Um Luís Montenegro “vitaminado”, focado, atento, expressivo. Kennedy ganhou um debate assim, pela telegenia e pela expressividade. Quem ouviu JFK na rádio, achou que tinha perdido. Um primeiro ministro preparado e “brifado” – sabia os tempos de espera de hoje no Hospital de Santa Maria, unidade também visitada hoje por Pedro Nuno Santos, e tinha dossiers na ponta da língua (exceto o da prorrogação do jogo aos casinos Solverde, por não ser “nada com ele”…) – e escandalizado por o adversário “não ter limites”. Muito melhor ator do que Pedro Nuno, olha para a câmara, diretamente, quando pretende interpelar os pensionistas: “Os pensionsitas sabem que…”
Do outro lado, um secretário-geral do PS muito mais inexpressivo, muito mais monocórdico, mas muito mais acutilante no soundbite e no repentismo: “A política do PSD para os pensionistas é chegar ao Pontal e apresentar um bónus…” ou “o programa do PS tem ambição, o da AD não tem vergonha” e a cereja no topo do bolo: “Podia ter revelado os clientes há dois meses mas preferiu atirar o Pais para eleições, isto é gozar com quem trabalha”.
Mas vamos aos temas.
Apagão
Montenegro entra vivaço, assertivo, acutilante e bastante convincente na descrição do que o Governo fez. Na descrição, não na “discrição”… Um Conselho de Ministros de 12 horas e um monte de entidades públicas mobilizadas, comunicação no tempo certo e não quando o povo, sem luz, não podia ver televisão. Pedro Nuno explica mal o que faria de diferente: mobilização de um rol interminável de entidades e comunicados hora a hora? Como? A dizer o quê? Parece emperrado depois da intervenção cristalina do adversário.
Economia
Muito interessante, pela diferença. Quer nos números, quer nas previsões macroeconómicas, quer na conceção económica. Pedro Nuno ataca, bem, denunciando as duas faces da AD: uns números para a campanha e outros apresentados em Bruxelas. Montenegro inicia o longo exercício de tentativa de descredibilização do adversário: “Um economista não sabe isto?”. Basicamente, para o primeiro-ministro, os números inscritos no programa serão alcançáveis se o próprio programa for executado. Mas os números apresentados em Bruxelas terão de ser menos otimistas, porque a AD ainda não ganhou as eleições. A grande diferença é no conceito. O PS propõe mais dirigismo, um novo “relatório Popper” que identifique os principais setores a apoiar, como aposta do País. Um conceito próximo das economias emergentes asiáticas, como a da Coreia do Sul, em que o Estado orienta as empresas nas áreas que identifica como mais competitivas. A AD segue o modelo mais liberal, anglo-saxónico, de laissez faire: serão as empresas a decidir o que trará mais prosperidade.

Saúde
Um exercício de “quem diz é quem é”. Troca de acusações sobre o estado a que chegou o SNS. Montenegro é mais gráfico do que Pedro Nuno, quando este diz que tudo está pior do que o PS deixou e que o Governo falhou: “E eu é que falhei?!”, responde um irónico Montenegro, abrindo espaço para descrever o “caos” que terá herdado. Aliás, o líder da AD é o primeiro a falar em Fernando Araújo, peça-chave na campanha do PS, e Pedro Nuno aproveita mal a deixa. Podia ter dito: “Nós temos o prof. Fernando Araújo para apresentar. E vocês? A atual ministra? Não me faça rir…”. Bastava isto, em vez de se enredar por propostas confusas de “envolver a comunidade”, “equipas multidisciplinares” ou “mais autonomia às administrações hospitalares”. Tudo chinês, para o eleitor comum.
Spinumviva
Estala o verniz. Pedro Nuno tem a sua hora dourada, expondo, friamente, sem emoção nem piedade, todas as trapalhadas que fomos conhecendo, sobre Montenegro: a empresa, a consultadoria, as contas bancárias, a assistência jurídica à câmara de Espinho e o alegado favorecimento da empresa que lhe forneceu betão para a casa, o eventual favorecimento à Solverde. A estratégia de Montenegro é vitimizar-se, acusar Pedro Nuno de não ter limites e tentar espalhar a confusão, comparando o seu caso ao alegado caso de Pedro Nuno, mais do que esclarecido há anos, só porque também há uma empresa na família Santos. Um caso típico em que, nada tendo o rabo a ver com as calças, Montenegro dá um golpe baixo, recorrendo a desinformação. Isto seria o suficiente para perder o debate, se a sua indignação, pelo menos, na televisão, não parecesse tão sincera…
Pensões e Segurança Social
Pedro Nuno denuncia o grupo de trabalho constituído paa avaliar a susentabilidade da segurança social e que é composto de elementos favoráveis à sua privatização. Montenegro parece encostado às cordas e jura que não vai mexer no sistema, nesta legislatura, mas que talvez o faça numa próxima, depois de sufragado por novas eleições. Pedro Nuno não ataca este ponto como devia. Mas a dúvida instalou-se entre os pensionistas e, sobretudo, entre os futuros pensionistas…
Habitação
Não são assim tão diferentes. Ambos concordam em mais construção e o tema coloca Pedro Nuno mais na defensiva do que na ofensiva: afinal, já teve responsabilidades, nesta área. E puxa por louros: as casas recentemente entregues pelo ministro Pinto Luz foram lançadas por si. Critica, mas assegura que não reverte, medidas no campo do IMT e do imposto de selo para aquisição de habitação por jovens.

Governabilidade
Nenhum deles se compromete a remeter-se à oposição, caso fique em segundo lugar. Ambos estarão à espera de ver qual a composição do Parlamento e que jogos se podem fazer. O “professor” António Costa e a sua geringonça continuam a fazer doutrina.
Minuto final
Ambos repetem mais do mesmo e ambos desaproveitam esse espaço de “tema livre” para fazerem algo de diferente, original ou fora da caixa. Uma total falta de imaginação.
Balanço: Luís Montenegro, primeiro-ministro incumbente, partia com a vantagem da experiência no cargo, de deter o poder e de estar à frente nas sondagens. Um ponto bastava-lhe. Pedro Nuno Santos tinha de ir à procura dos três pontos. Mas não foi além do empate, que serve perfeitamente ao líder da AD..
As frases
Luís Montenegro:
“E eu é que falhei?! [Na Saúde]
“Nós temos uma capacidade de execução muito maior do que Pedro Nuno Santos e o PS estavam habituados”
“Pedro Nuno Santos não tem vida cívica, empresarial ou profissional” [para vir com acusações sobre a empresa Spinumviva]
Pedro Nuno Santos:
“Não falta ambição ao programa do PS, mas falta vergonha no programa da AD”
“Podia ter revelado o nome dos clientes [da Spinumviva] há dois meses, mas preferiu atirar o país para eleições, isto é gozar com quem trabalha!”
“Luís Montenegro não tem idoneidade para ocupar o cargo de primeiro-ministro”
“Não se vitimize, a vida não o tratou mal, nem todos têm a sorte de sair da política e conseguir dois ajustes diretos com duas autarquias dirigidas por companheiros de partido e amigos”.
“A AD estava tão habituada a cortar nas pensões que agora, quando cumpre a lei, julga que é um feito”
“A política do PSD [para os pensionistas] é chegar ao Pontal e apresentar um bónus”
“O fator de instablidade política em Portugal é Luís Montenegro”