O conto de Saramago Embargo (da compilação Objecto Quase, 1984) tem 14 páginas e duas personagens: um homem sem nome e um carro sem marca. O filme de António Ferreira, que leva o mesmo título (estreia-se hoje, dia 29), tem 83 minutos, várias personagens com nome e um carro com marca: um Opel Kadett. Uma é Nuno, que trabalha num roulotte de bifanas e inventou uma exótica máquina de digitalizar pés – é uma estreia no cinema do actor Filipe Costa mantém um registo correctíssimo neste equilíbrio arriscado entre o absurdo, a comédia e o drama (os americanos chamar-lhe-iam dramie). Depois há a mulher de Nuno que não quer chatices- para além das que tem: um secador avariado e um Embargo Nacional que deixa o país em estado caótico. A filha Leonor que vai para o infantário com um coelho de peluche sem cabeça. Também há o dono da roulotte que talvez seja maneta. O colega das bifanas, um velhote vendedor de sucatas velhas pouco cooperante, miúdos que saqueiam gasolineiras como cowboys do deserto Mad Max, e vários empresários potencialmente (des)interessados na maquineta dos pés. O filme começa numa época intencionalmente baralhada. Pode ser passado, ou muito futuro, ou mesmo já a seguir. Há carros abandonados nas ruas, as gasolineiras dizem “esgotado”, a roulotte tem pouca clientela, no rádio há um fórum que discute o embargo e a falta de combustível, e o casal discute a falta de perspectivas e as bifanas, eterno menu do jantar. É neste cenário muito apocalíptico, muito saramaguiano, como são sempre os seus what if (e se todas as pessoas cegassem menos uma: Ensaio sobre a Cegueira; E se no dia seguinte ninguém morresse: Intermitências da Morte; E se os árabes deixassem de nos vender petróleo: O embargo), circulam as personagens da segunda longa do realizador de Coimbra (Esquece Tudo o que Te Disse, 2002). E circulam é a palavra justa, porque é assim, em quatro rodas, que passaram a deslocar-se os humanos. Não andam, transitam. Não param, estacionam. Não correm, aceleram. Não comem, abastecem. Tudo se move a 98 octanas. O homem domina a máquina, manobra os motores, mete as mudanças. Só que o what if saramaguiano se desdobra. E se as máquinas passassem de dominadas a dominadoras. Ou então, noutras versões derivativas, se fossem acometidas de uma crise de doença das vacas loucas, ou de Gripe A (e toda a gente sabe que os motores gripes) ou outras paranóias colectivas. E se se tornassem temperamentais, reagissem à música sacra do auto-rádio, e impedissem o condutor de se descolarem do assento – uma espécie de maldição desejada, já que todos gostam de andar com rodas nos pés, com volantes nos braços e faróis nos olhos. Desde que sejam eles a decidir quando estes transformers regressam novamente à forma humana. É isto que a personagem de Saramago e a de António Ferreira não conseguem fazer: voltar a dominar a máquina, ou seja limitar-se a sair do carro. Se o conto de Saramago se ficava pela parábola, o filme de Ferreira tem o imenso mérito de acrescentar história, peripécias e aventuras, sem desvirtuar o espírito. O carro continua a ser símbolo de uma civilização que o homem já não consegue dominar, o desespero está lá, só que o realizador acrescentou ironia, humor, diálogos vivos, muito bem escritos, perfeitamente encaixáveis dentro da lógica de Saramago. E aí vai um homem, sequestrado por si próprio, sem explicações razoáveis, “nesse casulo quente e embaciado que o isolava do mundo”. Refém do carro, “caverna translúcida”, que também tem o seu temperamento, e motores que roncam e arfam de impaciência, como um animal de cascos. No meio disso gravitam um coelho, um digitalizador de pés, uns empresários manhosos, o tal bando de miúdos, que não estão no livro mas ajudaram a compor a longa (já que inicialmente estava prevista uma curta). Tanto o realizador como o escritor hão-de dar mais uma oportunidade à humanidade. Saramago já nos explicou noutro livro sempre chegamos ao sítio onde nos esperam”.
Quando os motores têm Gripe A
Embargo
e o carjacking é praticado pelo próprio condutor: Um conto absurdista de Saramago que nunca atropela o filme. Pelo contrário, é este que o acrescenta, expande e amplia
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