigrante russa, abusada pelo pai, “para poupar a vida dele fugi da minha”. Que veio parar a esta América dos pobrezinhos, para esta casa cheia de bonequinhos, quadros com cavalos, roupa estendida na sala – e o seu suspiro deixa uma marca de condensação na janela. E para este covil de vigaristas de bairro, que assaltam velhinhas, parasitam imigrantes, traficam passaportes falsificados. Porque até na trafulhice somos diminutivos.
A desesperança
Num co-produção luso-brasileiro-russo-espanhola, o filme ficou, ainda assim, embargado durante anos por falta de financiamento para a pós-produção. “Demorei tanto a pensar, a rescrever o guião com Luísa Costa Gomes que pensei que o filme ficasse desatualizado. Afinal está mais atual do que nunca. Quando comecei, há quatro anos, estávamos mal mas não no estado em que estamos. Agora há desesperança em toda a gente.” O filme fala de gente encalhada, tal como o barco que, no meio da tempestade, lhes vem aterrar em cima do telhado e como um deus ex-machina divide a casa e a narrativa a meio. Com o som do mar o tempo todo (à espera de que, num momento crítico do filme, ele resolva exibir a sua fúria) e a música dos Dead Combo, imensa dinâmica e planos sequência, umas excelentes fotografia e direção de atores, o realizador mostra uma atenção fora do comum aos pormenores e à forma tão cinematográfica de filmar as palavras, com estratégias muito bem conseguidas de posicionar os personagens em diálogo. Oscila-se entre Kusturica e Ettore Scola – até há uma velhota acamada que tem o pecúlio do gangue escondido debaixo do colchão e a quem se tapa o nariz para introduzir a sopa goela abaixo – mas o realizador procurou, acima de tudo, duas coisas: “Encontrar a minha própria voz; e, apesar do lado burlesco e surreal, queria que o filme respirasse verdade.” Daí ter-se armado em Deus, ter criado aquele universo, construído e mobilado esta casa muito vivida, onde até o que não se vê existe: dentro dos armários estavam guardados louça e cereais e isso sente-se. Até os atores o sentiam, e impregnaram-se das personagens, sobretudo o casal, a russa Chulpan Khamatova, que fala num português impecável sem nunca ter aprendido o idioma (aliás, como os cinco atores russos do filme: “Vêm de uma escola de rigor, método e dedicação”) e o ‘fantástico’ e visceral ator Fernando Luís.” Depois ainda os cães que deambulavam entre a equipa, e que compareceram na rodagem “por um acidente feliz”, e andam a acasalar e a zaragatear por ali. E também há uma criança muda e subterrânea, sempre vestida de super-herói, mas que manipula pela calada e pelos esconsos da casa. E ainda Raul Solnado, na sua última aparição no cinema – morreu antes de ter visto o filme – no papel de um falsificador à antiga, um gentleman que ouve nacional-cançonetismo “naquela janela virada para o mar” e tem o retrato do D. Duarte no rebordo da roulote: vigaristas sim, mas com brio. “É um filme à beira-mar, como Portugal, um país num local privilegiado, à semelhança da Cova do Vapor, mas um país que não oferece oportunidades nem a quem está cá nem a quem vem cá parar. Não se incentiva o empreendedorismo. É engraçado, porque o nosso passado marítimo é glorioso, mas é esse mesmo mar que nos engole.”